quarta-feira, janeiro 18, 2012

Depois da meia-noite...


E ela se perdia assim, em uma tarde de chuva derretida, com pés descalços e o coração desbotado, enquanto algo dentro de si gritava com uma violência muda. Ela poderia correr o quanto quisesse, poderia fugir e se embrenhar no desconhecido caminho à sua frente. Paisagens novas e rostos frescos de memória não utilizada. Podia ser qualquer coisa que quisesse e mesmo assim tudo estaria certo, pois que ela não seria vista, sentida, perdida.
Preenchia o silêncio com suspiros vazios de uma melancolia calculada. E então afastava seus suspiros, seus dissabores, suas dores, com um falso riso e um som cristalino de inutilidade ornamentada, e quando se atrevia a olhar para dentro, via monstros e aberrações disfarçadas em um heroísmo barato. Sua força arquejava com uma respiração lenta e pesada em que o ar se recusava a entrar, a existir. Era forte. Ou pelo menos, era o que aparentava. E se algo estivesse errado, sorria. Um sorriso sem sol, sem calor. Sem nada. Como se soubesse tudo. Como se não soubesse nada. Fingia, era certo. Fingia muito bem. Fingia saber qual estrada seguir, quais passos dar, quando fazer os olhos sorrirem. Fingia uma certeza inexistente e acreditava em fantasmas, assombrações e bicho-papão à meia-noite.
Depois dessa noite, vem me buscar e me levar para longe daqui.
Acreditava em verdades perdidas, mal ditas e malditas... verdades fantasmas. Verdades que não eram mentiras, nem verdades. Verdades. Sabe como é? Ela fingia que sim. Fingia muita coisa. E até o seu sol parecia de mentirinha. Uma brincadeira inconsequente de cores sem cores. Depois da meia-noite, abrace seus sonhos, abocanhe seu ego, rasgue suas flores e me diga o que dizer.
Não deixava seus sonhos irem muito longe e os mantinham acorrentados, pois tinha medo de ser abandonada, de ver seus sonhos atropelados na rodovia esburacada. Segurava-os entre dedos muito leves e unhas coloridas, escarpadas de um sangue barato.
Depois da meia-noite só restava ela.
Ela e seus fantasmas. Que não se esquecesse deles, pois eles não se esqueciam dela.
Depois da meia-noite um corcel de fogo vinha lhe salvar entre sonhos e almofadas.
Depois da meia-noite o que restasse...
Lance os dados. Quero correr por campos coloridos. Pode me levar até lá? Te deixo entrar no meu mundo e você me acompanha enquanto eu te dou minha mão. E te largo entre labirintos bem desenhados. Sou escorpião, amigo. Sabe qual? Aquele que te abandona, te fere e se mata com venenos ilícitos, porque depois da meia-noite, se eu fosse você, corria por sua vida.
Corria pra sempre.
Ela era assim, fantasma em cemitério.
Mas era tudo muito sem querer. Um acidente delicado. Desses tão irônicos e trágicos que buscam uma gargalhada cínica no fundo da garganta. E uma lágrima espremida dos olhos. Uma antítese quase perfeita, quase feita, quase inteira. Quase ela. Esqueça as palavras. Elas aqui não te ajudarão, não te levarão para lugar algum. Porque da boca não virá verdade alguma, salvação alguma. Da boca virá maldições e um sem-fim de pragas. É o fim do mundo. Acredite em mim. Sua mentira era quase sincera. E tinha um fundo de verdade, um fundo de dor. É só pra te proteger, amigo. Juro. Para te proteger de tudo isso que você não conhece e não entende. Acha que está vendo o que está vendo? É ilusão de ótica, garanto. Tudo de faz de conta. Faz de conta que era assim, que não era tão difícil, nem tão complicado, nem tão solitário. Faz de conta que era tudo de verdade. Faz de conta que você entendeu, e aceitou, e amou.
Faz de conta que ela não se afogava em um sorriso falso.
Pegue a minha mão que o sol já vai nascer. Vou te libertar para sempre.
Até a próxima meia-noite.

Renata Lôbo

sábado, dezembro 31, 2011


- Eu não me importo com você. - disse novamente, mas dessa vez não era para ele. Era para ela mesma. Seus olhos estavam perdidos em algum lugar e quando o olhou fundo nos olhos, eles estavam pesados de alguma dor que ele não conhecia. Ela estava falando sério, e por um momento ele entendeu isso.
- Então o que você quer? Quais são as promessas em que você quer acreditar? - sua expressão era de confusão. Sua confusão não era pela pergunta, mas pela resposta.
- O que eu quero... - e seu olhar parecia vidro frio, um cômodo vazio numa noite de inverno. Quais lembranças sua mente visitava? - Amor. Mas não esse amor bobo que você promete para a sua namoradinha. Eu quero conseguir amar. E depois disso, aceitar que alguém me ame. O mundo e as estrelas que você promete não me interessam.
Ela continuou com seus olhos fixos nos dele, quase o afogando no silêncio que se instalara entre os dois. O garçom trouxe mais bebidas, e ele se pegou agradecendo silenciosamente aquela interrupção. Ela se levantou dizendo que ia ao banheiro, e vários minutos depois ele finalmente entendeu que ela não voltaria. Tomou mais algumas doses daquela bebida. O coração ainda batia de forma irregular. Quem no mundo poderia prometer ao outro a capacidade de amar? Ele se viu pensando isso horas depois, dias depois, semanas depois... anos depois.

Renata Lôbo

segunda-feira, novembro 21, 2011


Levando sustos pelo tempo. Acariciando as horas, que me mordem, cínicas.
Porque não é você que me persegue, mas o seu fantasma. A memória daquilo que não vivi. O desejo daquilo que não tive. Por isso que toda noite, antes de dormir, eu peço para quem quer me escute, para quem quer que cuide de mim, quem quer que esteja aqui. Por favor, por favor, me livra dessa obsessão, por favor.
Toda vez que sonho com você, isso me parte o coração. Toda vez que não sonho com você, me parte o coração também - quando você não aparece nesse faz de conta para me desejar boa noite, para fazer meu coração disparar e me sorrir esse cheiro que só você tem, tão seu, tão meu. Está faltando seu sorriso por aqui. Me parte o coração você nunca estar nas esquinas do meu mundo. E eu continuo pedindo, por favor, por favor, me livra dessa obsessão. Mas é que ficou tudo tão complicado que só a solidão ficou me fazendo companhia, e a sua voz sumiu do meu ouvido, e eu nem entendo nada disso. Tudo que me restou foi uma única lembrança que eu insisto em esquecer, que eu não olho nos olhos por medo, porque eu não sou uma lembrança e essa mão de via única que me dói inteira. Se eu me deixar guiar por isso que não entendo e mal aceito, vou acabar batendo contra os postes da sanidade, e isso pelo menos eu sei. Porque é só o seu fantasma que eu vejo. Por isso eu peço por favor, por favor...

Renata Lôbo

domingo, outubro 23, 2011


Se tudo fosse simples, talvez eu entendesse meu mundo. Se tudo fosse fácil... talvez eu destruísse tudo, só pra complicar um pouco.
Pensa que pode comigo? Pensa que consegue acompanhar? Entender?
Pense de novo.

Renata Lôbo

sábado, setembro 24, 2011


Vou me achar por aí, perdida entre a roupa largada pelo chão. Vou me vestir de mim mesma, me revestir com minha armadura rachada, que me protege dessa solidão que ameaça se instalar e nunca mais ir embora. Vou me proteger de você, porque cansei de me doer.

Mas é que de vez em quando a gente é surpreendida com um coração que lateja.

Lateja, lateja, lateja...

Renata Lôbo

domingo, setembro 04, 2011


Vou me deixar aos pedaços
para você me achar pelo caminho.

Renata Lôbo

sábado, julho 23, 2011


Tantos prós e contras que nem sei de que lado ficar.
E se o teto desabar? Essa noite? Esse dia? Esse instante?
Aquela janela da alma tinha a luz apagada e reflexos de uma lua prateada clareavam lágrimas esquecidas. Não era o fim, pensou assim, sem pensar mesmo. Uma longa caminhada e um destino incerto, não que fosse o certo, mas era o aceitável. Ondas de um calor sem noção.
E se as palavras se tornassem armas? Armas de verdade, dessas que tiram sangue da boca espumante? Da boca nem tão boca. Da boca que grita injúrias e perjúrios de uma mentira solene. Eu te amo era contado em faz de conta, e as contas de uma pérola enferrujada ressecavam um pescoço esquecido. Deixado. Me cante uma canção de ninar para que meus sonhos sejam doces nessa noite longa e negra, sem espera, a esmo em uma verdade sem resposta.

Renata Lôbo

sexta-feira, julho 01, 2011


E na humildade que sentia em não ter um caminho seu, se perdeu na noite úmida e sem amor. Um pra sempre assim, sem eco ou flores mortas enfeitando túmulos esquecidos.

Estou enterrando meus dramas no cemitério das lembranças. Cansada de me doer.

Renata Lôbo



É que você ainda está na minha pele, um formigamento de sensações.
Te quero aqui, para absorver suas palavras,
beber seu gosto, me afogar no seu cheiro.
Te quero aqui. Sem meias verdades nem falsos pretextos.
Apenas aqui.
Meu.
Sua.
O Pronome que quiser.
A gramática que escolher.
Você, meu verbo.
A conjugação perfeita.

Renata Lôbo

sábado, junho 04, 2011


Mas é que alguém ainda irá sangrar naquele caminho tortuoso que escolhemos. Facas, pedras, punhos... Tudo será arma fatal. Até mesmo nossas vozes que não alcançam o paraíso, nossas vozes serão a nossa mais extrema e última força. Devastação de tudo aquilo que um dia foi belo. Mas é que belo por belo, fiquemos como somos então. Sem excessos e perdas... ou seria excessos de perdas? Lembrará daquele sol vermelho de uma tarde sem som, e suas lembranças serão paisagens perdidas - filmes gastos de tanto ver e rever, mas ainda será a sua prisão-paraíso. Cuidado para não se perder. Nunca se perca! Mas é que cedo ou tarde a gente sangra de novo. Tortura de uma Inquisição Espanhola onde fomos julgados perigosos, possuídos por qualquer coisa que nem mesmo conhecíamos. Você, meu gato negro de sempre, parceiro de uma fuga inconsequente. Mataríamos para viver naquelas noites em que nos aquecíamos ao fogo pálido de uma fogueira improvisada. Prisão-paraíso. Nunca escapamos dessas estradas com vida, mas quem liga para essas fatalidades? Esses detalhes? Viver é um jeito de morrer, só quando estamos tão de cara com a morte – seja ela como for – é que sentimos latejar toda a vida contida nos dias solitários. Ou não seria isso? Ah, mas não quero dizer agora o que me disseram sobre viver, é que eu não gosto de coisas piegas! E conhece maneira menos piegas de dizer sobre uma vida inteira? Caio então na fatalidade em que construo esse futuro de imagens fictícias. Como enxergar isso tudo que não vejo? Como usar essas lentes que não só ampliam a imagem real, como também ferem o que tenho de tão precioso? Meu modo de ver o que posso enxergar. Desculpa, mas hoje não choro por ninguém. Meu único consolo - que desse não há consolo mesmo - é saber que sei aquilo que ninguém mais diz, é saber que, intuitivamente, sei de gentes e de futuros. Meu único consolo é que embora eu não veja aquilo que quero, sei sempre ver o que importa, mesmo que na hora em que devo dizer, eu permaneça muda, entalada pelo que sei. A gente anda tão só nesses últimos dias! Esses últimos segundos! A vida só existe nesses últimos segundos enquanto ainda retenho o pouco que sei. A vida dura muito pouco.

Eu e meus fantasmas vamos bem, obrigada. Uma grande família feliz, unida por sangue e lágrimas derramadas.


Renata Lôbo

Eu e meus fantasmas vamos bem, obrigada. Uma grande família feliz, unida por sangue e lágrimas derramadasEu e meus fantasmas vamos bem, obrigada. Uma grande família feliz, unida por sangue e lágrimas derramadasEu e meus fantasmas vamos bem, obrigada. Uma grande família feliz, unida por sangue e lágrimas derramadas.
Eu e meus fantasmas vamos bem, obrigada. Uma grande família feliz, unida por sangue e lágrimas derramada

sábado, abril 30, 2011



Parece que às vezes ela se engana, que se mata e se maltrata, que se acolhe no próprio peito e esquece as dores lembradas, parece que olha para o céu e vê passarinho, arco-íris e nuvens em forma de gato, algodão doce, parece que ela às vezes chora de saudade, chora de amor, chora por chorar, chora por dor, ela que sorri aos poucos, que se dá aos poucos, e que ama aos poucos, para aproveitar as alegrias raras, parece que ela maltrata a própria dor, que apela quando perde o jogo, que chama em voz baixa, singela, que segura na mão, que ruge de dor, que cora de vergonha, ela é passarinho, presa no faz de conta, só pra fazer de conta que não é, que é gente de verdade, cheia de liberdade e vontade, ela olha o reflexo no lago encantado e vê as cores que inventa, inventa uma vida inventada de tanta saudade, um dia ela jura que lembra, que não era assim, que era comum e normal, gente como a gente, parece que ela acredita em felicidade, parece que ela sorri e dança na chuva, e o sol acompanha, iluminando seus cabelos e incendiando tudo à sua volta, só para ela admirar, só para ele admirar, só para ela não chorar, porque dentro a dor é de verdade, e mesmo a beleza não apaga a lágrima contida, parece que ela se corta, só pra ver o sangue brilhar, só para apagar a própria chama, parece que ela não chora lá, mas é mentira, é só para enganar, porque ela é faz de conta, e o sangue não conta, o que conta é o que não se pôde dar, é como não se pôde amar, é como mesmo no meio de tantas alegrias e gentes, o que conta é o que não se pôde dizer, mas parece que ela vive como quem não vive, ela se faz ver, mas no fundo ela só podia esquecer, fazendo de conta que aquilo é sonho de verdade, que o que importa é lar, que é doce sonhar, que o seu sonho era um sonho de ninar, mas mesmo naquele mar ela não podia se afogar, parece que às vezes ela se esquece que é dela que se fala, que é dela que se esquece.



Acompanha a música nessa nova estação porque os sonhos... os sonhos se perdem no verão, como os vagalumes no Japão, gente lá e aqui, me fizeram lembrar qualquer coisa que já não importa, que esqueci depois que fechei outra porta.

Renata Lôbo

sexta-feira, abril 29, 2011



As estrelas estavam brilhando lá em cima, perfurando nuvens escuras em um céu de veludo. De alguma forma tinha a nítida sensação de que tudo estava em seu devido lugar. De alguma forma o caminho estava certo, e sorrisos de uma calma alegria pintavam lábios amargos onde antes não havia sequer palavras.
Não é algo simples, mas também não é complexo.
Que os dias se escurecessem ainda haveria algo em que se apoiar, em que se segurar.
Que todas as portas se fechassem ainda restariam janelas. E punhos capazes de quebrarem barreiras, muros de concreto.


E se eu cair, que haja mãos para me segurar...

Renata Lôbo

domingo, abril 24, 2011


Estranhava cada vez mais o mundo. Ela se amava e se odiava. Todo um pacote estragado de calos dormentes e semi-infectados de amor perdido.
Estava cada vez mais arisca.
E não é que o coração estivesse machucado, mas a paciência havia ido embora. Não queria que ninguém ficasse, porque uma pedra jogada no lago afetava até a mais profunda partícula de areia adormecida. Não queria ondas em seu mundo.

Renata Lôbo

quarta-feira, abril 06, 2011

Naquele momento, tudo era uma questão de perigo. A vontade de fugir estava escancarada no rosto, na pele, nos traços. A vontade de cair latejava a intervalos regulares, cada vez em ondas mais fortes como uma ânsia mal comportada. A vontade de ficar sentada em um canto remoendo pequenas picuinhas, cartas inexistentes de um passado tão esquecido e digerido. Sorrisos duvidosos e músicas dançantes disfarçavam o ar funesto, e seus dias de adeus caminhavam como se o mundo suportasse - ou se importasse. Queria mesmo era ir embora, ou não mais voltar. Que aquela que era ela fosse esquecida e que uma nova persona assumisse o controle para que as antigas dores fossem enterradas em funerais solenes. Uma nova ela assumiria novas dores recém-pintadas, recém-nascidas com gritos cortantes e ossos leves.

Que tudo fosse o necessário, o possível, o manejável.

Mas é que naqueles dias em que as estrelas se escondiam e o céu acinzentado quase chorava, naqueles dias o perigo era real e palpável como se um de seus antigos fantasmas sussurrasse segredos indesejáveis.

Não era culpa de ninguém. Não era sorte de ninguém. É que a verdade não era por acaso. Nem suas mentiras.

Renata Lôbo

quinta-feira, março 31, 2011

Lettera


Então que fosse assim, que se trocasse o certo pelo errado. As curvas pelo beco sem saída. Que se escolhesse o que não faz sentido, que se esquecesse os planos, os cálculos, a lógica, o perfeito. Que se esquecesse o mundo inteiro. Talvez fosse exagero, talvez fosse exatamente o que faltava.

Não estava caindo, não naquele momento. Tinha os dois pés fixos no chão. Isso significa que também não estava voando. De alguma forma era triste, mas de alguma forma era todo um mundo de cores novas e bons sonhos. Sonos tranquilos. Claro, havia vez ou outra os pesadelos. E a sanidade que tirava férias em ilhas tempestuosas. E a saudade e a loucura que vez ou outra dançavam ciranda em volta dela - que sorria, quase contente. Pois um mundo de felicidade fácil não lhe interessava. Havia que ter sangue em ciclos regulares, veias abertas em momentos críticos para que seus momentos de euforia fossem justificados. Que existisse os tropeços, os abismos, e as colinas - para que se caísse, sempre por um fio, sempre por um dedo. Que se perdesse tudo, que o vento a levasse, que o mundo desabasse para que se pudesse construir novas fundações, dessas que nenhum furacão derrubasse, que tempestades avassaladoras não fossem capazes de devastar. Mas ela sabia muito bem que era temporário, tudo muito por acaso, quase sem querer. Ela não se importava de reconstruir seus mundos, pois sabia que sempre chegaria aquele momento... onde tudo estaria em seu devido lugar.

Pensou mais um pouco. Mordeu a tampa da caneta. Girou o cartão-postal e admirou a paisagem na foto. Horas já haviam se passado. E as palavras não estavam lhe ajudando. Não podia dizer tudo sobre seu mundo. Não sabia como dizer.

"Oi, eu estou bem. Tudo vai bem. Tenho saudades. Bjos."

Enviaria no dia seguinte.



Renata Lôbo

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Lonely Man



Digamos assim, nada é o que realmente deveria ser, e isso era absolutamente um problema. Quanto às consequências... Talvez fosse importante, talvez não.

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Ela está à beira da histeria. Eu não diria que ela está errada, mas não consigo lhe dar razão. Está andando de um lado para o outro, gesticulando muito e falando rápido. Talvez ela tenha medo de perder o controle e desabar. Aposto que é isso que ela gostaria. Tenho certeza que se ela pudesse pegar as palavras com suas mãos rápidas, ela as faria entrar na minha cabeça à força. Eu tenho vontade de lhe dizer para desistir, então eu me lembro de que já disse isso e que ela ainda não desistiu.

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Eu desisti.

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Eu já não a escuto. É fácil ignorar o barulho que vem de fora. É como estar preso no trânsito e com o rádio quebrado. Estou ignorando e já nem sei há quanto tempo. Não me importa quantas vezes ela venha, eu simplesmente não consigo respirar de novo. Metaforicamente falando, eu estou sufocando. Não, já sufoquei. E é isso que ela não entende. Sou um homem com a barba por fazer de vários dias, com o mesmo pijama há vários dias, com comida estragada na geladeira, com uma casa que tem um cheiro estranho. Sou um homem que se afogou.

Em alguns momentos eu queria lhe dizer que me esquecesse, que seguisse com sua vida, que se casasse e fizesse lindos e revoltados filhos. Mas antes de mais nada, sou egoísta. Cheguei a essa conclusão em uma noite de bebedeira. Sou egoísta o suficiente para me afogar e deixá-la nessa missão de salvamento fracassada.

Ela deu um grito, uma vogal ainda ressoa da palavra perdida. Está tentando recuperar minha atenção. Essa mulher, que um dia foi a mulher da minha vida, ela sabe que eu não a escuto. Talvez não seja eu o egoísta. Ela está na minha frente, olhando nos meus olhos. Eu sei que ela está usando palavras doces tentando me incentivar, deve ter lido novos livros de autoajuda noite passada. Será que ela tem certeza que sou eu que preciso de ajuda, ou será que na calada da noite, encostada em sua cabeceira com seu abajur ligado, tentando achar as palavras certas, será que não é ela que está tentando se salvar? Será que eu poderia ser a ponte para essa mulher ser salva? Se pelo menos fosse tão simples.

Mais uma vez ela me olha com esses olhos frustrados, uma nuvem de desespero mancha seu semblante normalmente tão pacífico. Acho que ela vai desistir, tenho quase certeza de que ela finalmente encontrou seu limite. De alguma forma eu quase me sinto aliviado, mas em alguns momentos, em uma fração de segundos, eu me sinto desesperado e um tanto decepcionado. Minha terapeuta havia me alertado desse risco, ou dessa consequência. Em algum momento as pessoas se cansam de tentar ajudar, elas se cansam de não conseguir ajudar, e principalmente, elas se cansam de serem sempre afastadas. Não é como se eu me importasse. Não é como se qualquer coisa importasse.

Ela está no banheiro. Eu escuto a torneira ligada. Posso até imaginá-la se olhando no espelho tentando encontrar a coragem, tentando se encontrar. Ela tem uma decisão a tomar. Não quero tentar imaginar o que ela vai fazer, mas sei que quando aquela porta se abrir algo vai acontecer. Ela pode continuar tentando ser a boa moça que sempre foi e se machucar um pouco mais, ou ela pode ir embora, deixar a chave para trás, deixar essa história tão cansativa para trás... Ela pode me deixar para trás. E eu só consigo pensar que isso deveria importar.

Ela chorou.

Eu gostaria que as coisas fossem diferentes. Eu gostaria de poder reconfortá-la e lhe dizer que tudo vai ficar bem. Gostaria de caber nos seus sonhos e ser o homem certo. Pode parecer idiota, mas eu gostaria mesmo. Ao invés disso, eu tomei uma decisão. Uma decisão que muda tudo.

Ela parece não saber mais o que dizer, mas continua aqui. Ela não sabe que tudo vai mudar, e me pergunto o quanto ela vai me odiar. Minha decisão está tomada, e em meses essa é a primeira vez que eu me sinto decidido. Isso quase me revigora. Mas também me dá um certo medo.

Tenho vontade de lhe dizer: vou embora, amor. Tenho vontade mesmo. Mas não acho que ela entenderia, não acho que alguém no mundo entenderia. Vou abandoná-la. A decisão cresceu como fogos de artifício estourando aqui dentro com estalos que só eu escuto. Eles me deixam surdo para as palavras dela, me deixam surdo para todo o resto. Não acho que minha intenção seja fugir, por mais estranho que pareça acho que minha intenção é sobreviver. Será que faz algum sentido?

Eu a olho agora. Não apenas olho, como também a vejo. Estou me despedindo, tenho certeza. Não sei quando a verei de novo, não sei quando voltarei, sequer sei para onde vou. Mas vou. E deixá-la é minha forma de dizer amor. É minha forma de cuidar dela.

Sou egoísta. Eu sabia.


Renata Lôbo

sábado, janeiro 15, 2011


Verdade seja dita, ninguém me deixou cair, eu caí por conta própria. Cortei as cordas que me ligavam àquele mundo e pulei de olhos fechados enquato aspirava o ar rarefeito. Assumo meus erros, minhas culpas, minhas faltas. Assumo meu não estar, meus sonhos picotados, sua foto esquecida. Assumo tudo que destrui com mãos ávidas pelo fim. Assumo minha queda, meu abismo e tudo que em mim dói. E que te dói. Ou te doeu.

O ciclo se completa, ou se fecha. Estou fugindo de novo. Procurando, talvez. Ou fingindo ter certeza de que o quebra-cabeça pode ser refeito. Mas falta um pedaço, uma parte. Uma parte que ficou escondida em escombros perfeitos. Assumo essa culpa também. Estou sempre me boicotando, me achando de amor inútil e inocente. Ópera de amor fugaz.

Então eu vou chover por hoje. Só hoje. Amanhã é outra promessa.
Não era um sonho, afinal de contas.

Renata Lôbo

segunda-feira, janeiro 10, 2011



Como dizer o que quero dizer? O coração anda mudo de cansaço da expectativa, nunca dizer o que se emudeceu no peito tornam os dias pesados e murchos... Vai-se vivendo então como se pode, dia após dia, as obrigações diárias, o mundo vai girando contraditoriamente, se esquece de alguma coisa - o que era mesmo?? - e então respira fundo, logo vai passar, e a noite chega para emudecer o resto do mundo... Ah, mas ando tão cansada da mudez humana. 'Where is your heart, baby??' É a verdade humana que açoita os pensamentos presos na linha invisível, do dia de amanhã e o nada abismal de cada um, vamos vivendo um passo de cada vez e a estrada é larga demais, nos afastamos então, com receio de que alguém nos tome por pessoas de sentimentos. - Como você está? -Estou bem! ela diz. 'Where is your heart?' Ela diria, timida e num único fôlego: Estou me acabando, os dias parecem longos demais, meus olhos estão cada vez mais vazios, estou morrendo, acho, de uma doença lenta e não catalogada, e então olharia com os olhos em desespero, orgulhosa demais para dizer: me salva! Olharia então para a outra e diria, com um sorriso amarelo - E você? Como está? Já pressentia desde já o abismo nos olhos da outra. Estou sozinha. Seriam as palavras não-ditas guardadas no silêncio pressentido.

Vamos dizendo então para o nada e para o ninguém...

Renata Lôbo

quinta-feira, dezembro 09, 2010



Então me deixa brilhar que vou chorar mais tarde. Minha verdade está escondida, minhas trevas disfarçadas de sombras gentis. Você não veria nada se eu não te dissesse. Se eu não te mostrasse, as cores continuariam contentes em girassois envenenados... Mas não te mostro. Por pura vingança te deixo acreditar em arco-íris transplantados de felicidade barata. Espero que se machuque. Espero que a vida te doa pelo menos um pouco. Coração de gente grande é assim, um monte de cicatrizes de guerra, um pouco calejado, alguns chegam mesmo a faltar um pedaço, quase a metade, e de vez em quando ainda sangra, nos dias de chuva até dói um pouco, como joelho velho em um corpo novo. E se ele cantar em noite de lua cheia, não se assuste. Mas lembre-se de mim. Talvez o meu coração também esteja cantando. Serenatas no vão do tempo. Um pouquinho de memória, e um pouco de alcool só para acompanhar, e uma ressaca sem fim. Saúde!

Renata Lôbo

segunda-feira, dezembro 06, 2010

A sensação de 'estar superando' tem engatinhado aqui dentro, somos velhas amigas em encontros desastrosos. Caminho lentamente com o coração falho, lembranças engavetadas, sabe como é? Talvez agora eu possa encarar as escolhas que fiz com mais orgulho que dor. Com mais amor e menos mágoa. Amor por mim mesma - se é que sobra algo. Dê o braço a torcer e peça por mim, estou arriscando muito. Feridas semiabertas, ou seria semifechadas? Olhe para mim! Tenho novas cores, novos traços, o esboço de um sorriso antigo.
Talvez eu supere mesmo. Talvez eu corra cirandas encantadas e rasgue páginas. Um número de cada vez. Um dia de cada vez. Um sonho por dia. E um dia por sonho. Memórias transbordando sem finais felizes, sem ponto final. Só você e eu. Não. Só eu. E hoje. Porque o pôr do sol era magico e era só meu. Um céu inflamado de dores superadas e cuspidas, pois não quero mais nada disso.

(Confesso que por vezes, ainda estou afundando lentamente, e às vezes chego a segurar o fôlego, pois tenho medo de me afogar pra sempre... Confesso que o sangue está correndo na direção contrária, que minha alma continua de pontacabeça, que sinto saudades de sentir amor, não o de outras pessoas, mas de mim para qualquer alguém. A solidão está me devorando aos poucos, um pedaço de cada vez.
Confesso que superar não é tão divertido, porque no final não sobra nada, nenhum pedaço de história para agarrar no meio da noite como um cobertor de criança... Sinto falta de cheiros que me levem para qualquer outro lugar que não aqui... Sinto falta de ser gente, perdi o jeito e já não sei como me segurar à borda da normalidade...
Um Ouriço assustado. É o que sobrou da minha casca. )


Contravenções e Contradições, sou um pouco de tudo. De tudo ao meu tudo, que seja bom meu próximo mundo. Cicatrizes superadas. Só por hoje.


Renata Lôbo