sexta-feira, abril 28, 2006

Olhar de gato negro

Tinha a força em si, sabia disso, e por isso se temia tanto. Gostava de pensar que era normal e às vezes até conseguia esquecer que o destino a esperava em uma curva fatal. Via as pessoas à sua volta se preocuparem com coisas pequenas, como cores de sapato e penteados da moda, enquanto ela se preocupava com as coisas que via.
Sentia que um dia - não muito distante - iria embora, ainda não sabia para onde, mas sabia que podia ir e não precisava sequer imaginar o que deixava para trás, assim que chegou estava fadada a ir...
Via o futuro, e aquilo que via não lhe agradava. Se ficasse tempo demais, jamais conseguiria se deixar ir. Se deixar ir era o seu destino, ficar era a sua morte humana. Com buracos estava acostumada, mas não sabia não os ter. Tinha que se forçar a cair neles, tinha que sentir a vida pulsando e escorrendo, como as lágrimas que derramava sempre que se machucava. Mas apesar de tudo, era feliz e forte. E o seu destino era fatal, tão fatal que tinha que correr para não perder o tempo que escorria na ampulheta gigante que lhe mostrava que o fim não se demorava muito.
E vivia depressa com a fúria dos gigantes que eram despertos, era misteriosa como olhar de gato, e os que a olhavam traziam em si uma interrogação imensa... Quem é? Porque é? Se soubesse se responder, talvez um dia restasse tempo suficiente pra conhecer as manias do lugar e se deixar amar pra sempre. Mas não sabia, e sobretudo, não podia saber. Sabia que tinha a força de um cavalo solto, mas era inteligente o suficiente para saber não comprar uma briga que não podia ganhar, não podia se ganhar. Nem ousava se desafiar a restar ou a saber. Era uma tirana e cumpria as ordens que se impunha, viver era um risco fatal, mas era o único risco que aceitava correr. E se deixava ser quando não podia mais ser...
Talvez algum dia restasse. Talvez algum dia alguém a roubasse de si mesma...Talvez algum dia amasse e pudesse tornar-se mansa e o seu fatal a abandonasse... Enquanto isso, olhava as pessoas preocupadas com as roupas da moda e fingia que via as mesmas coisas que elas, só pra não ter que se ir muito cedo, porque quando notassem que ela tinha realmente a força de um cavalo selvagem, já seria tarde e ela estaria em um outro lugar com o seu olhar de gato negro... misterioso.


(Renata Lôbo)

5 comentários:

diógenes disse...

Pessoa especial essa Verônika. A cada dia é mais raro quem ignore as banalidades e se preocupe em sentir o que quer que seja. Se for para ir ou vir, um dia ela o fará. A felicidade está em algum lugar – nem que seja em um dos buracos – e uma não vai se esconder da outra para sempre.

beijos

Norberto Luiz disse...

O tudo, o nada e o algo

Quando o nada torna-se algo
Este algo torna-se tudo
E tudo para uns
Pode ser nada para outros

Mas nada já é algo
Ao ser alguma coisa
Porque a ausência já não é nada
E sim algo
Algo não muito palpável
Algo não muito sensível
Mas algo

E algo me diz
Que este nada primordial em minha mente
Já virou palavras e mais palavras

Nada me faz parar
Tudo me faz continuar
Até que algo possa me mostrar
Que o tudo e o nada
São a mesma coisa
Nada mais do que
Duas faces da mesma moeda.

Nathali disse...

Renata, adorei especialmente esse post... ;))

Um beijo e um fim de semana do jeito que vc idealizar.. ;))

Anônimo disse...

oi minha querida amei sua visita
seu blog é de maisssss
achei tudo maravilhoso
espero ter vc no meu cantinho mais vzs,vou te linkr
bjusssss
sussa

márcia disse...

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venha conhecer meu outro blog
http://gatapuro mell.zip.net


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