quinta-feira, maio 25, 2006

Cristinne...



Era um dia como tantos outros quando Cristinne foi ao supermercado a pedido de sua tia. Fora ela e o irmão mais velho - um garotinho moreno e magro, de olhos castanhos e olhar sonhador.E era uma tarde que prenunciava uma linda tempestade, que Cristinne por extrema distração, não notou.

Enquanto voltava para casa a chuva prometida enfim desabou. Uma gota, e depois outra, e outra, e várias de uma só vez. Estavam ainda longe de casa quando a água surgiu e totalmente desprevinida, a menina começou a correr, quase em desespero, só queria chegar logo em casa. Notou então que o irmão ficara para trás numa tentativa que lhe pareceu um pouco vã, de apenas não se molhar.
_ Vem!! gritou com sua voz baixa, quase forçada.
O garoto a olhou com um certo espanto e um pouco confuso a encarou por alguns segundos e se decidiu por seguir Cristinne - esta corria à toda velocidade e seus chinelos escorregavam de seu pé pequeno e molhado. Descalçou-os. E neste momento em que se deixava restar sentiu o corpo frio e encharcado. Um prazer, uma paz. Não havia quase ninguém na rua, todos se refugiavam nos primeiros abrigos que encontravam a fim de esperar o término da chuva. Cristinne não se perguntou porque, não lhe interessava saber porque as pessoas esperavam, não se perguntou nem mesmo porque não esperar. Apenas se lançou na aventura.
Uma chuva forte, ventos tempestivos e ruas vazias. Era quase o paraíso. Chegou na quadra de casa, os chinelos na mão, a roupa pregada no corpo. O irmão já a ultrapassara e se encontrava no portão de entrada.
_ Porque não esperaram?? Ouviu o ralhar da tia.
_Ela saiu correndo!! disse o garoto apontando o dedo em direção a Cristinne que nesse instante via o olhar daquela mulher em sua direção, e sabia exatamente o que ela pensava naquele momento: ¨Que menina estúpida!¨
_ Porque você saiu correndo? perguntou o irmão enquanto lhe passava uma toalha. Cristinne já não prestava atenção. Repensou na corrida até chegar em casa, o vestido que pulava a cada passo largo que investia na tentativa de chegar ao seu destino, a água que pulava junto com todo o resto...
_ A chuva parou! Disse ela calmamente e observando pela janela uma fresta de luz que escorria por entre um céu quase negro. Não sabia porque não havia esperado o fim da chuva em um abrigo qualquer junto com o irmão. Poderiam ter evitado uma repreenda, estariam quentes e chegando naquele momento em casa. "E a chuva durou tão pouco!" pensou com uma certa nostalgia. Se tivesse feito isso não seria vista como uma pessoa inteligente, porque não era uma questão de inteligência não sair sob uma chuva daquelas, era uma questão óbvia. Mas ninguém teria lhe lançado aquele olhar de que se lança quando se faz coisas estúpidas.
E secretamente se perguntava também: porque não esperei a chuva passar? Por que não esperei?
Mas a resposta nunca veio, e se veio Cristinne era criança demais pra entender...


Renata Lôbo

Um comentário:

diógenes disse...

uau! Esse ficou perfeito!
pena não estar chovendo hoje...
bem que eu poderia fazer chover um pouco.....
bj