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quinta-feira, março 31, 2011

Lettera


Então que fosse assim, que se trocasse o certo pelo errado. As curvas pelo beco sem saída. Que se escolhesse o que não faz sentido, que se esquecesse os planos, os cálculos, a lógica, o perfeito. Que se esquecesse o mundo inteiro. Talvez fosse exagero, talvez fosse exatamente o que faltava.

Não estava caindo, não naquele momento. Tinha os dois pés fixos no chão. Isso significa que também não estava voando. De alguma forma era triste, mas de alguma forma era todo um mundo de cores novas e bons sonhos. Sonos tranquilos. Claro, havia vez ou outra os pesadelos. E a sanidade que tirava férias em ilhas tempestuosas. E a saudade e a loucura que vez ou outra dançavam ciranda em volta dela - que sorria, quase contente. Pois um mundo de felicidade fácil não lhe interessava. Havia que ter sangue em ciclos regulares, veias abertas em momentos críticos para que seus momentos de euforia fossem justificados. Que existisse os tropeços, os abismos, e as colinas - para que se caísse, sempre por um fio, sempre por um dedo. Que se perdesse tudo, que o vento a levasse, que o mundo desabasse para que se pudesse construir novas fundações, dessas que nenhum furacão derrubasse, que tempestades avassaladoras não fossem capazes de devastar. Mas ela sabia muito bem que era temporário, tudo muito por acaso, quase sem querer. Ela não se importava de reconstruir seus mundos, pois sabia que sempre chegaria aquele momento... onde tudo estaria em seu devido lugar.

Pensou mais um pouco. Mordeu a tampa da caneta. Girou o cartão-postal e admirou a paisagem na foto. Horas já haviam se passado. E as palavras não estavam lhe ajudando. Não podia dizer tudo sobre seu mundo. Não sabia como dizer.

"Oi, eu estou bem. Tudo vai bem. Tenho saudades. Bjos."

Enviaria no dia seguinte.



Renata Lôbo

domingo, setembro 12, 2010


Mesmo quando a boca cala, os olhos gritam. E na noite de olhos negros e ossos frios, ela permanecia em pé com um peso secular sobre os ombros. Dois caminhos se abriam como uma flor que desabrochava contra a fraca luz da primavera nascente. Ela segurava o anel com mãos firmes apesar de frias como se o medo a consumisse em um estupor doce e solitário. Lembranças dançanvam em seus olhos que fixavam o horizonte, além do lago, além daquele momento. Um momento passado. Uma vida passada. Ela podia ver o ângulo que o anel faria antes de cair para sempre naquela água gelada. Fones de ouvido cantavam uma triste música enquanto ela visitava pela última vez aquele mundo que ela fingiu por algum tempo pertencer. Aqueles braços. Aqueles olhos. Aqueles lábios.
O anel era um presente. Um presente de um momento feliz. E significava tanta coisa que mesmo se ela tentasse, nunca conseguiria dizer em palavras compreensíveis, nem metade, nem mesmo um único sentido. Nem sequer uma migalha de sentimento. Ela visitava seus sonhos, seus planos, a alegria fácil, o riso fácil. Mãos protetoras, aquela camiseta preferida, aquele cheiro tão persistente, que mesmo depois de tanto tempo ainda lhe causava arrepios cheios de saudade... Ela não podia se livrar do cheiro, que sempre aparecia de forma inesperada e na pessoa errada. Mas ela podia se livrar do anel. Se houvesse a escolha, ela jogaria as memórias no lago fundo. Jogava mesmo seu coração com entalhos tão profundos e esperanças inúteis. Ele havia deixado uma pedra ali, uma pedra linda com desenhos azuis e pele lisa como mármore frio. No terreno tortuoso que era seu próprio coração havia uma linda e inútil pedra azul que lhe trazia tanto memórias perdidas como lhe pesava de forma covarde. Uma pedra no oceano, e não era pedra que afundava, era ela própria com suas memórias pesando no pescoço, na garganta, nas costas, no peito...
Pela última vez, pensou. E o anel estava tão preso dentro de sua mão que lhe fazia mal e os nós dos dedos brancos e trêmulos, enquanto o sangue corria rápido demais dentro de suas veias, partindo de seu coração partido em pedaços diminutos. Pela última vez, disse em voz alta enquanto um pássaro sem nome levantava voo de forma desajeitada e feia. Era a última vez que veria aquele desenho solitário naquele anel, uma pequena cruz que parecia tão solitária quanto ela com suas memórias perdidas. Ergueu o braço e se preparou para usar toda força que ainda tinha. Dois caminhos e uma flor morta.
Segurou o fôlego e gritou. Gritou para Deus, para os peixes, para aquele pássaro patético. E então o mundo não se importou e o silêncio voltou como se não fosse nada. E não era nada. Nada mesmo.
Jogou fora as memórias. A saudade. Jogou fora o resto de amor. Mas aquela alegria doce e aquela tristeza continuariam a habitá-la. Sua pedra azul apodreceria no fundo daquele coração partido.
Quando ela voltou para casa naquela noite não havia lágrimas em seu rosto de boneca perdida. Não havia dor escondida naquele sorriso pálido, apesar de que ainda estava lá, não tão visível, mas ainda lá. Não havia sequer rastro de que alguém havia passado por sua vida e deixado e marcado aquele pedaço de sua história...
E o anel continuava em seu dedo como se não significasse nada, mesmo significando tudo.

Renata Lôbo


"Can we pretend that airplanes in the night sky are like shooting stars?
I could really use a wish right now..."
Ao som de B.o.B e Hayley Williams - Airplanes

quinta-feira, junho 10, 2010


Ela era assim. Muda. Calada. Apática. Sem sinais óbvios de linguagem. Nem mesmo corporais. Não é que ela não soubesse. Ela apenas não queria. Quem é que a julgaria por esse simples detalhe? Se ninguém notasse, então nada mudaria. Se ninguém a visse então ninguém notaria. Havia tantos ninguéns. Havia tanta coisa subentendida em olhares perdidos e secos. Havia sintomas de saudades impressos em tintas coloridas e brilhantes que enfeitavam salas sem visitas. Atuações. Charme. Obsessão. Ela era um pedaço de céu azul em uma tarde cinza. Ou seria o contrário? Apenas uma estrangeira em terra amada. Terra nascida. Uma estrangeira por natureza. Por incompatibilidade sanguínea. Por escolha própria. Por vida própria. Seu estrangeiro era o mundo lá fora. Ondas cerebrais de pássaros cantantes. Notas musicais sem cor e sem riso. Pátria de ninguém, só para variar. Tão clichê, pensou. E tão real.

Renata Lôbo

domingo, maio 30, 2010


Ela se segurava firme. Pronta para muita coisa. As mãos trêmulas, o queixo com um tremor leve como se não devesse estar. Então ela engolia a dor. Levantava-se rodando pelo quarto e contando até três, dez, cem. Qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Ela estava cansada e não se sentia bem. Não. Eu estou bem. Dizia mais para si mesma do que para ninguém. O mundo não importava. Só seu universo onde se contorcia cansada demais de tantas amarras, tantos tombos. Pronta para tudo o que viesse. Ela apertava as mãos como se algo pudesse escapar, como se o mundo pudesse quebrar. Então seus olhos choravam. E ela os fechava como se pudesse evitar que o mundo desmoronasse. Mas tudo desmoronava. Ruía. Então sorria, áspera, como se tudo tivesse sentido. Houvesse um senso. Bola flamejante em mundo normal.


Eu me esqueci. Mas sei que devia me lembrar. Então agora eu lembro. Minha escuridão é minha. Só minha. Não devia ter estragado seu céu com o meu cinza. Mas agora que me lembrei não vou mais esquecer. Que a escuridão que me acompanha é minha melhor segurança, meu remédio venenoso e uma parte substancial da minha própria alma. Talvez tudo tenha sido minha culpa. Veja bem, eu disse talvez, pois ainda acredito no livre arbítrio e por isso decido acreditar nesse talvez, insosso e sem nenhuma cor. Talvez seja muito minha culpa e ainda assim não estou nem aí. Meu mundo é meu e só meu. E acredite em mim, você seria esmagado se soubesse metade da minha verdade.


E ela se acanhava com olhos indecisos como se o paraíso fosse algum lugar que machucasse, como se o ódio não incomodasse, como se o mundo fosse um grande jardim de flores secas onde borboletas negras criavam seus furacões. O céu particular de um modo tolo e prático. Caminhe ao meu lado para que eu saiba que não estou só. Pare o tempo que quero descer. Pare as horas que quero pirar! Pare o mundo para que eu não me destrua.


E por favor, vá vender loucura em outro lugar.


Acendeu então a luz. Pronta para mais um pesadelo.


Renata Lôbo

quinta-feira, março 04, 2010

Olhos


Seus olhos a assustaram. Não se importava que outros tivessem aquela expressão, aquele desagrado, mas quando aqueles olhos a encontraram, não pôde deixar de sentir um calafrio e a vontade de gritar. Por Deus, apenas um grito, mesmo que nada resolvesse, mesmo que o mundo não parasse. Mas então, o que adiantaria? A decepção naqueles olhos continuaria firme. Julgando. Quase matando. Com pedradas. Fagulhas de um ódio delicado se juntavam no fundo de sua garganta. Incinerando-a. Apenas respirou sentindo aquele peso em seus ombros. Esmagando-a com a delicadeza de um sorriso bobo, então ela que se disfarçava em falso amor compreendido, como se nada importasse, e por dentro, tão dilacerada que estava, acordava em pesadelos saltitantes e escoriações em sua pálida alma assustada.

Transfigurava sua loucura em doces fagulhas de ódio moribundo, mas ainda intacto.

Renata Lôbo

terça-feira, janeiro 26, 2010

Erro simples.



Seu erro não havia sido ter deixado a porta aberta. Mas ter passado por ela. Arrogante, irritante, um algoz pedante. Sem passos leves, sua barriga coroada pela gula e pelo tempo perdido para o nada. Seu erro era ser quem era. Era não se importar e não enxergar. Se tivesse visto aqueles olhos ferinos que sussurravam ódio e desprezo, se tivesse notado que aquela pessoa não era mais tão pequena e não sofria de medo congênito, talvez então tivesse tido tempo de respirar e ir embora. Ir embora era uma solução obvia, o único caminho para aquela tarde pálida e ensangüentada. Mas seu erro continuava ali, rindo-se do homem idiota e velho que não entendia a cabeça do martelo em sua direção. Crânio dilacerado. Erro puro.

Renata Lôbo

segunda-feira, dezembro 28, 2009

psicopatia e evolução. - Que o mundo seja um só.


Estava vivendo alguma coisa. Alguma coisa importante, sabia disso, embora não soubesse ao certo o que era. O mundo a envolvia de forma delicada com fatos obstinados e consumados. Consumia-se em sua revolta particular, pois que deixada na ignorância de sua própria alma, aquilo a deixava sem chão, sem pés, sem ninguém. Seu silêncio de túmulo a diferia dos outros à sua volta, tão ocupados que estavam com suas vidas, seus projetos, seus sonhos inacabados e esgotados. Esgotados até os ossos com seus pecados e pesares de almas estreitas. Ela se diluía com facilidade tentando esquecer aquele mal-estar absurdo, aquela vida sem hora, lembranças carcomidas de um refúgio sem abrigo. “Vamos voltar!” ela disse para si mesma sem saber para onde ir, como se chegava àquele vazio que era sua multidão interior? Como se crescia quando seus ossos se colavam às lembranças de um tempo tão parado e enraizado onde o Sol iluminava com olhos infantis seus cabelos encaracolados de azul-opala? Como evoluir se sua condição primária era a de encolher nas paredes vazias de seu quarto deserto? Se em seu interior aquela voz ridícula gritava em cólera absurda contra ela própria?
“Vamos voltar! Vamos voltar! Vamos voltar! VAMOS VOLTAR!!!”
Fechava os olhos presa em seu mundo sem portas, em suas janelas sem chão, sem saltos, sem lar.


Renata Lôbo

sábado, novembro 14, 2009

s...



Eu queria dizer algo, eu não sei. Para a próxima geração, talvez. Para o próximo eu.
Se o mundo fosse da cor que eu quero... Se os sonhos tivessem caramelo... Se borboleta fosse realmente uma flor que voa... Se o meu fim fosse o que pedi...
Talvez eu possa esperar por essas horas que não chegam. Talvez meus sapatos não me apertassem e minhas mãos não tremessem. Talvez o trem tivesse passado cinco minutos mais tarde e eu não tivesse te perdido.
Minha querida, eu quis tanto te encontrar naquela noite solitária onde meu futuro caminhou em minha direção e me disse tudo o que eu nunca podia imaginar. Se eu soubesse o hoje, prometo que teria me esforçado e nunca teria te deixado partir de mim.
Esses sãos sonhos fugazes e o agora que tenho me atormenta. Eu me esforço, mas não consigo te ouvir. Naquela noite eu gritei seu nome enquanto o trem partia, o barulho era tanto que minha garganta quase explodia. Entende? Era minha última chance para te dizer tudo o que não podia. Havia tanto mundo aqui dentro, mas desde aquela noite, acho que me perdi por entre eles, sempre te chamando. Queria ter te mostrado as cores dos meus sonhos. Mas ao invés disso, sinto tanto por ter te empurrado para tão longe de mim, quando você sorria com olhos de felino abandonado me pedindo para que te contasse novas histórias onde tudo seria possível, você sabia sobre os meus mundos e eu nunca havia me dado conta, até encontrar aquela carta abandonada em uma escrivaninha empoeirada no meu próprio quarto. Era sua, me disseram. E o trem já estava quase partindo. Perdi o fôlego ao me lembrar de você, dos seus olhos e sua risada maldosa enquanto eu corria para não perder meu destino. Meu futuro. Minha vida.
Isso foi um sonho, tenho certeza, não há outra forma para descrever sobre aqueles dias em que te encontrava na porta do sobradinho esperando por alguém. Hoje me pergunto se seria por mim... Mas é claro que não. Como poderia?
Enquanto conversávamos você me contava mentiras inocentes e fazia promessa fugazes que eu nunca ouvia. Você me trazia cores que eu nunca notava. Você abandonava sua espera e me acompanhava, e eu nunca entendia o porquê da sua determinação em me mostrar o outro lado das coisas. Mesmo hoje eu não entendo. E continuo voltando à noite do trem, à noite sem adeus, à noite em que tudo fez sentido. À noite em que tudo terminou, pensando que talvez eu possa fazer o tempo parar, fazê-lo voltar e me sorrir de novo. Como você sempre fazia.
Mas já é fim de tarde. É fim de mês. É fim de tempo.

É fim de mim.


Essa saudade é que mata.
O que é saudade?
Você não sabe o que é saudade?
Nunca me explicaram.
Você nunca sentiu saudades de alguém?
Como posso saber se não sei o que é saudade?!
Mas não é algo que alguém lhe deva explicar.
Como você soube que estava sentindo saudade pela primeira vez?
Não diga isso como se fosse uma doença! Não é o mesmo que ter uma dor de cabeça!
Mas não é?
Não... Eu acho que não... Quero dizer, não pode ser... Pode?
E eu é que sei?


Renata Lôbo

quinta-feira, outubro 22, 2009

Bailarina...

A melodia fluía por entre seus dedos e por sua pele branca de porcelana fria. Sentia-a em seus doces devaneios. Arritmias. Fechava os olhos e girava extasiada ao ritmo de um piano com notas tristes. Poderia chorar e chover lágrimas sem sal, pois não seria dor. Era prazer misturado à mais simples e pura alegria. Posicionava-se com formas de bailarina e sapatinhos de boneca. Não enxergava cores, não via gostos, não ligava para belezas mundanas. A música e sua dança eram tudo que precisava para o mundo girar.

Até que a menina fechasse a tampa da caixinha de música e sua vida se tornava uma paciente espera pela próxima corda. Pela próxima dança. Pela próxima música.

Renata Lôbo

quinta-feira, outubro 15, 2009


É que havia também o medo disfarçado em finas camadas de gentilezas e agudo sofrimento domesticado. Havia o ódio pintado na pele com finos traços de ouro falso. Um olhar caído e não visto de falsas emoções encenadas com falsas preguiças. O veneno seco que não escorria pelo sangue negro de petróleo podre. Seu pobre estupor e sua pobre fantasia feliz onde visitava reinos perdidos e secretos. Seus segredos mais íntimos e nunca revelados de mordazes serafins tocando harpas quebradas e pianos desafinados. Seu paraíso era um lugar perdido e encontrado nas páginas amarelas de um arco-íris desbotado. Decifrando as palavras jogadas aos ventos por pessoas desconhecidas, afogadas de amor barato e quebrado. Ilusões compradas e vendidas a preços de lágrimas sem sal, sem gosto, sem emoção.
Se a dor se acalmasse. Se o ódio dormisse. Se o amor ficasse.
Se ela ficasse...
Mas é que havia também o medo.

Renata Lôbo

quinta-feira, janeiro 01, 2009


- Isso realmente dói, ela disse com o coração em frangalhos. Me diz: Isso vai passar?
Ele lhe ofereceu um sorriso terno com um pouco de culpa. A mentira na ponta da língua.
-Eu espero que sim.
- E se não passar?
-Então não passou, e tudo fica bem do mesmo jeito. Até a dor pode ser companhia agradável quando a solidão é tudo que nos resta.
- E se passar?
Ele abriu a boca e fechou duas vezes preso dentro de alguma revelação de sua própria mente. O medo encaroçou seu pescosço. Nunca havia pensado nisso.
- Eu não saberia viver sem a minha... era uma confissão pura e ingênua. Mas era necessário que ela soubesse... o perigo que era perder aquilo que a ligava àquele mundo que ela estava perdendo... Talvez as pessoas pudessem ser diferentes. O medo de novo. Talvez a dor adormecesse em algum momento e se tornase apenas uma segunda camada invisivel, a roupa tocando na pele; e a saudade, pensou, talvez se tornasse apenas um cisco esquecido no canto do olho cego... Não conseguiria mentir. Não quando sua própria verdade estava exposta em sua cara. Calou-se pelo bem dos dois. Pelo menos ela não chorava. Isso era a dor se moldando em sua pele. Entendeu logo de cara.
- Aceite o que você tem agora. Soltou essa palavras antes de lhe dar as costas e ir embora soluçando medos e saudade.

Renata Lôbo

quarta-feira, dezembro 17, 2008


Só que aquilo não contava como parte do seu fatal. Se distanciava do mundo ou das pessoas que a reconheceriam como um mundo. Que as pessoas não esperassem nada dela, era isso que desejava. Cercava-se de carne desconhecida, de rostos que nunca lhe veriam quando a noite ameaçasse lhe morder tirando sangue de sua alma, cada vez mais apagada. Isso era seu doce suicídio, seu segredo sepulcral. Ninguém entenderia e ela seria apenas mais uma dessas pessoas, pouco interessantes, pouco convenientes em mundos pintados de rosa. Talvez estivesse tudo bem ser assim. Sem jogos e segredos; estes, havia enterrado em algum canto junto com seu passado. Porque memórias não interessavam a ninguém. Apenas a ela. E apenas de vez em quando. Pois que o mundo lhe arrancasse tudo. Nada disso importava enquanto aquele pedaço de seu mundo permanecesse salvo, mesmo que enterrado. Mesmo que isso significasse uma alma apagada de rosto comum. Mesmo que ninguém nunca entendesse tudo que era ela.
Não havia volta. Não havia para onde voar. Que fosse assim então. Não era triste. Era sensato. Nada de amores. Não esssa noite. Não para ela. O que quer que existisse naquele instante e naquelas noites, estava incógnito. Escondido entre alguma estrela murcha e pedaços cinzas de seu céu caído. Apenas assim...

Renata Lôbo

terça-feira, abril 15, 2008

Ultimas e despedidas...



- Eu posso prever o futuro. - dissera como se fosse a coisa mais normal de se dizer. Não esperava por uma resposta. Na verdade, evitava olhá-lo já adivinhando o espanto e o ceticismo dele.
Ele não disse nada. Não acreditava nessas coisas e a cada dia que passava, acreditava menos ainda nela.
- Não vai me perguntar sobre o seu futuro? - Ela já se posicionara na defensiva. Apesar do tom irônico, o sorriso ainda morava no canto dos lábios como um hóspede secreto. Mesmo quando tentava ser cruel com ela mesma, não conseguia perder toda a doçura que ele lia como páginas abertas. Enrolava no dedo uma mecha do cabelo curto, olhava para o nada. Olhava para o chão. Reuniu coragem e olhou para ele, que adivinhou a seriedade na ponta dos seus olhos e isso o deixou meio lento e vacilou, hesitou. E ela decifrou seu desapontamento, mesmo quando ele tentava esconder, jogando pra debaixo da cama junto com tantos outros defeitos escondidos. Ela viu. Pregou-lhe um beijo na bochecha e levantou-se da cama para se vestir. Roupas pelo chão. Seus movimentos de bailarina de cristal eram espontâneos e simples. Vestiu-se sem pressa e sem demora. Seu último movimento era carregado de uma melancolia triste.
Ele quis puxá-la para si, afagar seus cabelos, beijar seu rosto de boneca, possuir sua boca. Mas estava sofrendo o mal da paixão quando o sentimento se mescla ao desejo e o estômago se revira e o medo paralisa.
Já ela, tinha muitas cicatrizes de rejeição e por isso tantos muros de concreto e metal venenoso que a protegiam e a matava. Terminou seu último movimento de sinfonia trágica. Calçou seus sapatos com salto plataforma. Olhou-o uma última vez. Aproximou-se como se o ar em volta dele lhe pertencesse. Aspirou seu perfume. Tocou em seu rosto. Gravou em seus dedos a forma daquele queixo. A textura de seus cabelos. Fotografou aqueles olhos. Aqueles seus olhos... Ligou aquelas duas bocas pela língua quente e úmida. Longos segundos. Sem música ao fundo. Sem palavras de consolação. Sem notas de adeus.
Ela previa um futuro imutável, e deixara o homem estático, parado e quebrado em pedaços diminutos. O perfume dela ainda dançava em volta dele. Pela última vez naquele quarto previu o futuro. Sem lágrimas para ajudar. Olhos secos de cigana perdida.

Renata Lôbo


" E se ele resolvesse que queria proteger outra pessoa? Que mal faria? Quem é que se machucaria e o que é que se perderia? Existia um eu perdido e assustado entre paredes sólidas demais para serem derrubadas. O ar era pesado e exalava o cheiro da solidão morta. Se ele não voltasse... Quanto tempo levaria para descobrir que na verdade não queria ficar entre muros intransponíveis e o rosto dela manchados de tristeza mascarada? Deveria saber admtir uma derrota, sem o peso da vergonha. Não suportava mais. Ele que sempre se achou de força extrema. Perdeu. Não podia salvar ninguém. Não naquele lugar. ...
Apareceu como uma lembrança perdida. Um perfume que o transportava para terras distantes, sol e areia clara. Afogava-se. Afundava-se. Mas juro que ele era inocente. O mais inocente que alguém pode ser em lugar onde as almas caem e não há cura, mas muito sangue imaginário. Estou falando por ele que há pouco tempo desistiu de tudo. E de sua boca apenas palavras sem sentido fazem qualquer sentido. Piadas. Palavrão. Nenhuma canção colorida. Nenhuma cor em seus olhos. Começava-se a creditar que era ele quem precisava de proteção. O problema é que ele não notava, ou não acreditava. O homem precisava do colo e dos seios fartos da mulher que ele cansou de tentar salvar. Mas então havia outro problema... Ela nunca pedira por salvação. E ele disfarçava o que nele morria e todo o resto parecia ato heróico e cavalheirismo exagerado.

Acreditasse nas mentiras que contava terminaria acreditando que era capaz de amar. E acreditando, talvez fosse de verdade. Não sabia o que tornava qualquer sentimento digno de confiança. Preferia canções melancólicas e perfumes que traziam lembranças.
Afogando. Perdendo. Vivendo..."


'Eu te amo' eram palavras cruéis demais para se dizer a quem estava tão fundo no poço, colado ao chão, já meio-morto.

Renata Lôbo

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Mas é que ele olhando ela assim, tão pequena e frágil e vulnerável, imaginou que talvez sendo assim, ela não machucasse, e ignorando seus alertas, seus alarmes, aproximou-se a passos lentos sem notar suas garras de leoa ferida e seus afiados espinhos fincados no coração. Então perto dela, ele, um menino, um homem, um senhor conhecedor do mundo inteiro, tornava-se um bebê dando seus primeiros passos no mundo largo e sombrio, levando tombos seguidos a joelhos ralados...
Mas é que ele também não conseguia resistir ao seu charme de menina perdida, sem notar que estava mais para demônio, perdição... Ele, sutil caça, vítima de seu jogo infantil, menina entediada. Não entendia que o perigo às vezes vem mascarado. Marcas se fixariam em sua pele dizendo que o tempo passava encarnado nas horas, ao seu lado, era um amador inexperiente e o mundo era um gosto viciante a descobertas.
E ela, que permitira que esse estranho aproximasse, já preparada a novos espinhos que abraçariam seu coração e levariam um pedaço de sua alma, olhou um pouco desajeitada esperando o golpe que lhe mataria uma vez mais e este não vindo, deixara-a ainda mais arisca por baixo de sua máscara dócil. Já até ensaiara aquele beijo de até nunca mais e, surpreendentemente - ou não - já conhecia até o gosto que ele teria. E a princesa em seus olhos desaparecia . Surgiria lentamente então, nuvens manchadas de um eterno cinza até que um novo sol as pudesse afastar para depois as deixarem mais cinzas ainda.

Como então que viver entre os sonhos de alguém pode ser perigoso?! Como amor é presente mais sincero, poderoso e tolo?! Como então que lágrimas de chuva doem tanto quanto as lágrimas de sangue? Por que na escuridão da alma é onde o amor e os perigos nascem. A escuridão na alma. E o mundo era uma eterna faca de dois gumes.

Renata Lôbo


Ela jurou naquela terra batida - de lágrimas ainda moles, descendo pelo queixo - ela jurou naquele instante que não mais amaria, que não mais desejaria amor, mas que entregaria seu 1/3 de alma àquele que fosse verdadeiramente forte para suportar e enfrentar seus medos, àquele que tivesse a força de um semi-deus, nesse instante talvez quebrasse sua promessa e entregaria mesmo seu coração. Supondo-se que dele ainda restaria qualquer pedaço em qualquer parte. E com os olhos secos, desejou apenas que não demorasse demais, pois mesmo para a dor há um limite de tempo e de lágrimas secas; aquelas que não escorrem pelo rosto febril.

Renata Lôbo
Ela era aquela que caminhava lado a lado às pessoas num invísivel de dor não sofrida. Era também aquela que sorria no meio de tempestades sem calmaria, amando o que não se podia amar, vendo e sendo quem não se podia querer, não por medo, mas porque assim, poderia de alguma forma estar onde não estaria. Mãe sagrada de todo mundo.Onde o sagrado deus de olhos vendados sorria um sorriso terno de criança, amando seus filhos-monstrengos sem alma. Ela, Deusa da terra esquecida, perdida no meio dos seres, uma forasteira na terra de ninguém.

Renata Lôbo
E o que mais ela poderia dizer que já não tenha sido dito?
Lentamente sua alma foi se entristecendo. Estava de braços cruzados sentindo esse cansaço secular lhe abraçar calmamente e nada podia fazer. Aos poucos seu coração começava a doer uma dor sofrida e quase sem cura. Mas sabia que dali a alguns dias isso passaria. Bastava ter calma que a dor iria embora rindo-se dela. O problema era que enquanto isso estava sentindo que seu espírito, sua mente, seu coração e seu corpo todo estavam ficando tristes e cansados como se morressem lentamente.
Por mais que pedisse, por mais que implorasse e, acima de tudo, por mais que ela quisesse, ainda assim ninguém poderia salvá-la de si mesma. Ela era seu próprio demônio e também sua própria caça, e o mundo nada mais era que uma imensa floresta cheia de labirintos onde corria e se escondia de si mesma, inutilmente.
Nunca se dizia para enfrentar seus demônios. Se não enfrentava era porque sabia. Sabia dos seus eus e dos seus ninguéns... Não sabia se tinha medo daquilo que era, mas aceitava humildemente, como se aceitasse o pão de um estranho, sem cor na cara, o sangue muito lento.
Bebia de sua fonte secreta esperando que toda aquela tempestade passase e pudesse enfim voltar à sua vida cansada. Mas, pensou um pouco desesperada, e se a tempestade não passar dessa vez? Será que se podia morrer daquilo? Talvez não fosse tão ruim, abandonar aquele cinza pálido para um nada completo. Não. Sacudia a cabeça vigorosamente. Não importava quanto tempo durasse. Esperaria mesmo que fosse uma eternidade que não tinha, esperaria o tempo que fosse preciso para rever seu doce Sol e aquele céu vivo que lhe anunciava a tão esperada calmaria...

Renata Lôbo

domingo, novembro 18, 2007

Digamos que...


Tinha olhos ferinos e ardentes das chamas mais dolorosas de quem sofre dor em silêncio, e amargas risadas disfarçadas em um ar sapeca de menina inconsequente. Os cabelos se uniam em uma trança única que terminava no meio das costas contendo sua natural selvageria. Usava máscaras como todo mundo. Como todo mundo, em noites de Lua grande, quando a carne ardia e suas cicatrizes curadas se abriam, cantava para a Lua cheia, doce mãe temerosa, que amenizasse sua alma insana, e então um coro funesto de vozes perdidas surgiam pelos telhados da cidade iluminada com falsas estrelas... Deus! como haviam corações esmagados implorando por um pouco de sanidade, por um pouco de paz, de verdades curadas... asas endireitadas... calor humano... e só um pouco de escuridão, para que não se morresse de tédio.

É que essa noite o céu negro me deu medo,
e eu precisei dos teus olhos pra saber quem eu sou

Renata Lôbo

quarta-feira, novembro 07, 2007



E o mundo era um boneco de neve derretido, e a ela restara a pequena alegria forçada de que pelo menos, a àgua no chão não havia se evaporado por aquele sol quente que agora matava seus sonhos!

Renata Lôbo