segunda-feira, novembro 27, 2006

Lis de hoje

Ele acordou naquela manhã e o perfume dela ainda estava pela cama, pelo quarto, pela casa. Olhou para o teto pensando nela que já não exitia pra sempre, e em como a noite fora agradável. Se esperasse que tudo fosse perfeito, tudo seria caoticamente desastroso, sorriu com a conclusão a que chegara, fora apenas por não a esperar que ela aparecera naquela esquina, naquela noite e naquela hora. Com seus olhos castanhos avermelhados e cheios de tinta, ela olhou sem surpresa nenhuma para o homem que passava pela sua vida, olhou cheia de encantos, mistério e mulher, era ela assim, com um decote que mostrava que viera para a noite mesmo. No momento em que a viu, e também por não esperar por nada disso, espantou-se. Voltava para casa depois de uma noite cansativa com os amigos, ela não se importava de onde o homem vinha, apenas aproximou-se, inebriou-o com seu perfume, aquele que não sairia nunca mais dele, e da casa inteira. Olharam-se olho no olho, ela sorriu então, toda divertida com a confusão dele, aproximou-se mais, os corpos se tocaram numa tentativa de reconhecimento. Estava te esperando! disse ela em seus ouvidos. Agarrou-se em seu braço e começaram a caminhar lentamente sem trocarem palavras nenhuma. Seu perfume o envenenava e maltratava, seu corpo já era dela, aquela noite já não existia, tempo nenhum existia na palidez de seu mundo. Caminhou apenas, sem pensar no que viria, no que seria, quem seria. Chegaram à casa dele, não era muito longe daquela esquina onde encontraram-se, ela sabia disso. Um pequeno apê de homem que vive sozinho, sem amor nenhum pelas paredes, nos retratos ou no som, casa de ninguém. Tomaram vinho, ouviram música, falaram algumas palavras, nada de importante, nada pessoal, nada que lhes revelassem, nada que pudessem usar na vida seguinte para se maltratarem. Beijaram-se. Amaram-se. Ela lhe dera seu corpo, prazer, tudo que lhe era mundano e permitido. Ele lhe dera sua alma, aprisionada pelo seu perfume, lhe dera a sua casa, seu amor de homem, lhe daria filhos se ela quisesse, casaria, lhe daria um nome. Mas naquela noite ela aceitou somente sua alma, sem direito a reclamção, não mais a devolveria. Adormeceram depois. corpos exaustos, molhados, amados, dados...
E ele acordou naquela manhã e o perfume dela ainda estava pela cama...
Qual o seu nome? ele se repetiu antes de adormecerem.
Hoje, apenas hoje e apenas para você meu bem, eu sou Lis.
E sob o travesseiro encontrava-se uma única flor de Lis....

(Renata Lôbo)

....


Não sei o que fez tudo mudar de vez
Onde foi que eu errei
Eu só sei que amei, que amei, que amei, que amei
Será, talvez, que minha ilusão
Foi dar meu coração com toda força
Prá essa moça me fazer feliz
E o destino não quis
Me ver como raiz de uma flor de lis
(Djavan)

3 comentários:

Norberto Luiz disse...

oi!! eu li...

adorei...continue escrevendo, pois minhas leituras estão dependendo de vc...

bjos!!

Naty disse...

Oi Renata!

Vi um comment seu no blog de Nathali, falando sobre um texto meu. Fiquei muito feliz.

Obrigada,

Bjs!

Nathalia Duprat

diógenes disse...

Nossa!! É tão difícil aparecer um personagem masculino nos seus textos, mas quando aparece também... rs Meu, ótimo!!! E a frase dela: “Estava te esperando!”, naquela situação, daria arrepios em qualquer um. O final também foi perfeito.
Você é demais =]