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sábado, junho 04, 2011


Mas é que alguém ainda irá sangrar naquele caminho tortuoso que escolhemos. Facas, pedras, punhos... Tudo será arma fatal. Até mesmo nossas vozes que não alcançam o paraíso, nossas vozes serão a nossa mais extrema e última força. Devastação de tudo aquilo que um dia foi belo. Mas é que belo por belo, fiquemos como somos então. Sem excessos e perdas... ou seria excessos de perdas? Lembrará daquele sol vermelho de uma tarde sem som, e suas lembranças serão paisagens perdidas - filmes gastos de tanto ver e rever, mas ainda será a sua prisão-paraíso. Cuidado para não se perder. Nunca se perca! Mas é que cedo ou tarde a gente sangra de novo. Tortura de uma Inquisição Espanhola onde fomos julgados perigosos, possuídos por qualquer coisa que nem mesmo conhecíamos. Você, meu gato negro de sempre, parceiro de uma fuga inconsequente. Mataríamos para viver naquelas noites em que nos aquecíamos ao fogo pálido de uma fogueira improvisada. Prisão-paraíso. Nunca escapamos dessas estradas com vida, mas quem liga para essas fatalidades? Esses detalhes? Viver é um jeito de morrer, só quando estamos tão de cara com a morte – seja ela como for – é que sentimos latejar toda a vida contida nos dias solitários. Ou não seria isso? Ah, mas não quero dizer agora o que me disseram sobre viver, é que eu não gosto de coisas piegas! E conhece maneira menos piegas de dizer sobre uma vida inteira? Caio então na fatalidade em que construo esse futuro de imagens fictícias. Como enxergar isso tudo que não vejo? Como usar essas lentes que não só ampliam a imagem real, como também ferem o que tenho de tão precioso? Meu modo de ver o que posso enxergar. Desculpa, mas hoje não choro por ninguém. Meu único consolo - que desse não há consolo mesmo - é saber que sei aquilo que ninguém mais diz, é saber que, intuitivamente, sei de gentes e de futuros. Meu único consolo é que embora eu não veja aquilo que quero, sei sempre ver o que importa, mesmo que na hora em que devo dizer, eu permaneça muda, entalada pelo que sei. A gente anda tão só nesses últimos dias! Esses últimos segundos! A vida só existe nesses últimos segundos enquanto ainda retenho o pouco que sei. A vida dura muito pouco.

Eu e meus fantasmas vamos bem, obrigada. Uma grande família feliz, unida por sangue e lágrimas derramadas.


Renata Lôbo

Eu e meus fantasmas vamos bem, obrigada. Uma grande família feliz, unida por sangue e lágrimas derramadasEu e meus fantasmas vamos bem, obrigada. Uma grande família feliz, unida por sangue e lágrimas derramadasEu e meus fantasmas vamos bem, obrigada. Uma grande família feliz, unida por sangue e lágrimas derramadas.
Eu e meus fantasmas vamos bem, obrigada. Uma grande família feliz, unida por sangue e lágrimas derramada

sábado, abril 30, 2011



Parece que às vezes ela se engana, que se mata e se maltrata, que se acolhe no próprio peito e esquece as dores lembradas, parece que olha para o céu e vê passarinho, arco-íris e nuvens em forma de gato, algodão doce, parece que ela às vezes chora de saudade, chora de amor, chora por chorar, chora por dor, ela que sorri aos poucos, que se dá aos poucos, e que ama aos poucos, para aproveitar as alegrias raras, parece que ela maltrata a própria dor, que apela quando perde o jogo, que chama em voz baixa, singela, que segura na mão, que ruge de dor, que cora de vergonha, ela é passarinho, presa no faz de conta, só pra fazer de conta que não é, que é gente de verdade, cheia de liberdade e vontade, ela olha o reflexo no lago encantado e vê as cores que inventa, inventa uma vida inventada de tanta saudade, um dia ela jura que lembra, que não era assim, que era comum e normal, gente como a gente, parece que ela acredita em felicidade, parece que ela sorri e dança na chuva, e o sol acompanha, iluminando seus cabelos e incendiando tudo à sua volta, só para ela admirar, só para ele admirar, só para ela não chorar, porque dentro a dor é de verdade, e mesmo a beleza não apaga a lágrima contida, parece que ela se corta, só pra ver o sangue brilhar, só para apagar a própria chama, parece que ela não chora lá, mas é mentira, é só para enganar, porque ela é faz de conta, e o sangue não conta, o que conta é o que não se pôde dar, é como não se pôde amar, é como mesmo no meio de tantas alegrias e gentes, o que conta é o que não se pôde dizer, mas parece que ela vive como quem não vive, ela se faz ver, mas no fundo ela só podia esquecer, fazendo de conta que aquilo é sonho de verdade, que o que importa é lar, que é doce sonhar, que o seu sonho era um sonho de ninar, mas mesmo naquele mar ela não podia se afogar, parece que às vezes ela se esquece que é dela que se fala, que é dela que se esquece.



Acompanha a música nessa nova estação porque os sonhos... os sonhos se perdem no verão, como os vagalumes no Japão, gente lá e aqui, me fizeram lembrar qualquer coisa que já não importa, que esqueci depois que fechei outra porta.

Renata Lôbo

sábado, janeiro 15, 2011


Verdade seja dita, ninguém me deixou cair, eu caí por conta própria. Cortei as cordas que me ligavam àquele mundo e pulei de olhos fechados enquato aspirava o ar rarefeito. Assumo meus erros, minhas culpas, minhas faltas. Assumo meu não estar, meus sonhos picotados, sua foto esquecida. Assumo tudo que destrui com mãos ávidas pelo fim. Assumo minha queda, meu abismo e tudo que em mim dói. E que te dói. Ou te doeu.

O ciclo se completa, ou se fecha. Estou fugindo de novo. Procurando, talvez. Ou fingindo ter certeza de que o quebra-cabeça pode ser refeito. Mas falta um pedaço, uma parte. Uma parte que ficou escondida em escombros perfeitos. Assumo essa culpa também. Estou sempre me boicotando, me achando de amor inútil e inocente. Ópera de amor fugaz.

Então eu vou chover por hoje. Só hoje. Amanhã é outra promessa.
Não era um sonho, afinal de contas.

Renata Lôbo

segunda-feira, janeiro 10, 2011



Como dizer o que quero dizer? O coração anda mudo de cansaço da expectativa, nunca dizer o que se emudeceu no peito tornam os dias pesados e murchos... Vai-se vivendo então como se pode, dia após dia, as obrigações diárias, o mundo vai girando contraditoriamente, se esquece de alguma coisa - o que era mesmo?? - e então respira fundo, logo vai passar, e a noite chega para emudecer o resto do mundo... Ah, mas ando tão cansada da mudez humana. 'Where is your heart, baby??' É a verdade humana que açoita os pensamentos presos na linha invisível, do dia de amanhã e o nada abismal de cada um, vamos vivendo um passo de cada vez e a estrada é larga demais, nos afastamos então, com receio de que alguém nos tome por pessoas de sentimentos. - Como você está? -Estou bem! ela diz. 'Where is your heart?' Ela diria, timida e num único fôlego: Estou me acabando, os dias parecem longos demais, meus olhos estão cada vez mais vazios, estou morrendo, acho, de uma doença lenta e não catalogada, e então olharia com os olhos em desespero, orgulhosa demais para dizer: me salva! Olharia então para a outra e diria, com um sorriso amarelo - E você? Como está? Já pressentia desde já o abismo nos olhos da outra. Estou sozinha. Seriam as palavras não-ditas guardadas no silêncio pressentido.

Vamos dizendo então para o nada e para o ninguém...

Renata Lôbo

quinta-feira, dezembro 09, 2010



Então me deixa brilhar que vou chorar mais tarde. Minha verdade está escondida, minhas trevas disfarçadas de sombras gentis. Você não veria nada se eu não te dissesse. Se eu não te mostrasse, as cores continuariam contentes em girassois envenenados... Mas não te mostro. Por pura vingança te deixo acreditar em arco-íris transplantados de felicidade barata. Espero que se machuque. Espero que a vida te doa pelo menos um pouco. Coração de gente grande é assim, um monte de cicatrizes de guerra, um pouco calejado, alguns chegam mesmo a faltar um pedaço, quase a metade, e de vez em quando ainda sangra, nos dias de chuva até dói um pouco, como joelho velho em um corpo novo. E se ele cantar em noite de lua cheia, não se assuste. Mas lembre-se de mim. Talvez o meu coração também esteja cantando. Serenatas no vão do tempo. Um pouquinho de memória, e um pouco de alcool só para acompanhar, e uma ressaca sem fim. Saúde!

Renata Lôbo

segunda-feira, dezembro 06, 2010

A sensação de 'estar superando' tem engatinhado aqui dentro, somos velhas amigas em encontros desastrosos. Caminho lentamente com o coração falho, lembranças engavetadas, sabe como é? Talvez agora eu possa encarar as escolhas que fiz com mais orgulho que dor. Com mais amor e menos mágoa. Amor por mim mesma - se é que sobra algo. Dê o braço a torcer e peça por mim, estou arriscando muito. Feridas semiabertas, ou seria semifechadas? Olhe para mim! Tenho novas cores, novos traços, o esboço de um sorriso antigo.
Talvez eu supere mesmo. Talvez eu corra cirandas encantadas e rasgue páginas. Um número de cada vez. Um dia de cada vez. Um sonho por dia. E um dia por sonho. Memórias transbordando sem finais felizes, sem ponto final. Só você e eu. Não. Só eu. E hoje. Porque o pôr do sol era magico e era só meu. Um céu inflamado de dores superadas e cuspidas, pois não quero mais nada disso.

(Confesso que por vezes, ainda estou afundando lentamente, e às vezes chego a segurar o fôlego, pois tenho medo de me afogar pra sempre... Confesso que o sangue está correndo na direção contrária, que minha alma continua de pontacabeça, que sinto saudades de sentir amor, não o de outras pessoas, mas de mim para qualquer alguém. A solidão está me devorando aos poucos, um pedaço de cada vez.
Confesso que superar não é tão divertido, porque no final não sobra nada, nenhum pedaço de história para agarrar no meio da noite como um cobertor de criança... Sinto falta de cheiros que me levem para qualquer outro lugar que não aqui... Sinto falta de ser gente, perdi o jeito e já não sei como me segurar à borda da normalidade...
Um Ouriço assustado. É o que sobrou da minha casca. )


Contravenções e Contradições, sou um pouco de tudo. De tudo ao meu tudo, que seja bom meu próximo mundo. Cicatrizes superadas. Só por hoje.


Renata Lôbo

quarta-feira, outubro 27, 2010

Segredos, tenho aos montes, escorrendo de presas afiadas como veneno ácido.
Matando o bom e o mau em mim.
Falta de conectividade, sabe como é?
Quem entrasse aqui ficaria perdido com tantas portas fechadas, tantos compartimentos secretos e tantas histórias guardadas.
Se soubesse, seria diferente. Mas se entendesse, entenderia tudo errado. Duplo sentido do mesmo quebra-cabeça. E que se dane todo o resto, vou pintar meu quarto de vermelho e acordar com o sol pegando fogo. Poesia. É tudo que eu tenho. E cartas não-enviadas. E sonhos moribundos. E palavras não-ditas. Promessas não-cumpridas. Um monte de coisa para vomitar por dentro e escorrer em veias abertas e fechadas. Cicatrizes de nuvens e tempestade interna. Apagando um pouco. Queimando um pouco.
Não há ninguém em casa.

Renata Lôbo

domingo, outubro 24, 2010

Um Segredo


Porque eu queria palavras que me dissessem, que te dissessem, olha, foi assim que aconteceu. Mas esse é um segredo só meu. De tempos remotos e sorrisos secretos. Te trago aprisionado aqui, sem contar para ninguém. Sem me dizer e sem te dizer. Minha vida é repleta de coisas não-ditas e sonhos subentendidos. Te guardei entre eles. Nenhuma palavra vai explicar com exatidão, com pontos certos e vírgulas cortadas. Nenhum rosto vai me ver quando sua falta me aquece. Nenhuma voz vai me alcançar murmurando promessas de futuro bom pós-coração-partido. Não deixo. Minhas fraquezas me consomem e um dia, ao sair da cama, não terá restado nada, e ninguém poderá entender o que exatamente ficou. Restos no lixo, pedaços picados de uma história secreta. Você foi meu. Mas não foi suficiente. Um cego tentaria entender entre palavras comidas a verdadeira face da verdade. Um cego enxergaria essa história carcomida e vomitada entre sonhos esquecidos e promessas mal contadas. O resultado disso tudo é, talvez... outro segredo. Que não conto para não me assustar. Que não conto... Perdida no espaço ignorante de sentimentos que não quero e lembranças que não procuro. Vou viver meu dia agora, minha vida agora... Que amanhã é outro entardecer muito mais vermelho, muito mais meu. Sem futuros vazios.
Palavras de ninguém vão explicar o que aconteceu. Palavras de ninguém vão explicar quem eu sou, porque isso também é segredo que você simplesmente desperdiçou.
Já chega, né? Porque estou cansada de me doer, de não me querer, nada aqui. Cansada de ser a última nessa história mal terminada com verbos incorretos e passados amedrontados. Estou cansada de sonhos inúteis... Te guardo em segredo porque é só assim que sei te ser.

Renata Lôbo

sábado, outubro 23, 2010

Mil sonhos.


No canto escuro da noite, os sonhos se misturam, e a nuvem tóxica aparece como um convidado incômodo. Apenas para dizer oi!
Papai do Céu, me perdoa! Eu não sei o que fazer de mim!
Mesmo que as estrelas desabassem, mesmo que fosse sempre noite, e o sol queimasse mil eras, mil papéis... sonhos coloridos e bolhas de cristais.
A criança olha o céu cor de rosa e sorri.
À beira das lágrimas vive um sorriso maroto que quase sabe do que foi feito, mas mil caminhos sutis abrem alas aos pesadelos mansos. Quero uma gaivota que cative meu coração com cuidado para que ele não se quebre de novo. Quero um pedaço de sonho para guardar no fundo da gaveta e acreditar que o que quer que trago aqui, não significa o fim, nem o começo, nem a dor.
Dias nublados.
À beira das lágrimas mora um poço sem fim e sem razão chora melancolias perdidas de uma idade já avançada. Quero enterrar meu mundo e aspirar mil canções como hino fúnebre, de peito aberto e coração ensanguentado. Nunca curado. Nunca salvo. Nunca manso. Nunca deixado.
Quero gritar mil vozes, mil letras, mil sonhos partidos em porcelana fina. Pátria de mim, me aceite assim, cuspindo flores e engolindo espinhos.
Estou subindo escadas que não me levam a lugar nenhum, subindo ou descendo, já nem sei. Pulsos marcados e vermelhos-escuridão como sonhos alternados. Me pegue enquanto caio. Me pegue porque caio. No silêncio, na noite, no vazio, no frio. Alma-minha, Minha-alma.
Estava sem forças e alarmes soavam docemente como uma sirene mal interpretada. Não era o fim. Não era nada. Doces mentiras disfarçadas de sorrisos fortes como café pela manhã e migalhas de pão velho à noite. Cigarras brigando por um pouco de atenção. Dores avançadas. Espumas mortas à beira-mar, à beira-praia, à beira-lágrima.
Muito pensamento faz sangrar o coração.

Renata Lôbo

sexta-feira, agosto 27, 2010


Se olhasse demais terminaria caindo mais uma vez naquela maldita armadilha tão repleta de espinhos e farpas. O coração dava alguns saltos e caía com um barulho seco, tão dolorido que respirar se tornava insuportável. Que não rasgasse seu próprio coração com lembranças ditas esquecidas e apagadas. Que não se rasgasse o momento agora que estava sendo tão feliz e cheio de risadas. Que se rasgasse as memórias, o resto de amor embolorado no pulmão, a imagem que não refletia mais em seus olhos escuros de tristeza inacabada e alegria desbotada. Que se quebrasse qualquer coisa, menos ela própria. Menos ela própria. E seus desejos incorrigíveis, que alguém a buscasse no aeroporto e lhe afagasse com carinho os cabelos partidos, os sonho abandonados, e as malditas lembranças que se recusavam a deixa-la, já estavam enraizadas e de vez em quando, como naquela noite, as lembranças subvertiam com uma esperança moribunda. Como se nada tivesse acabado. Não que ela acreditasse nisso, ela sabia que o mundo já tinha se mexido e rios de tempo já haviam passado, mas às vezes ela esperava, como uma criança esperando seus sonhos, seus pais que não voltaram, seu primeiro amor no portão, a esperança mais boba do mundo... às vezes ela esperava que ele a visse... Visse suas fotos e as lembranças dos dias comuns... Que se lembrasse com apenas um pouco de saudade... O suficiente para que ele voltasse. Que ele soubesse que ela estava do outro lado do rio, esperando que ele olhasse em sua direção... Víceras de um coração dilacerado espalhadas na parede. Ela não devia mais ver suas fotos, mas em dias assim, o bom senso dava lugar àquilo que a comandava, aos sentimentos. E ela partia seu coração, um milhão de vezes, antes de adormecer com sua imagem presa na retina.

Renata Lôbo


"J'ai écrit ton nom sur tous les papiers,
Je m'en rendais plus compte, j'étais possédée
Le début d'un long voyage

Qui me mène à toi.
Je te regard des heures mais tu n'es pas là.


J'ai beau faire le tour du monde
Mais tout me ramène à toi,
T'es partout à la fois.
Il y a d'autres histoires d'amour
Qui n'attendent que moi,
Mais tant pis
C'est avec toi que je me sens...
Moi."


Ao som de Joyce Jonathan - Tant Pis

sexta-feira, junho 11, 2010




Eu não sei. Talvez já não haja mais nada para dizer. Mas é que essa noite foi tão absurdamente incrível que algo deveria ser dito. E não foi nada demais não. Apenas a vida. E esse momento de extrema doçura, espero não perder. Porque toda lembrança é em carne viva. Mas nem por isso doi. Na verdade doi sim, mas é uma dor que cura. Porque nem todo sangue é ruim. Nem toda bondade é boa. E nem toda vida é intensa.
Nesse exato momento eu me sinto mais viva que nunca. Mais acordada. Mais lúcida do quase-nunca. A lucidez ajuda da mesma forma que pode matar. Eu estou lúcida e o mundo brilha em cores que não conheço. Não quero dar nomes. Não quero limitar meu mundo porque eu também não tenho nome. Apesar de ser. Sei muito bem que nesse mundo o ser precisa ser. Para pertencer. Para estar.
E na noite de céu tão escuro os carros seguindo para a direção que-não-sei com suas pessoinhas que nunca vou conhecer. Destinos que não me pertencem. Mas tudo está vivo. Tão vivo que meu coração dá um pulo, vai no mundo e volta. Tudo está vivo e os faróis me lembram que também estou aqui, meu corpo reconhecível e recortado contra a escuridão tenebrosa. É preciso ter escuridão dentro de si para que se possa reconhecer e amar a luz. Quero estar aqui. Quero ser essa pessoa indizível e de gostos estranhos, que procura amar através de muros de concreto. Quero acreditar. Acreditar só por acreditar. De graça mesmo. Como se ao não ganhar nada eu ganhasse algo. Algo que é só meu e me faz abrir os olhos e os braços para o instante agora. Porque é só nesse momento agora que tudo isso existe.
Estou com saudade de viajar. Entrar em um ônibus e ir para algum lugar que mal sei. A doçura do momento me deixa desprevenida. Ver campos verdes de cidades que não conheço e nunca vou conhecer. Imaginar que ali a vida também existe tão intensa e real quanto minha própria realidade. Meu próprio eu. E ali alguém também será eu. E assim eu estarei no mundo inteiro. Irreconhecível e mutável.
Desci do ônibus um ponto antes porque não me aguentei mais dentro de mim. Precisava caminhar. Tantos pensamentos dentro da cabeça dá pra fazer o mundo parar. E não quero que nada pare. Quero continuar correndo atrás dos meus sonhos agarrada à essa estranha realidade onde o vivo e o real me dominam com um sorriso bobo. Estou sorrindo. E estou sorrindo porque estou viva. E você?

Renata Lôbo

quinta-feira, junho 10, 2010


O que foi perdido foi encontrado. Nas entranhas do mal. Nos olhos do medo. E de coração assustado.
Não me deixe, ela sorria através de seu coração esmagado. Que seu sorriso desbotasse a ferrugem e a acidez, seu mundo se fragilizava com a ventania de um suspiro. De um aceno. De uma lembrança.
Dance comigo, esmagou por fim a salvação final.
Me refugio entre estrelas. Ouça meu suspiro. Veja meus olhos. Estou bem aqui. Parada no limite do tempo. Esperando que tudo que sonhei não tenha sido em vão.
Se eu despertasse agora, ainda assim não teria sua mão. Meus olhos de opala estariam frios
no meio de tanta solidão.
Mas já despertei. E quem não está aqui, nunca me verá.
Renasci mais forte do que nunca.
E meu destino me pertence.
Porque foi assim que decidi.
E você?
Venha comigo dizer adeus à dor.
E não ter mais saudade. Nem medo. Nem dó.
De deixar tudo para trás.
Quem me deu abrigo. E me aqueceu.
E me disse adeus.
Naquele tempo não existia mais nada ali. Era como uma grande explosão em que o silêncio engolia o caos, Ouvidos surdos. Palidez sombria e inconstante. Tudo em que se apoiava, caía - e tudo com uma graciosidade absurda. Como se o tempo se recusasse a deixar a dor ir embora e se refugiasse entre canções mal cantadas e cores desbotadas de paredes lascadas, de realidade manchada. Tintas sem cores. Pássaros sem sons.
Era assim que o Sol brilhava entre nuvens muito escuras e corações muito partidos. Tiros de algodão-doce e sonhos de coca-cola, seja lá o que isso significasse.
E tudo desmoronava.
Sem se importar.
Acorde!
Eu já teria caído.
Mas ela já teria se levantado.
De olhos bem abertos e sorriso mofado.

Renata Lôbo

sexta-feira, maio 28, 2010

Confesso.

Confesso que esses dias estão bem cinzas e meu humor muito camaleão, que o tédio me entedia e que a fantasia me vicia, que não gosto desse meu sorriso forçado, nem do meu olhar acuado.
Confesso que quero gritar alucinada para assustar todo mundo e pra me assustar também.
Confesso que aprendi a amar quem eu sou, mas morro de pena de quem tenta me amar, faço mais mal do que bem, mais arde do que sopro. Mais tempestade e menos vento.
Confesso então... Que Sou uma grande bagunça, com prédios partidos e pontes levadiças que se abrem no pior momento e lançam no mar meus sonhos que, marinheira de mim, não sei buscar.

Confesso que não como salada e nem tomo leite quente, mas sonho em vão.

Confesso que acordo confusa no meio de um sonho bagunçado e não é apenas meu quarto, é meu mundo, meus olhos, meu bairro. E se olho ao redor posso jurar que tudo está igual, o mesmo vão, a mesma porta, a mesma colisão. Retratos amaldiçoados e olhos estampados de xadrez sem cor, sem alma, sem voz.

Confesso que adoraria confessar meus crimes, me achar, me perder, te deixar. Mas confesso ainda que já fui julgada e meus crimes, eu os joguei pela janela, sem semidesculpas dessa vez, sem acertar e nunca errando. Confesso que não faço sentido e não me importo por que me entendo sem nem precisar usar as palavras que aprendi tão pequena e que cresceram e me queimaram com carinho doente e são.

Confesso que nada é o que parece e tudo é o que é. Sem respostas fáceis, sem carinho e corrimão.

Confesso tudo só para descobrir depois que não confesso nada porque não sei dividir meu mundo com ninguém, nem meus sonhos, nem meus delírios.


Confesso que hoje não me amaria, não te deixaria, seguraria entre meus dedos o instante agora e hastearia minha bandeira de paz. Preciso tanto dela. Tanto.


Renata Lôbo

quarta-feira, maio 19, 2010


Hoje. Hoje apenas. Vamos dizer assim. Estou inteira apesar de despedaçada. Não vou dizer que nunca vi essas asas bagunçadas nem esses olhos inchados. Não vou mentir nada disso. Não quero esse sonho morno nem esses dias calmos. Apesar de tantos pesares, acho que consigo montar esse quebra-cabeça e encontrar a saída. Vou admitir só hoje, só para ninguém, porque não estou buscando respostas. Prefiro as perguntas. Será que vai durar? Será que vai cicatrizar? Será que vai passar? Será que o mundo continua? Será que dá para notar? Costurando os retalhos, esses pedaços inacabados de um tempo perdido, de horas agradáveis e sonhos curados.
Não vou fazer acordos. Não vou aceitar pedidos. Quase perdi tudo isso. Quase perdi muita coisa e no final ainda acho que tenho sorte porque continuo aqui. Entrevada com dizeres inúteis e desculpas esfarrapadas. Mas ainda aqui. Inteira e intacta com ponteiros de uma bússola quebrada. Com erros acertados e uns momentinhos de absurdos agradáveis.
Posso correr. Posso me perder. Posso até sonhar com parafusos derretidos e olhos frios. Posso dizer que superei. E posso até mesmo superar de verdade e parar de sangrar essas mentiras gentis com gosto de chocolate e energético quente. Posso acordar e descobrir que toda essa realidade existe e toda a fantasia misturada nessa casa bagunçada. Refúgio. Abrigo. Qualquer coisa. Eu conserto e me acerto. Me acho e me deixo. Olho e perco. Porque nao quero nada.

Renata Lôbo

Dance para mim essa valsa solitária porque meus pés estão doendo e o ritmo me incomoda. Olhe para mim e veja além. Que meus olhos estão cansados dessa poeira inútil, não quero sentir sua dor. Nem te sentir perto se está tão longe. Não viu. Nunca verá. Estou aqui parada nessa encruzilhada com flores venenosas nas mãos. Esperando que você apareça. Em vão.

Renata Lôbo

domingo, abril 25, 2010


Posso até estar perdida, e minha bússola não apontar para o norte. O mundo pode estar girando rápido demais e isso pode até estar me deixando tonta, e a mesma música toca no rádio cinco, dez vezes seguidas, é aquela voz que curiosamente linda e rouca grita minhas dores sem o menor pudor.
Eu acordei. E isso é lindo! Mesmo que eu não possa gritar a plenos pulmões - porque o mundo não entenderia. Mesmo que a claridade do mundo me cegue, mesmo que a dor ainda escorra de veias abertas. Ainda assim é lindo. Quero continuar acordada – mesmo que seja dentro da minha própria escuridão.
Às 4 da manhã, o mundo me afeta menos. O mercado vazio ecoa meus passos perdidos. E os olhos, ah! Olhos nenhum me seguem ou me notam. Uma plena casca vazia.
A noite me chama com um sussurro desesperado.
Às 4 da manhã ninguém olha a Lua. E eu estou a salvo.
E que eu não me lembre. Deus do céu, que eu não me lembre. Vidas passadas nunca me interessaram. Sempre destruí meus mundos, e nunca me arrependi – me deixa destruir mais esse, sem medo dos seus fantasmas. Sem medo de acordar encharcada em suor gelado.
Que você vá embora, meu adorado passado, e nunca mais volte para me assombrar – se não estará lá para segurar minha mão quando o grito assolar minha cama vazia.
Que todos aqueles beijos de eterna despedida me abandonem. Braços, sonhos, sorrisos, luzes, voz... cheiro.
Eu só quero me libertar.
Se ninguém nunca vai ficar até que a dor se vá, por favor, que eu pelo menos não me lembre de como era bom sorrir. De como minha escuridão se encolhia trêmula de medo. Eu te amo era uma grande tortura, tesouras cegas. Não vá! Não posso gritar pois você não escutaria, não me veria, nada. Não importa, eu grito, não minto mais tão bem. Não importa.
Vou me jogar em outro abismo. Daqui não vejo mais as estrelas.

Para alguém que nunca entendeu nada.


Renata Lôbo

domingo, abril 18, 2010


Eu não vou mais fugir.
Quero meus pesadelos, e o sangue escorrendo sem pudor.
Quero o lado feio de tudo, meu mau, meu não.
Deixe o inferno queimar.
Tô precisando enterrar meus castelos para ver se mato meus fantasmas.
Cansei.
Preciso é de um teto pra desabar sobre minha cabeça.
Não vou mais cair porque já sei que contos de fadas não existem, e em meu faz de conta, a mentira é um diabrete que usa meia-arrastão, e sorri cínica, venha, acredite em mim, eu sou seu amor pintado de cara pálida, lábio seco e perfume esgotado.
Que gracinha, ela aprendeu a chorar por amor.

Renata Lôbo

segunda-feira, abril 05, 2010


É, eu tinha razão em não acreditar nesse amor.
Era assim:
“Eu não te quero mais, ela disse com os olhos cerrados e opacos, olhando para o chão, apavorada demais para dizer a verdade.
“Então tá, ele respondeu com seu orgulho ferido, olhando além dela.
E então foram embora, cada um para um lado. Ele levando embora seu amor e suas juras eternas. E ela carregando mais sonhos estragados. Ovos podres de um sorriso falso.
É, eu tinha razão.
Se pudesse voltar, eu faria tudo certo dessa vez, ela pensa em frangalhos, sentada em uma sala escura. Então a verdade aparece para lhe socar a cara: Voce não sabe ser a pessoa certa, ela sussurra com um ácido cortante.

"Cure o futuro, sonhe o presente, viva o passado."
Errada como sempre...

Renata Lôbo

domingo, março 21, 2010



O que é o amor senão um jogo idiota onde o que se tem a perder é o mesmo que se tem a ganhar? E as asas do dilúvio te naufragam com as sutilezas de garras recém pintadas e escarpadas. Uma subida miserável e uma descida gloriosa. Um enredo perfeito de fantasia e nada. E eu posso me afundar perfeitamente já que o que me segura aqui é insolúvel em meus dedos amargos de tanto deixar. Minhas pernas fracas de tanto fugir. E meu desejo subliminar de pedra funda e coração embotado. Meu colar de falsas poesias e falso torpor e a arrogância de estar só.
Estou só. E que Deus me ajude a enxergar o bom, porque o mau trago irremediável em mim. Minhas limitações humanas e perdidas e esse pecado inútil de ser suficiente. De ser uma só. Sem contraparte, sem alma secreta, sem espelhos mentirosos.
Que se avisasse antes de mais nada, meu amor, tenho fagulhas nos olhos, ácido na boca e espinhos na alma. E meu coração, eu o perdi há léguas e milhas de mim. Acho que fugiu. Vai saber. Nem ele me agüentou, provavelmente ainda está procurando um par, um lugar, um desejo, qualquer coisa para sentir.
Eu que queria ter apagado tudo. Um zero fresco. Mas para isso é necessário voltar, e sou covarde de mais para olhar para trás, para duvidar. Para me desculpar. Meus descuidos. Meus erros poeirentos. Minha inveja aguçada mesclada com meu cinismo. Egoísmo.
Sou toda isso. Um pacote estragado. Sem selos suficientes. Perdida no caminho entre aqui e lá, tentando se decidir qual saída de emergência é a mais fácil, a que está mais próxima, empunhando uma espada invisível e lacerando todo carinho declarado, toda tentativa tola de ser alguém para alguém. Toda lógica insensata de amar. Amar e ser amada. Perdoar e ser perdoada. De não mais deixar, e de nunca mais ser deixada.

Patética. Tola. E fraca. De coração ensangüentado.


Renata Lôbo

domingo, fevereiro 21, 2010

Brainstorm


Vou assumir meus vícios, meus medos e meus desejos. Vou assumir quem eu sou e uma nova pessoa vai assumir meu estado publicamente. Não tenho medo de mim. E o que os outros pensam, nem me arranha.

Quero o incontrolável e meus venenos açoitados com um véu transparentíssimo em que a ilusão é uma alusão aos meus ritmos, minas rimas, meus acasos. E se eu viver a minha vida, quero estar certa de que minha loucura é a chave pra mim, e que nada disso importaria. Meus encantos de marfim. Minhas mágoas tão bem guardadas com palavras empertigadas de elogios baratos, e o que se procura não é o que se encontra, mas o que se encontra é tão essencial que as escolhas seriam feitas duas ou três vezes, sem nunca se alterarem, e o resultado não pode ser descrito, pois o enigma é muito mais importante do que qualquer passo mal dado, se o que se tem é tão incomparável e tão torto, que me erro é meu maior acerto.

Queria te mostrar isso. Que você visse essa realidade tão banal e brilhante que me enche dessa alegria morna e inesperada. E eu não vou escalar morros patéticos apenas pela glória. Mas te levo comigo para essa tão longa caminhada sem destino, e onde me encontrarei é meu maior mistério, que desvendarei confiante e de olhos fechados... - como quando te encontrei, tão simples. Tão simplesmente.


Renata Lôbo