Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Lonely Man



Digamos assim, nada é o que realmente deveria ser, e isso era absolutamente um problema. Quanto às consequências... Talvez fosse importante, talvez não.

.

Ela está à beira da histeria. Eu não diria que ela está errada, mas não consigo lhe dar razão. Está andando de um lado para o outro, gesticulando muito e falando rápido. Talvez ela tenha medo de perder o controle e desabar. Aposto que é isso que ela gostaria. Tenho certeza que se ela pudesse pegar as palavras com suas mãos rápidas, ela as faria entrar na minha cabeça à força. Eu tenho vontade de lhe dizer para desistir, então eu me lembro de que já disse isso e que ela ainda não desistiu.

.

Eu desisti.

.

Eu já não a escuto. É fácil ignorar o barulho que vem de fora. É como estar preso no trânsito e com o rádio quebrado. Estou ignorando e já nem sei há quanto tempo. Não me importa quantas vezes ela venha, eu simplesmente não consigo respirar de novo. Metaforicamente falando, eu estou sufocando. Não, já sufoquei. E é isso que ela não entende. Sou um homem com a barba por fazer de vários dias, com o mesmo pijama há vários dias, com comida estragada na geladeira, com uma casa que tem um cheiro estranho. Sou um homem que se afogou.

Em alguns momentos eu queria lhe dizer que me esquecesse, que seguisse com sua vida, que se casasse e fizesse lindos e revoltados filhos. Mas antes de mais nada, sou egoísta. Cheguei a essa conclusão em uma noite de bebedeira. Sou egoísta o suficiente para me afogar e deixá-la nessa missão de salvamento fracassada.

Ela deu um grito, uma vogal ainda ressoa da palavra perdida. Está tentando recuperar minha atenção. Essa mulher, que um dia foi a mulher da minha vida, ela sabe que eu não a escuto. Talvez não seja eu o egoísta. Ela está na minha frente, olhando nos meus olhos. Eu sei que ela está usando palavras doces tentando me incentivar, deve ter lido novos livros de autoajuda noite passada. Será que ela tem certeza que sou eu que preciso de ajuda, ou será que na calada da noite, encostada em sua cabeceira com seu abajur ligado, tentando achar as palavras certas, será que não é ela que está tentando se salvar? Será que eu poderia ser a ponte para essa mulher ser salva? Se pelo menos fosse tão simples.

Mais uma vez ela me olha com esses olhos frustrados, uma nuvem de desespero mancha seu semblante normalmente tão pacífico. Acho que ela vai desistir, tenho quase certeza de que ela finalmente encontrou seu limite. De alguma forma eu quase me sinto aliviado, mas em alguns momentos, em uma fração de segundos, eu me sinto desesperado e um tanto decepcionado. Minha terapeuta havia me alertado desse risco, ou dessa consequência. Em algum momento as pessoas se cansam de tentar ajudar, elas se cansam de não conseguir ajudar, e principalmente, elas se cansam de serem sempre afastadas. Não é como se eu me importasse. Não é como se qualquer coisa importasse.

Ela está no banheiro. Eu escuto a torneira ligada. Posso até imaginá-la se olhando no espelho tentando encontrar a coragem, tentando se encontrar. Ela tem uma decisão a tomar. Não quero tentar imaginar o que ela vai fazer, mas sei que quando aquela porta se abrir algo vai acontecer. Ela pode continuar tentando ser a boa moça que sempre foi e se machucar um pouco mais, ou ela pode ir embora, deixar a chave para trás, deixar essa história tão cansativa para trás... Ela pode me deixar para trás. E eu só consigo pensar que isso deveria importar.

Ela chorou.

Eu gostaria que as coisas fossem diferentes. Eu gostaria de poder reconfortá-la e lhe dizer que tudo vai ficar bem. Gostaria de caber nos seus sonhos e ser o homem certo. Pode parecer idiota, mas eu gostaria mesmo. Ao invés disso, eu tomei uma decisão. Uma decisão que muda tudo.

Ela parece não saber mais o que dizer, mas continua aqui. Ela não sabe que tudo vai mudar, e me pergunto o quanto ela vai me odiar. Minha decisão está tomada, e em meses essa é a primeira vez que eu me sinto decidido. Isso quase me revigora. Mas também me dá um certo medo.

Tenho vontade de lhe dizer: vou embora, amor. Tenho vontade mesmo. Mas não acho que ela entenderia, não acho que alguém no mundo entenderia. Vou abandoná-la. A decisão cresceu como fogos de artifício estourando aqui dentro com estalos que só eu escuto. Eles me deixam surdo para as palavras dela, me deixam surdo para todo o resto. Não acho que minha intenção seja fugir, por mais estranho que pareça acho que minha intenção é sobreviver. Será que faz algum sentido?

Eu a olho agora. Não apenas olho, como também a vejo. Estou me despedindo, tenho certeza. Não sei quando a verei de novo, não sei quando voltarei, sequer sei para onde vou. Mas vou. E deixá-la é minha forma de dizer amor. É minha forma de cuidar dela.

Sou egoísta. Eu sabia.


Renata Lôbo

quinta-feira, abril 15, 2010

A deusa da Lua


Lá na Lua, naquele satélite frio e iluminado por estrelas, vivia uma moça de olhos grandes e pernas pequenas. Sua espécie, muito antiga e medrosa, abriu um buraco no solo lunar fazendo vários túneis, e passaram a viver assim, debaixo da terra, onde o terreno brilhava e era noite todo tempo. A princípio, a população subia para a superfície pelo menos uma vez por ano em seu diferente calendário, quando o Sol parecia muito próximo e na Terra havia eclipse. Os primeiros povos a viverem debaixo da terra sentiam falta do ar frio e do brilho das estrelas, eles passaram para a próxima geração as lendas sobre essa terra assustadora e linda. Na medida em que envelheciam e os guardiões da passagem para a superfície morriam, os jovens se tornavam cada vez mais medrosos acomodados ao aconchego de seus lares, terminaram passando à outra geração histórias sobre monstros mitológicos vivendo na superfície, criaram um herói lunar que teria levado seu povo para o mundo subterrâneo, salvando-os assim da extinção. O mundo lá fora foi fechado para sempre.
A terceira geração cresceu entre verdades e mentiras, não sendo mais capazes de distinguir o que era a verdade, ou até onde tudo aquilo era mentira. Na quinta geração nasceram bravos exploradores e curiosos homenzinhos engajados na busca pela passagem para a superfície. Houve mortes. Desabamentos. E no final, a loucura corrompeu aqueles que quase alcançaram o mundo lá fora.
A sétima geração sabia que houvera uma época em que os povos viveram na superfície. Ouviram lendas sobre as estrelas e sobre uma bola flamejante, e embora ninguém mais acreditasse nessas histórias, havia uma única coisa que lenda nenhuma revelava: Porque os antigos haviam ido para o subterrâneo? A oitava geração viveu em paz, sem fantasmas da superfície. A nona geração viveu angustiada: faltava alguma coisa em seus mundos, a terra brilhava e aquecia seus corpos pequenos, mas todos tinham o mesmo sentimento... Devia haver mais alguma coisa! Mais brilho! Mais sentimento! Mais vida!
A décima geração passou a sofrer de saudade aguda e sem saberem ao certo a causa da enfermidade nem como encontrar a cura, pouco a pouco começaram a se definhar. Na décima primeira geração não nasceu quase ninguém. E na décima quinta, uma única garota nasceu e seus pais morreram quando ela tinha sete anos.
A última garota da última geração tinha olhos grandes e pernas pequenas.
Quase não sabia falar e já havia esquecido seu nome, pois ninguém mais a chamava por ele. No subterrâneo lunar ela encontrava tudo que precisava para sobreviver e em sua cabeça tinha certeza de que ela havia surgido do chão, como uma semente de uma planta, e o mundo sempre havia sido dessa forma.
Ela se lembrava de uma planta como ela, mas não tinha certeza de que aquilo havia de fato acontecido, sonho ou não, a planta tinha cabelos longos e olhos grandes como os seus, e deles sempre escorriam chuva. Ela lhe cantava canções estranhas que a garota nada entendia, pois falavam línguas diferentes. Mas ela se lembrava de uma coisa, e disso tinha certeza, aquela planta era muito bonita. Não conseguia se lembrar quando ou como a planta havia ido embora...
A moça andava o tempo todo. Tinha pés grandes como os de um pato e ossos fortes nos joelhos. Não conseguia dormir no mesmo lugar por mais de dois dias, os túneis eram longos e a levavam para várias aldeias abandonadas, casas vazas, a Lua era muito grande e era toda dela!
Às vezes chovia água do céu de terra, às vezes chovia de dentro de seus olhos e ela limpava com suas pequenas mãos sem entender o que era aquela água de gosto estranho.
Foi seguindo seu instinto nômade que a fazia seguir sempre em frente que ela encontrou a última aldeia. Entrou por uma ruazinha estreita, pegou uma passagem aberta por uma planta, subiu várias pedras, entrou em um buraco escondido em outra rua mais estreita, engatinhou por passagens escondidas e subiu uma planta grande de corpo duro e antes de entrar no último buraco, viu sem entender, o esqueleto do último guardião preso no cipó de uma árvore lunar. Havia um capacete em seu crânio seco e nele havia palavras talhadas a fundo, mas ela não sabia o que era aquilo, ninguém nunca a ensinara a ler e aquela já não era mais a sua língua.
Ela empurrou uma pedra que tampava a superfície e um ar frio lambeu sua testa escura. Ela se assustou, mas não tinha medo. Saiu do buraco e sorriu com sua boca cheia de dentes pontudos e amarelos. Sorriu para as estrelas que lhe sorriram de volta brilhando com mais intensidade.
Ela se deitou de costas naquele chão duro e poeirento e admirou sem palavras que expressassem aquela bola azul e verde no céu. Adormeceu. E quando acordou, foi explorar aquele mundo novo. Agora não havia túneis, ruas, caminhos, aldeias. A Lua era imensa, e era toda dela. Ela era a última de sua espécie naquele satélite vazio. Ela era a Deusa da Lua.
Durante anos continuou andando em frente em campo aberto. Não olhava para trás e nunca sentiu falta do buraco e do mundo que deixara em seu passado. Silencioso demais. Então ela andou, dormiu, comeu, viveu sua vida nômade como sempre. Até que um dia avistou uma montanha vermelha e se aproximou fascinada. Só quando se aproximou foi que notou que a montanha respirava, e regularmente fazia sons estranhos, e se mexia. Ela notou que não era terra, mas planta. A planta mais linda que seus olhos já viram. Tinha um focinho imenso, redondo e escuro, não possuía orelha, mas dois buracos até que pequenos para o tamanho daquele bicho, sua pele de escamas grossas brilhava intensamente. A criatura a esmagaria com uma única pata, e pensando nisso ela sentiu algo bem próximo ao medo, mas não conhecia o significado desse sentimento, então o ignorou. O bicho abriu seus olhos, e ela viu duas bolas amarelas com fendas negras, e a respiração dele era pesada e perigosa. Havia asas grandes e enrugadas, mas ela não sabia o que era isso.
Ele a observou por alguns segundos. Sem o menor interesse. Aquela criatura tão pequena e insignificante não lhe interessava. Não daria nem mesmo uma boa refeição. A criatura fechou os olhos, virou a cabeça para o outro lado, apoiando-a sobre a pata imensa, e adormeceu novamente.
Ele era o último de sua espécie e diferente da garota, a criatura conheceu seus pais, teve amigos e se lembrava de todos os dragões que morreram, deixando-o com sua coleção de memórias. Ele estava sozinho e por vezes, quando adormecia, tinha a esperança de não mais acordar. Havia muito tempo que ele esperava.
Então acordou horas mais tarde e para seu desespero, a lua continuava fria e as estrelas lhe sorriam debochando de sua sorte. O último de sua espécie. Sua surpresa, no entanto, foi notar que a pequena criatura de cabelos desgrenhados dormia profundamente encostada em sua imensa barriga. Ele não sabia que bicho era aquele. Nunca havia visto nada parecido. Ele quis lhe perguntar coisas sobre sua vida, mas não teve coragem de acordá-la, ao invés disso, ficou velando seu sono até que adormeceu de novo.
Dias depois o Dragão voava para longe da menina de olhos grandes. Ficou decepcionado demais quando descobriu que não falavam a mesma língua e desejou nunca tê-la encontrado, pois assim não teria tido espaço para a esperança que habitou seu imenso coração, enquanto na ocasião, velava o sono daquela criatura insignificante. Mas por mais que ele voasse para longe, ela sempre o encontrava e passavam algum tempo juntos até que ele decidia fugir dela de novo. Batia suas asas e partia docemente. E quando ela o encontrava, dias depois, o Dragão sentia-se feliz e grato por ela não ter desistido. Até que ele parou de fugir.
Adormeciam sempre juntos, ela encostada por vezes sob suas asas que lhe protegiam do frio, ou sobre sua imensa barriga quente e barulhenta. O Dragão acostumou-se a velar seu sono, sentindo-se imensamente feliz quando ela suspirava em meio a algum sonho. Ela era tão frágil, notava, que ele poderia esmagá-la sem o menor esforço. E esse pensamento lhe atormentava.
Tornaram-se inseparáveis. A menina não podia mais viver sem aquela imensa planta. E o Dragão não podia viver sozinho de novo. Ambos se amavam. E viveram seus últimos anos na Lua. As últimas criaturas de suas espécies se encontraram e se completaram.
A moça de olhos grandes e pernas pequenas tinha medo, apenas às vezes, daquela imensa criatura que cuspia fogo pelo nariz, e na medida em que fora envelhecendo, passou a ter medo de muitas outras coisas. Era constantemente assaltada pelo medo do escuro, os sons fantasmagóricos daquela Lua vazia, e agora ela sabia dos perigos de morrer esmagada. E apesar de não falarem a mesma língua, tanto ela como o Dragão concordavam com uma mesma coisa, a solidão era muito mais perigosa.

Renata Lôbo

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Essa estranha bondade



Era óbvio que ela não sabia que aquilo aconteceria. Mas em que mundo as coisas poderiam funcionar assim também? Onde as catástrofes anunciam sua chegada quando por instinto precisam ser tão discretas? Afinal, quanto mais vitimas aquele furacão levasse melhor seria para ele, pois só assim ele seria lembrado, temido, respeitado. Na sua vida era assim que as catástrofes agiam, e em suas costas o alvo perfeito, silencioso e certeiro. Sendo assim, nada lhe alertara sobre o que estava prestes a acontecer.
Fazia sol e o suor escorria por sua testa e suas costas. Era de se esperar que o tempo estivesse quente, mas aquilo parecia uma tortura, era como estar no próprio inferno e ter que sorrir inocente fingindo que simplesmente não sabia de sua própria condenação. Havia sido condenada. Quando e porque já nem se lembrava. Era assim e ponto final. Questionar também não era uma escolha aceitável. É que se começasse a fazer perguntas por aí, só Deus sabe aonde é que ela poderia chegar. Poderia chegar até a verdade, e que horror seria isso. Que ofensa gravíssima! Como é que poderia viver ou se olhar no espelho se descobrisse suas próprias verdades? Se tirasse suas máscaras como é que poderia sorrir ou responder às perguntas mais simples para as pessoas mais desconhecidas? Onde quer que fosse seria apontada na rua e escutaria aos cochichos os comentários mordazes de sua infâmia, - vê aquela pessoa ali? Ela sabe quem ela é. Ela sabe. – Que horror!
E então aconteceu aquilo naquela tarde. Ela não se sentia bem. Sentia tanta dor que se perguntava: por que sempre eu? Porque não o vizinho ou o filho do pastor? Era tanta dor que tinha vontade de rolar ali mesmo na rua e gritar como uma criança histérica, mas era tão bem comportada que continuava ignorando seus impulsos. E engolia em seco a febre que lhe açoitava o corpo deixando-a sem ar. Apenas não se sentia bem, não era necessário um escândalo. Dor? O que era isso se não a frescura daqueles que nunca a tinham enfrentado de vez? Antes que se deixasse levar por aquele mal estar, controlava-se com vozes gritantes em sua cabeça: É SÓ ISSO QUE VOCÊ TEM? SÓ ISSO? ISSO NEM ARRANHA! ISSO FAZ COCEGAS DE TÃO PATÉTICO! E então erguia a cabeça, forte e altiva. Não era uma pessoa fraca com suas dores, era muito mais forte do que qualquer um poderia imaginar, mas ninguém imaginava. E embora controlasse a dor na unha mesmo, na raça, e por dentro sorrisse orgulhosa de seu feito, sua expressão, no entanto, transparecia toda aquela luta inútil. Tinha a tez pálida, os olhos fundos e uma expressão carrancuda que não passava despercebido para as pessoas que a olhavam. E apontavam o dedo sem nenhum pudor, como é que ela ousava ser infeliz? Como é que ela ousava estar mal humorada? Sua função era sorrir para as pessoas desconhecidas, era rir de suas piadinhas sem-graça e fazê-las acreditar que isso era tudo o que ela mais queria na vida, era essa a sua função, ela não devia mostrar às pessoas que o mundo era um lugar frio e pouco acolhedor. Como é que ela ousava jogar na cara das pessoas daquele jeito tão cru, que na verdade o mundo cor de rosa de pessoas felizes era uma verdade absurda? Quem era ela para estragar aquele retrato pintado por uma realidade alienada e falsa? E por trás de todo dedo, toda expressão, o que restava era pura raiva. Todo mundo naquele dia estava bravo com ela porque ela estava infeliz, porque ela sentia dor.
Então apareceu aquela pessoa. Apareceu de lugar nenhum, se ela tivesse visto aquele caminhar talvez pudesse ter imaginado, pudesse ter suspeitado e quem sabe teria corrido para bem longe daqueles olhos. Mas como eu disse, as catástrofes não se apresentavam antes de acontecer, quanto mais desprevenida suas vitimas estivessem, melhor seria.
Aquela pessoa se aproximou, teve que olhar duas vezes. Primeiro a suspeita, depois a confirmação. Ela se aproximou um pouco mais e então perguntou, sem o menor pudor como aquelas pessoas de dedo longo e olhar maldoso mas era totalmente ao contrário, e isso a assustou um bocado. Era normal levar bofetadas na cara, foi assim que aprendeu a crescer, a cada bofetada que a vida lhe presenteava a fazia crescer um pouco mais, era assim, hoje é Natal: plaft! Hoje é seu aniversário: plaft! Feliz Ano Novo! Plaft! Plaft! Era só para não perder o hábito. Plaft! Para não se esquecer!
Imagine então a surpresa dela quando aquela estranha pessoa se aproximou com seu ar de felicidade barata e lhe perguntou se ela se sentia bem. Em que mundo as pessoas fazem isso? Como é que aquela pessoa podia quebrar o acordo do tempo impunemente? Era como ir contra a ordem natural das coisas, como aquela história absurda do cara que nasceu velho e morreu jovem. Um absurdo só! A resposta ficou entalada na garganta e quase a sufocou. Teve que lembrar de respirar, e se lembrar de como era falar, e aquilo não era justo, não tinha sido ela que infringira as regras, era só o que lhe faltava agora, morrer pelo crime de outra pessoa. A pessoa sorriu e repetiu a pergunta. E aquilo... Que porcaria era aquela? Veja bem, se ela ganhava de presente da vida bofetadas, ela certamente era boa em reconhecer gentilezas forçadas, gentilezas mentirosas, falsas bondades. Mas aquilo, aquilo era pura gentileza, aquele sorriso era de uma pessoa verdadeiramente gentil, e ela teve que recuar um passo. Se a Madre Teresa tivesse realmente existido, o que para ela até então parecia um absurdo, pois pessoas daquele jeito eram pura invenção, então certamente eram da mesma raça, a Madre e aquela pessoa sorrindo à sua frente. Da mesma raça, pois que no mundo aquilo só podia ser de uma raça diferente. Evoluída? Talvez, não era o importante, a questão era que ela estava estupefata e conseguiu apenas balbuciar uma resposta involuntária. Não, não estava se sentindo bem. Na verdade estava sentindo um pouco de dor, nada demais. Mentiu. Em resposta ganhou outro sorriso e aquele arrepio também involuntário e doloroso que partia do braço esquerdo irradiando um medo constrangido. Sorriu também, não aquele sorriso caloroso, nem sabia se era capaz de sorrir daquela forma, apenas sorriu embaraçada em uma vergonha muda. A pessoa se ofereceu para lhe buscar um remédio o que ela recusou com uma alegria mentirosa e um sorriso falso, tão falso quanto toda a sua vida. A pessoa insistiu um pouco mais, fez algumas perguntas e a preocupação que exalava pela sua voz a deixava mais desconfortável lhe causando calafrios, e sentia o gosto amargo do pânico subindo pelo estômago. Quanto tempo mais? Aqueles minutos mais pareciam a eternidade aterradora do fim. Até que a pessoa lhe desejou melhoras, sorrindo e seguindo seu caminho, não olhou para trás e nem imaginou o desastre que havia deixado em seu caminho, tudo por causa daquela gentileza gratuita. Os destroços dela continuaram lá, e nem se importava mais com os dedos e os olhares de reprovação. Sentia-se aliviada, pois o perigo já havia passado, mas também se sentia destroçada, e demorou um longo tempo para colar todos os seus pedaços perdidos naquela tarde quente. Demorou mais tempo ainda para superar aquele excesso de bondade. Até que o mundo voltou a girar de forma coerente.

Renata Lôbo

domingo, maio 18, 2008



Como é que se dizia mesmo naquela época? ah, sim. Era uma vez...
Naquele mundo onde elas existiram, uma garota de cabelos vermelhos e sua amiga de cabelos negros. Ambas se conheciam há muito tempo e desde sempre se tinham uma à outra. Porque naquele mundo em que viviam, uma pessoa sozinha não era nada e nem ninguém. Então se encontraram numa tarde de domingo, por acaso mesmo. Pois essas coisas sempre eram por acaso. Não há nomes nessa história. Viviam há algum tempo naquele mundo. E isso também é o suficiente. Estavam em crise. E foi assim que essa história começou, ou como diria melhor, terminou.
Naquela tarde uma delas iria embora, não era para sempre, mas o fato é que iria embora. Caminhando lentamente e em silêncio, a ruiva acompanhava a morena até o lugar onde se veriam pela última vez. A parada de ônibus. Foi então que notara um sentimento surgir em meio à multidão de sentimentos que lhe habitavam nesses tempos. Levou a mão à boca tentando parar a respiração e o instante para traduzir em palavras compreensíveis para sua própria alma. Aquele sentimento tomava forma e tornava-se aos seus olhos quase uma coisa viva. Segurou no braço da amiga querendo dizer o que descobrira naquele instante. Esta parou e olhou-a nos olhos esperando que as palavras retidas jorrassem feito tempestade. A ruiva tentava então encontrar as palavras que lhe escapavam, e em seu íntimo um vazio se remexia, como quando se falha um degrau da escada. Olhou para o chão. O que mesmo descobrira? Ruborizou-se. Tornava-se vermelha a cada vez em que tentava dizer sobre si mesma, não importando o assunto. Falar sobre a alma dos outros era fácil. Mas como despir a própria alma perto de desconhecidos na parada do ônibus? Tentou inutilmente afastar-se das pessoas que ali estavam, e quando de sua boca surgiram palavras, eram quase sussurros. Começava a se desesperar em silêncio por que aquele sentimento surgira nela e não queria que morresse calado. Tinha medo de fantasmas. Começou docemente a dizer, jurando pra si mesma que desconhecidos eram apenas desconhecidos.
- Sabe que eu tenho medo?
- De quê?
Olhava então para sua casa que se situava não muito longe, abrangendo o sentimento para melhor expulsá-lo.
- Se...
Cortara a voz horrorizado. Aproximava-se alguém que ela conhecia e pensava a conhecer. Despir a alma perto de estranhos já era difícil. Perto de um conhecido-estranho então, impossível.
Cumprimentaram-se. A morena também conhecia-o. Jogava-lhe charme. Passatempo de gente carente. Sorriram. Depois voltara a atenção para a amiga que permanecia muda.
- O que você estava dizendo?
Esta, sorrindo amarelo tentou esconder o desapontamento, não conseguiria dizer. Pensando que nada seria pior foi que notou que o ônibus da amiga chegava manso, lá não muito longe. Torcendo intimamente para que não fosse o ônibus certo, mas que fosse o certo para o conhecido-estranho. Desapontara-se outra vez mais. A morena constatando que estava na hora de realmente dizer 'tchau', ou simplesmente 'até logo' - pois esperava que se reencontrassem logo naquela cidade distante onde a amiga ruiva prometeu que iria para não dizerem mais 'adeus' - deu os ultimos ajustes na pesada mochila e notou meio vagamente o olhar aflito da outra, ignorando logo depois. Estava ansiosa demais para pensar no que quer que fosse.
- Espera o próximo, passa rapidinho! Era a tentativa desesperada da ruiva, queria tanto dizer o que precisava dizer.
- Não posso, dissera um tanto desconcertada. Minha mãe pediu que não demorasse. Tenho que terminar os preparativos, sabe como é... sorriu transparecendo toda a sua alegria.
Abraçara a amiga desejando de todo coração a rever em breve. Precisava tanto dela ajustando suas emoções, pois ninguém mais sabia tão claramente como lidar com suas confusas emoções de adolescente em crise, apenas a amiga ruiva que não se chocava quando se deparava com os pedaços de sua alma largada no fim de tarde e de um relacionamento conturbado.
A ruiva lhe dissera um 'tchau' meio mudo desejando do fundo do coração que a amiga fosse feliz e que aquele novo mundo a acolhesse com carinho, pois sabendo o que acabara de saber, não se veriam tão cedo. Continuou olhando o ônibus que se afastava na sua mansidão e nele levava a menina de cabelos negros que por tanto tempo fora parte de sua vida. Sabia que agora tudo seria diferente, pois estaria uma vez mais sozinha nesse mundão que tanto temia.


Notara nessa tarde que não iria embora para aquela cidade longínqua onde supostamente reencontraria sua amiga. Pois notara nitidamente que não estava pronta ainda para ir embora. Olhando sua casa não muito longe, sabia que uma vez que fosse embora nunca mais voltaria. Uma vez que fosse embora, não teria mais para onde voltar. Se fosse embora seria para sempre e não tinha garantias de que para sempre fosse uma coisa boa. Tinha medo. Quis deseperadamente dizer a amiga que estava com medo. Esperava que esta a reconfortasse dizendo que não havia o que temer. Tudo ficaria bem, o melhor a se fazer era realmente partir. Esperava que a amiga lhe dissesse qualquer coisa em que desesperadamente pudesse acreditar. Tarde demais. O ônibus dobrava a esquina já longe de seus olhos. Foi a ultima vez que se viram. Embora muitos meses depois a garota de cabelos negros voltara para casa, mas ambas tinham almas diferentes, e estas nunca mais se encontraram. Não viveram felizes para sempre. Porque 'viveram felizes para sempre' era uma ilusão perigosa demais.

(Renata Lôbo)


quarta-feira, janeiro 16, 2008

Fuga

No inicio ela não acreditou. Seguiu com um passo firme dizendo a si mesma que não havia perigo. Mas então o inimigo que até então ela ignorara tão sutilmente, ergueu sua arma e em seus olhos queimava um fogo ameaçador. Ela soube que o que temia secretamente era real. O perigo lhe dava as boas vindas de flechas nas mãos. Já em desespero de causa, começou a correr com todas as suas forças, concentrando toda a energia de seu corpo para que pudesse ter uma chance de sobreviver. Amaldiçoou suas mãos nuas onde tempos antes havia armas e proteções, nesse instante eram inúteis face ao perigo iminente. Só podia fugir, correr como um bicho acuado.
Mal escutou a flecha que cortara o ar atingindo em cheio sua carne fraca. Soube que fora atingida pois as vertigens não lhe deixavam se enganar. O impacto da segunda flecha fez com que caísse pesadamente no chão e contra todas as suas vontades. O desespero roçava seus cabelos delicadamente, quase se entregara a ele uma vez mais. Mas sabia, ah isso ninguém nunca precisou lhe dizer, sabia que se ficasse caída amaldiçoando suas fraquezas e sua dor que lhe era quase insuportável, e pior, se se entregasse ao desespero que era tão dócil e irresistível, sabia que a morte seria tão certa quanto a flecha que tinha cravada na carne. E a dor que sentiria antes que a morte lhe desse seu último beijo, ah, essa dor que sentia agora não era nada comparado ao que viria, tortura de uma Inquisição Espanhola. Quase morreu nesses poucos instantes em que ficara caída no chão, isso também soube, mas vagamente essa certeza lhe invadira e também vagamente e distante esquecera da dor e esforçara-se como nunca antes para se levantar. O passo bambo acompanhado de outra vertigem quase lhe jogara ao chão novamente . Mas segurara-se firme e então começara novamente a correr. Não muito longe o som de passos lhe indicavam que o inimgo aproximava-se. Embrenhara-se na floresta sagrada que era tão sua quanto de Deus, ela que era guerreira antiga e bruxa de si mesma. Concentrou-se o quanto pôde e ignorando o sangue que lhe escorria tão indiscretamente continuou abrindo caminho pelo mato virgem. A dor encontrara nela um lar santo, refugiando-se em seu peito como uma criança que se aninha no colo quente da mãe. Se houvesse tempo, talvez ela tivesse mesmo feito um carinho em sua criança chorosa que ao invés de amor lhe trouxera somente o sangue que não parava de fugir. Mas não havia tempo. Correu até perder a noção das horas. ...

Finalmente sentiu-se segura quando chegou a uma clareira onde a Lua lhe lambia os cabelos molhados de suor, banhou o rosto no lago que lhe refletia um rosto maltratado e cheio de cicatrizes invisíveis. Um lago de águas verdes profundas e sombrias como seus olhos de gata selvagem. O ar parecia se recusar a entrar em seus pulmões como se ela abrigasse um veneno mortal que ao simples toque contaminava as criaturas mais puras. O rosto ainda em brasas, sentou-se enconstada a uma árvore que lhe pareceu ser a mais antiga, de tronco largo e vivido, tão machucado quanto ela. Queria adormecer um pouco. Esquecer um pouco. Mas então por se sentir segura e salva, suas dores se libertaram. Foi só então que ela notou que talvez fosse morrer. É que toda a dor ignorada viera tão de uma vez, reclamando atenção, que era como ouvir toda uma multidão gritando palavras incompreensíveis. Arrancou as flechas sem dó lembrando-se só agora de que não era a primeira vez que quase morria. Ah, soube o que lhe aguardava. Uma noite muito longa repleta de febre, dores, vertigens, solidão, sangue e lágrimas. Quase chorara só pela espectativa do horror das horas que viriam agora que a dor estava liberta e totalmente desperta.
Não teve pena de si. Em momento nenhum culpou a vida injusta. Viveria o suficiente para esquecer seu pesadelo de noite. E ainda tinha a companhia muda da Lua que logo logo também morreria. Dormiu. Mas não houve sonhos.
Quando acordou desperta pelo Sol que entrava pela clareira timidamente, descobriu surpresa que ainda estava viva, que sua alma permanecia colada à sua carne, e que suas feridas já se fechavam discretamente. Talvez sobrevivessem cicatrizes e seriam as únicas lembranças dessa noite de quase morte, onde sua força selvagem quase lhe fizera deixar esse mundo pra sempre. Ainda estava meio febril mas já estava pronta para uma próxima fuga, ou talvez quem sabe dessa vez, estaria pronta para lutar... mesmo com suas mãos nuas e inutéis... afinal era guerreira e era preciso muito mais - depois que se passou o susto - tinha certeza que era preciso muito mais para perder as forças pra sempre. Isso talvez fosse um consolo. Se ao menos deixasse de temer a dor e sua nascente de lágrimas... Sacudiu a cabeça vigorosamente tentando espantar os pensamentos. Não era hora para isso. Levantando-se decidida disse a si mesma antes de voltar a abrir caminho pelo mato virgem: 'o tempo não espera por ninguém...' E foi-se já sem dor, ou talvez com a dor escondida. Quem sabe...

Renata Lôbo

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Das ilusões



- Então, o que acha? Dissera sentando na cama e olhando os olhos caramelos da garota à sua frente.
- Então o quê? Acho que você está confusa e me deixando confusa. Toda essa história é exagero. - estava distraída puxando as orelha de um coelho cinza que pegara ao acaso na prateleira. - As máscaras caem mais cedo ou mais tarde, é só saber esperar. - Surpreendera-se com a sua súbita falta de paciência.
- Eu sei. Mas queria que me dissesse algo além disso.
- O que você espera que eu diga? As verdades óbvias que já conhece?
- Não sei. Mas esperava encontrar uma lógica nisso tudo.
- Lógica? Você sabe com quem está falando certo? - riu-se desdenhosa. - Mais cedo ou mais tarde vão descobrir que há algo errado com você... Vão te colocar em um lugar pequeno e sozinha... - vendo o ar abatido da outra quase arrependera-se das palavras que sempre lhe ultrapassavam. - Desculpa. Mas, não é o óbvio?
- E o que você quer que eu faça? - controlava-se para não começar a chorar e gritar. Aquela garota parecia tão madura apesar da idade, tão segura, e às vezes tão má. Mas se começasse a gritar, alguém entraria no quarto perguntando o que estava acontecendo. Controlara-se ao máximo.
- Por exemplo, poderia começar parando de me chamar. Faça uma nova amiga, compre uma roupa nova, escute música, se distraia. Talvez assim você consiga me esquecer... e nunca descubram sobre isso, e não te prendam... - 'verdades óbvias', pensou - Eu sei que parece impossivel agora... mas ajuda se eu disser que eu detesto esses nossos encontros? Que eu detesto ouvir os seus problemas bobos? E o seu quarto continua infantil.
- Eu sei! - dissera ofendida tirando das mãos da outra o coelho cinza de nariz engraçado. - Eu só queria que isso fosse tão fácil assim. E eu não acredito em quase nada do que você diz. - levantara-se colocando de volta o coelho na prateleira. Não olhando assim os olhos caramelos que sentira que lhe observavam.
- Se é assim, porque precisa de mim então? Eu não tenho certeza se prefiro que acredite em mim... Mas isso me ofende! Eu sempre fui sincera! De um certo modo, eu acho...
- Porque eu preciso de você?... - tinha um ar confuso e atrapalhado. - Acho que tenho medo de ficar sozinha...
- Não seja tão infantil! Adultos são sempre sozinhos! E você já não é mais criança! E mesmo se for verdade... não importa, né? Porque ainda não é uma desculpa que convenha. Pensa bem: metade do mundo nesse momento está sozinho e a outra metade está se sentindo sozinho. - aproximara-se dela encarando os olhos caramelos como os seus e pegando em suas mãos ternamente, 'ela vai chorar' pensou com um certo desdém - Mas isso não é razão para se criar ilusões... Não é normal conversar com a sua metade infantil!

- Estamos saindo! - dissera sua mãe abrindo a porta num rompante, como sempre, sem bater antes. - você vai ficar bem sozinha?
- Sim - dissera meia aturdida, baixando as mãos discretamente.
- Tem certeza de que está tudo bem?
- Sim. Tudo bem. Podem ir. Aproveitem a noite! - sorriu um sorriso amarelo.
Adultos... Além de sozinhos, mentirosos... pensou a pequena antes de desaparecer na escuridão da outra.


Renata Lôbo
Os olhos enrugados da velha lhe observavam de cima à baixo. Pegou com uns dedos velhos o cigarro de palha que guardara desde cedo, acendendo distraidamente enquanto eperava que a garota começasse a falar. Mas esta ainda parecia perdida em seus pensamentos. Soltando a fumaça fedida desejou que terminassem logo, pois mesmo na velhice havia pressa em descansar. - Então, o que espera de mim? - dissera perdendo de vez o pouco da paciência que a velhice lhe trouxera. A menina, mexendo delicadamente em seus longos cabelos dourados, respirou fundo tentando encontrar coragem.
- Espero que possa me dizer o que sabe. - dissera simplesmente.
- A idade me ensinou muitas coisas menina. Desculpa, mas terá que ser mais específica. - a menina levantou-se da cadeira andando de um lado para o outro ansiosa. Havia esperado tanto tempo por esse encontrou e agora não sabia como se expressar. Olhava para o chão, olhos vidrados. Buscando as palavras certas.
- Há tantas coisas que desejo saber... - sentou-se novamente fixando seus negros olhos nos olhos cansados da velha, e esta, observando a menina através de sua nuvem cinza de fumaça fedida, sorriu divertida com o nervosísmo de sua convidada. Sem dúvida lembrou-se de Sophia, ambas tinham o mesmo ímpeto e uma certa arrogância, a mesma postura de princesa mimada, mas a menina à sua frente tinha algo que Sophia jamais possuíra. Não sabia especificar ao certo o que seria essa coisa que as tornavam tão diferentes. Retribuindo o olhar fixo à menina, a velha sentiu-se realmente satisfeita em tê-la observado por tanto tempo. Valeu à pena! pensou. E desejou poder viver muitos anos mais para assistir ao desenrolar do destino da menina. Como será que tudo terminaria? Sentia a curiosidade despontar no peito. Ah, já vira tanto da vida, assistira também pacientemente a história de Sophia. E o que gostava mesmo era apenas assistir - embora tenha interferido em algumas coisas quando Sophia apareceu à sua porta muitos anos antes - mesmo assim, não lhe interessava estar na frente das cortinas, mas no meio da platéia.
Deu uma leve batida no toco do cigarro e as cinzas caíram mortas no cinzeiro de vidro, mas mantivera os olhos vidrados aos da menina para que esta começasse logo a falar.
- Sabe que estive a sua procura. Soube que me conhece de longa data, embora seja a primeira vez que te vejo. Como isso é possível?
- Tem razão. Há muito tempo venho te acompanhando. Eu diria mesmo que te conheço como a palma da minha mão! - olhara a palma da mão como se ali visse algo misterioso e inexplicável - Oh, não se assuste menina, há mais coisas nesse mundo do que imagina. E se te interessa saber, eu não sou a única que te observa. - a menina olhou assustada à sua volta, como se tivesse medo de que de repente encontrasse olhos ao seu redor. A velha riu-se. Foi a mesma reação de Sophia, há muitos anos atrás. - Não se preocupe, por aqui não encontrará olhos à sua procura, mas posso te garantir que estarão lá fora à sua espera. - Então a velha, guardando o sorriso tornou-se novamente séria e em seu rosto as marcas do tempo pareceram mais severas ainda. - Sophia deveria ter te mostrado todas as armadilhas que te aguardavam. É pena que ela não teve tempo. Mas você já sabia que eu conhecia a sua mãe certo?
- Eu soube. A senhora dos gatos que me disse para te procurar, disse também que você ajudou minha mãe.
- É. - dissera nostalgica - Isso foi há tanto tempo. Foi uma grande mulher! É por isso que tenho te observado. - Apoiando com os cotovelos na mesa, aproximou o rosto enrugado ao da menina, uma mexa de seu cabelo branco caíra em seu ombro, o que ela afastou com um movimento delicado, dissera quase em um sussurro, como quem confia um segredo:
- Eu estive à sua espera! - depois afastara-se sorrindo um pouco maliciosa.
...

Renata Lôbo

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Sentidos....

Ela se olhou no espelho e cansada por alguma razão, começou a preparar-se para sair. Alguma festa, já não se lembrava a razão pela qual sairia. Antes olhou pela janela e viu um céu ao contrário, sorriu pela incoerência ou seria coerência? é que tudo agora lhe fazia um enorme sentido. Mas então voltara para o espelho, apertou as bochechas tentando ter um rosto mais corado, mais saudável, vira isso nos filmes, mas funcionava, ou não. Ah, cansou também de ser artista de cinema!
Abriu o guarda-roupa, passou a mão pelos tecidos sentindo a textura, quase sentia as cores entrando pelos seus poros. Depois cansou daquela calma de domingo e de repente, atirava todas as roupas ao chão com certa violência. Então sentada no chão, cerâmica fria, escolheu cuidadosamente o que vestir: uma saia preta que deixava suas pernas à mostra, as coxas sempre bem elogiadas em todos os lugares em que eram vistas, a blusa era de uma malha fria toda em azul, o que acentuava o negro dos cabelos, estes que estavam soltos como seda, ah, seria um boa noite essa! ou seria dia, é que como o céu estava todo ao contrário, teve certas dúvidas quanto a isso...
Voltara ao espelho mais uma vez admirando o que via. Ah, como se achava bonita mostrando toda sua sensualidade, estava sendo mulher, com suas formas e suas curvas. Então os olhos tornaram-se pesados, cansada, era um cansaço absoluto em que não sentia mais forças para fazer nada. O que faria se não pudesse sair naquela noite-dia? Mas, onde mesmo que ela ia?...
Ah, falta fazer a maquiagem! Olhou contente o reflexo daquela mulher que por alguma razão era ela. A mulher que estava sendo sensual com suas pernas à mostra, ela estava sendo tão seu corpo que era impossível naquele instante entender que... Mas o que ela devia entender? Absorvendo a dúvida, parada, suspensa no instante em que estava, ela olhou à sua volta... Tudo estava ao contrário! Mas porque então tudo fazia tanto sentido?
E o reflexo no espelho a chamou então, dissera seu nome, e houve o som que se faz enquanto fala, ela dissera com todas as letras o nome que era ela, como ela era aquele corpo. Dissera seu nome, e ela aproximou-se pasma, intrigada, curiosa. Olhou então pela primeira vez, pela primeira vez ela não apenas olhou como viu dentro de seus próprios olhos. Ah, mas é isso que há dentro de mim? Um abismo profundo! Mas isso não pode! Não têm como alguém ser tão... Mas o que sentia enquanto caía por aquele abismo? Seus olhos... pintados com maquiagem forte. Sua máscara de guerra, de vida. Seu palco, abismo sem fim. E a imagem de repente ganhou vida, vida essa que ela não tinha. Como você reagiria ao defrontar-se com seu reflexo vivo? O que sentiria esse seu reflexo? Quais seriam as coisas que lhe faria medo. Ela sentia medo ao se ver tão viva daquele jeito, mas sempre se imaginara um pouco mais... mais bonita, um pouco mais elegante. E um grito enfurecido subiu-lhe à garganta, um grito seco e sem eco. Mas voz não tinha, nada saíra daquela raiva ensandecida. Medo profundo. Entendera então de onde vinha seu abismo. Já flutuava num espaço sem fim, pois era o infinito todo aquele lugar. O espelho e as roupas no chão desapareceram e no lugar vieram sombras sem formas, sem som algum, sem sentimento nenhum. Naquele espaço só havia o silêncio eterno. Afogava-se no útero de uma mãe que lhe carregava sem saber quem seria, sem saber que se perderia...

6:15 O relógio toca, acorda com o coração aos pulos, nunca se acostumava com aquele som repentino que a tirava quase à força todas as manhãs de algum lugar... Onde era mesmo? Ah, sem tempo, hora de acordar as crianças e ir trabalhar.

Renata Lôbo

segunda-feira, novembro 27, 2006

Lis de hoje

Ele acordou naquela manhã e o perfume dela ainda estava pela cama, pelo quarto, pela casa. Olhou para o teto pensando nela que já não exitia pra sempre, e em como a noite fora agradável. Se esperasse que tudo fosse perfeito, tudo seria caoticamente desastroso, sorriu com a conclusão a que chegara, fora apenas por não a esperar que ela aparecera naquela esquina, naquela noite e naquela hora. Com seus olhos castanhos avermelhados e cheios de tinta, ela olhou sem surpresa nenhuma para o homem que passava pela sua vida, olhou cheia de encantos, mistério e mulher, era ela assim, com um decote que mostrava que viera para a noite mesmo. No momento em que a viu, e também por não esperar por nada disso, espantou-se. Voltava para casa depois de uma noite cansativa com os amigos, ela não se importava de onde o homem vinha, apenas aproximou-se, inebriou-o com seu perfume, aquele que não sairia nunca mais dele, e da casa inteira. Olharam-se olho no olho, ela sorriu então, toda divertida com a confusão dele, aproximou-se mais, os corpos se tocaram numa tentativa de reconhecimento. Estava te esperando! disse ela em seus ouvidos. Agarrou-se em seu braço e começaram a caminhar lentamente sem trocarem palavras nenhuma. Seu perfume o envenenava e maltratava, seu corpo já era dela, aquela noite já não existia, tempo nenhum existia na palidez de seu mundo. Caminhou apenas, sem pensar no que viria, no que seria, quem seria. Chegaram à casa dele, não era muito longe daquela esquina onde encontraram-se, ela sabia disso. Um pequeno apê de homem que vive sozinho, sem amor nenhum pelas paredes, nos retratos ou no som, casa de ninguém. Tomaram vinho, ouviram música, falaram algumas palavras, nada de importante, nada pessoal, nada que lhes revelassem, nada que pudessem usar na vida seguinte para se maltratarem. Beijaram-se. Amaram-se. Ela lhe dera seu corpo, prazer, tudo que lhe era mundano e permitido. Ele lhe dera sua alma, aprisionada pelo seu perfume, lhe dera a sua casa, seu amor de homem, lhe daria filhos se ela quisesse, casaria, lhe daria um nome. Mas naquela noite ela aceitou somente sua alma, sem direito a reclamção, não mais a devolveria. Adormeceram depois. corpos exaustos, molhados, amados, dados...
E ele acordou naquela manhã e o perfume dela ainda estava pela cama...
Qual o seu nome? ele se repetiu antes de adormecerem.
Hoje, apenas hoje e apenas para você meu bem, eu sou Lis.
E sob o travesseiro encontrava-se uma única flor de Lis....

(Renata Lôbo)

....


Não sei o que fez tudo mudar de vez
Onde foi que eu errei
Eu só sei que amei, que amei, que amei, que amei
Será, talvez, que minha ilusão
Foi dar meu coração com toda força
Prá essa moça me fazer feliz
E o destino não quis
Me ver como raiz de uma flor de lis
(Djavan)

domingo, agosto 06, 2006

Tarde mansa de domingo...



E a dor a acalmava como um anestésico, acalmava o rio selvagem que era ela mesma... Suas águas negras que se diluíam em veneno sólido estavam naquele instante enchendo-se de manchas vermelhas... estava morrendo e mesmo isso não lhe era uma coisa toda ruim. A raiva estava encravada na carne como uma farpa dolorida. Já não via as outras pessoas como gente mas como inimigos. Inimigos esses que combatia com seu próprio sangue. Trancava-se dentro de si e se dilacerva toda cheia de mágoa. O dia estava quente e monótono como uma tarde mansa de domingo.
Caminhava lentamente pela rua cheia de barulho: carros passando, pessoas conversando e sorrindo. Uma criança a olhou intensamente e ela retribuiu o olhar intrigada, mas não sorriram, olharam-se criança e mulher e diziam mudamente: sim, eu sei... pensou que devia estar com uma aparência horrível quando chegou enfim em casa. Por quanto tempo será que fiquei caminhando por aí? A casa continua vazia... Sempre esteve vazia... Ligou a televisão e nem sequer se incomodou em mudar o canal, só não queria ficar naquele silêncio. Domingo à tarde e solitária era uma combinação horrível. Podia ter continuado caminhando por horas e horas e horas, mas sentiu que o corpo não agüentaria por muito tempo esse ritmo. Em tempos abafados caminhar era a única opção aceitável e concebível. E no peito a dúvida anulava o caminho claro e certo. Queria entender o que fazia de si mesma, mas ainda não tinha coragem suficiente para entender sua própria resposta.
Pensou em tomar um banho pois assim poderia relaxar, e porque também gostava de sentir o cabelo molhado solto em suas costas. Era uma sensação confortável de limpeza interna... Notou que não chorava há muito tempo. Aprendera a sentir a sua dor - sem nunca entender que dor era essa - aprendeu a sentí-la como se sente os pés no chão, ou a roupa em contato com a pele, tão natural. Mas sabia que ao conformar-se com todas essas sensações e com as suas limitações de pessoa solitária, sabia que isso era uma injecção fatal de veneno amargo. Olhou-se demoradamente no espelho. Ah, tem um vazio tão grande dentro de mim... Por mais que eu me alimente de sentimentos, de dores e alegrias, ainda assim esse vazio continua intenso. Como dói! Olha reflexo meu, olha! Pois não sei quanto tempo ainda pode me olhar... Observou seus próprios traços, o nariz longo e reto, os olhos redondos e vazios... disse enfim, em agonia já exaltada, quase em grito - pois dentro de si, atrás daqueles olhos vazios só existia um grito sem fim: eu sei, eu sei.... Mas não sabia de nada, nem sabia porque se dizia isso. Não sabia de nada... Depois vestiu um pijama com tecido macio e pensou o que mais poderia fazer pois afinal ainda era como se fosse domingo.Um dia precedia o outro e nem mesmo podia saber se isso era o certo.
O que sou neste momento? Para onde penso que estou indo? Porque estou indo? Estou sem sonhos e meu coração tornou-se novamente vazio e pesado, tão pesado que me é insuportável. Logo eu que sempre suportei tanto peso. Tanto nada. As vozes lá fora não dizem muito, apenas me lembram que tenho vida pulsando dentro de mim e que o tempo está passando enquanto me tranco nesse cômodo vazio. Enquanto me tranco dentro de mim. E o que posso fazer de mim? O que posso viver nesse tempo que ainda resta?... Já era noite novamente. Sentou-se no chão do quarto, encostada na madeira dura da cama. Fechara os olhos tentando entrar no mais profundo de si mesma. Será que posso ficar só sentada aqui no escuro absorvendo o silêncio largo da madrugada feia e longa?... Ah! Que seja então! Suspirou cansada. Resolvera pintar-se para sair, afinal era noite e ela ainda era tão jovem. Sabia que se ficasse naquela casa vazia teria a leve sensação de perda. Perda de tempo, o que parecia com perder-se a si mesma, como se ela tivesse uma ligação em relação ao tempo e ao esquecimento... Escolheu no guarda-roupa uma roupa que valorizasse seu corpo, um vestido negro que, pensou irônica, combina tanto comigo!
Saíra para a noite negra e o ar da noite a abraçara quase em ritual romântico. Tudo era de uma melancolia tão densa.... Encontrara-se com algumas amigas na porta da danceteria que freqüentava. ¨Já era hora de você chegar!¨ disse uma delas assim que a viu. Dentro do ambiente, porque nessas horas tudo parecia se passar muito rápido: a compra de bilhetes, a revista na bolsa, as pessoas conhecidas que a cumprimentavam com um sorriso vazio e dois beijos, e a caça cega à procura de um rosto conhecido mas que ela mesma nunca sabia de quem, no meio de tudo isso parecia que uma força a levava e quando se dava conta já estava encostada ao bar com uma bebida na mão. Olhando todo aquele ambiente e a música barulhenta, começara novamente a sentir toda aquela ira que adormecera no momento em que caminhava de volta para casa, pela manhã. Tomara sua bebida em largos goles e quase se arrastara para a pista de dança, e sorria em ira, e não chorava ainda em ira profunda! O que faço de mim? Dançava mergulhada na luz negra com flashes e fumaça. Estava morrendo e mesmo isso não lhe era uma coisa toda ruim...


(Renata Lôbo)

sexta-feira, julho 07, 2006

A fuga dos olhos amarelos...

Ela tinha lágrimas no rosto. Ele olhou assustado. Não esperava essa reação. Mas o que podia esperar de alguém que parecia ser tão fraca, tão indefesa, como se não soubesse ao certo o quanto mundo fora de casa podia ferir?!
_ Eu não quis dizer que você fosse inútil... - ela o encarou com um certo espanto, só agora se dava conta de que estava sendo observada. E àquele olhar, o homem que parecia de pedra sentiu um arrepio pelo corpo - Ou talvez quis. Mas não importa o que eu diga, você é quem sabe quem você é.
_ Como se isso fizesse diferença agora... Você já disse, foi cruel. Mas tudo bem, eu não preciso de você também.
_ Ei menina, o que você sabe do mundo? Não venha me dizer que não precisa de mim assim como se não fosse nada, você nem sabe o que te espera lá fora. - e mais uma vez o seu sangue de homem bruto falou mais alto, fora rude, como estivera sendo mais cedo quando começaram a fugir.
Ela lançou um olhar duro, como se tivesse raiva mas ao mesmo tempo também sentisse compaixão. O que, pelo ponto de vista do homem, parecia o mais inquietante. Era normal que as pessoas sentissem por ele uma espécie de raiva, até mesmo ódio. Estava acostumado a brigar e isso era normal naquele mundo de gente grande. Mas nunca vira ninguém o olhar daquela maneira. Compaixão, isso sim dava medo.
_ Então me diz, o que você sabe do mundo? Porque eu preciso de você?
_ Eu sei de muita coisa. - disse ele como se apenas isso bastasse para colocar um fim àquela pergunta - E você precisa de mim porque sou o único que sabe sair desse lugar.
_ Eu não acho. Acho que você não sabe de nada mas finge que sabe tudo. Assim é mais fácil pra se olhar no espelho quando você acorda, assim você pensa que não sente medo também. Mas tem uma coisa que você sabe, se não sabe eu vou dizer. - ela parou de caminhar e respirou fundo a fim de dizer a coisa mais importante de toda a noite. - Eu não preciso de você! Quero dizer, preciso, mas é só pra sair daqui. Depois eu vou te deixar para trás porque eu não quero ninguém me atrasando. - Ela continuou caminhando e disse quase num sussurro enquanto passava pelo homem que se desmoronava com a revelação da menina de olhos amarelos - Eu só estou te usando e você sabe disso!
Depois continuaram caminhando, ela com o rosto seco, sem lágrimas. E ele perdido dentro das palavras dela.
É... - pensou - realmente acho que não sei de nada. - Mas entendeu enfim porque tantas pessoas estavam atrás da garota de olhos amarelos.

(...)

Renata Lôbo

domingo, maio 28, 2006

Cara comum



Era um cara comum. Que levava a vida com um olhar calmo e leve como alguém que nada teme pois nada têm que seja propriamente seu. Não sabia ao certo o que esperava receber da vida, nem sabia ao menos se buscava algo. Um garoto ou um homem, por vezes se considerava um meio-termo estranho. Buscava olhos e olhares, buscava talvez ter sorte e se achar no caminho que trilhava. Se sentia sozinho e os rostos que conhecia não lhe conheciam. Era interno demais. Falava em excesso como toda pessoa que se esconde usando máscaras e rótulos. Se apaixonou uma vez... Mas não foi bem o que queria. E se tornou mais interno ainda.
Cansou algumas vezes pois se sentia leve demais. Ou pelo menos sabia fingir muito bem. Não vou citar seu nome, pois ele não necessitava ter um nome. Era apenas um rosto que se misturava com a multidão espessa. Não sabia o que buscava e sua vida se tornava um monte de achados, pois encontrava muitas coisas - e as descartava logo em seguida. Não saber o que se quer pode ser muito doloroso por vezes, e um tanto arriscado quando se dispõe sem querer daquilo que pode ser a salvação. Mas ele também não sabia que precisava ser salvo. Mas salvo do quê? De si ou do seu não sei? Não ter um senso de direção o colocava em situações arriscadas e muitas vezes arriscava mesmo o seu coração.
Vivia instintivamente o hoje e o agora, pois isso sabia bem fazer. O hoje e o agora... Talvez fosse apenas por falta de opção que se vivia assim. Nunca tive pena dessa pessoa sem nome. Nunca julguei. Viver por um ideal consome muita energia das pessoas, e não dispensar essa energia não era uma questão de covardia, mas uma questão de não saber. De não entender que às vezes se morre por amor. Por amor a si próprio talvez. Por amor a alguma coisa que seja maior do que si mesmo. E existiam tantas coisas para ser e se ter e se desejar, que ele não sabia que era possivel morrer por uma única coisa, por uma única causa, ou por uma única pessoa. E se podia realmente morrer por única pessoa? Mas morrer significava viver. Beber dessa fonte miraculosa que as pessoas se entregam sem medo. Amar e ser amado e ainda assim permanecer inteiro e intacto. Não sabia que se vivia por amor...
Mas era um cara comum, mais um rosto na multidão exsessa. um rosto com um olhar calmo de quem nada teme. Não temia? Não tinha o que temer? Não tinha nada para ser? E ninguém o conhecia. Ninguém iria lhe indicar a direção... Se escondia atrás da sua máscara da imagem de um rapaz de bem, e seguia a direção que já conhecia. Sem entender que o tempo passava e lhe chamava cada vez mais forte. O tempo passava...
E o mundo se ria da sua simplicidade de ser e de não saber. Do seu olhar distante sem porto nem beira. Não cabia direito no mundo que vivia. Não chegava e nem saía. Sonhos não se ganha e nem se pode dar. Vida não se entrega. E nem sempre se luta. Ás vezes se morre, e outras vezes se vive.
E por onde anda esse cara sem nome e de olhar calmo? Nem mesmo sei. Talvez se tenha salvo sem nem mesmo entender o que significava essa salvação. E tanto que falava que tudo um dia iria mudar... Falar do que se foi era uma forma de se ter o que nunca se teve, e o que nunca teria. O tempo passa... e os ventos do presente levam o passado para lá e para cá. Viver é uma dívida cruel que se paga com sangue e suor. Talvez ele soubesse mais do que imaginava e se guardava por não se ter por inteiro. Mas quem nesse mundo se tem por inteiro? Com um falso heroísmo se deixava inocente da vertiginosa verdade do mundo real. Era interno demais e não era por medo, era por piedade de si.

Renata Lôbo

quinta-feira, maio 25, 2006

Cristinne...



Era um dia como tantos outros quando Cristinne foi ao supermercado a pedido de sua tia. Fora ela e o irmão mais velho - um garotinho moreno e magro, de olhos castanhos e olhar sonhador.E era uma tarde que prenunciava uma linda tempestade, que Cristinne por extrema distração, não notou.

Enquanto voltava para casa a chuva prometida enfim desabou. Uma gota, e depois outra, e outra, e várias de uma só vez. Estavam ainda longe de casa quando a água surgiu e totalmente desprevinida, a menina começou a correr, quase em desespero, só queria chegar logo em casa. Notou então que o irmão ficara para trás numa tentativa que lhe pareceu um pouco vã, de apenas não se molhar.
_ Vem!! gritou com sua voz baixa, quase forçada.
O garoto a olhou com um certo espanto e um pouco confuso a encarou por alguns segundos e se decidiu por seguir Cristinne - esta corria à toda velocidade e seus chinelos escorregavam de seu pé pequeno e molhado. Descalçou-os. E neste momento em que se deixava restar sentiu o corpo frio e encharcado. Um prazer, uma paz. Não havia quase ninguém na rua, todos se refugiavam nos primeiros abrigos que encontravam a fim de esperar o término da chuva. Cristinne não se perguntou porque, não lhe interessava saber porque as pessoas esperavam, não se perguntou nem mesmo porque não esperar. Apenas se lançou na aventura.
Uma chuva forte, ventos tempestivos e ruas vazias. Era quase o paraíso. Chegou na quadra de casa, os chinelos na mão, a roupa pregada no corpo. O irmão já a ultrapassara e se encontrava no portão de entrada.
_ Porque não esperaram?? Ouviu o ralhar da tia.
_Ela saiu correndo!! disse o garoto apontando o dedo em direção a Cristinne que nesse instante via o olhar daquela mulher em sua direção, e sabia exatamente o que ela pensava naquele momento: ¨Que menina estúpida!¨
_ Porque você saiu correndo? perguntou o irmão enquanto lhe passava uma toalha. Cristinne já não prestava atenção. Repensou na corrida até chegar em casa, o vestido que pulava a cada passo largo que investia na tentativa de chegar ao seu destino, a água que pulava junto com todo o resto...
_ A chuva parou! Disse ela calmamente e observando pela janela uma fresta de luz que escorria por entre um céu quase negro. Não sabia porque não havia esperado o fim da chuva em um abrigo qualquer junto com o irmão. Poderiam ter evitado uma repreenda, estariam quentes e chegando naquele momento em casa. "E a chuva durou tão pouco!" pensou com uma certa nostalgia. Se tivesse feito isso não seria vista como uma pessoa inteligente, porque não era uma questão de inteligência não sair sob uma chuva daquelas, era uma questão óbvia. Mas ninguém teria lhe lançado aquele olhar de que se lança quando se faz coisas estúpidas.
E secretamente se perguntava também: porque não esperei a chuva passar? Por que não esperei?
Mas a resposta nunca veio, e se veio Cristinne era criança demais pra entender...


Renata Lôbo

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Alice e o 'desconhecido'...

Caiu em si finalmente. Como pôde pensar que era tanto, que podia tanto? Ela via o mundo com um certo pudor, uma certa vergonha. Meu Deus, eu estou viva! Como pudera se esquecer disso? Estava viva! Uma afirmação simples, mas tão complexa. Não podia mais voltar atrás. Estava viva e pronto.
Procurou um lugar sossegado onde pudesse se sentar um pouco sozinha. Tinha que pensar nos acontecimentos da noite anterior. Ela lhe dissera tudo que sentia e ele ficou apenas calado, olhando-a. Ele ficou calado, como se não houvesse lógica para uma resposta.
Sentiu o vento tocando leve nos seus cabelos, um afago delicado. O cheiro do mar lhe entrava fundo no corpo, mais fundo do que ela podia sentir. Pensou na vida que podia ter tido e na vida que teve. Uma escolha ruim talvez. Olhou pra trás, em um passado muito distante, ela teria exigido uma resposta: ' Ou me quer ou não!' Mas por alguma razão ficou calada. Sabia que iria se arrepender amargamente por isso. Ela estava viva, mas isso não era suficiente. Queria fugir de si própria, sobreviver a si própria. Sentiu um ligeiro mal-estar, uma vontade insólita de não estar em lugar nenhum. Uma vontade de não ser mais Alice. Talvez Ana, Joana, Isabela, qualquer uma, menos Alice.
Olhou ao seu redor e viu que já não estava mais sozinha. Ele estava ali, bem atrás, tão próximo que podia sentir seu cheiro misturado com o cheiro do mar. Viu seus lábios abrirem em um sorriso, um sorriso quase feio, mas ela não precsava de mais nada. Estava viva e o amava intensamente.
Ele sentou-se ao seu lado no chão da praia. Começou a dizer um texto que parecia ter sido ensaiado. Ele dizia que mal se conheciam. Foi tudo que ela conseguiu entender. Mal se conheciam. 'Que ótimo então! Eu amo um desconhecido!" Era sincero, ela tinha que dizer. Mas pra quê dizer? Deu-lhe um beijo logo de uma vez. Que fosse o primeiro e o último então. Ela era Alice e não seria mais ninguém.

Passou uma semana. Estavam juntos ainda. Ele descobriu Alice finalmente. Tinha os olhos apenas em Alice. Pelo menos por uma semana foi assim. Mas uma noite as coisas foram mal. Ele lhe disse que a amava também. Em uma semana ele já a amava. Apenas uma semana! Olhou aqueles olhos de serpente mais uma vez. Seria a última vez que os veria. Ela o conhecia bem de mais pra acreditar nas suas promessas. Ele iria embora sem que ela ao menos notasse. ''_ Então que você me ame com a intensidade de um 'pra sempre', porque eu sei que na semana que vem não estará mais aqui, e eu preciso acreditar no seu amor sincero e nas suas falsas promessas.''
''- Do que você fala Alice? É sincero!'' e deu uma sonora gargalhada, ele não sabia o quanto ela o conhecia...

Passou-se um mês e ela sentou-se novamente naquele mesmo lugar na praia, recordando o primeiro beijo. Sentia tanta saudade! Ele se fora tão depressa, mas agora ela sabia que estava viva, e não ia mais se esquecer disso. Eu estou viva!
Quanto a ele, ninguém nunca mais soube, saiu um dia de casa e não foi mais visto, nem mesmo o seu corpo foi encontrado.

Renata Lôbo