sexta-feira, setembro 29, 2006

Spatiu




Me dê espaço e eu fujo. Fujo, como fujo das coisas que me impedem de fugir.


Fujo sem remorso, te deixo caído na esquina, e não me importo se está ferido ou sangrando. Ah, meu amor, como me dói não me importar com você, justo você, amigo íntimo da alma minha. Alma conflituosa divagando pela Terra, sozinha, dia e noite e na imensidão desse coração maltratado, quebrantado.
Mas me deixe, me dê esse espaço que te imploro tanto, e eu irei pela porta da frente, e a deixarei aberta para que o vento te leve meu cheiro. Te faço torturas junto com essas juras tão fugazes...

e me amas ainda, terno e paciente, ou será que não vê? Não nota meu desespero para me libertar da sua presença forte e quente e calma? Não vê que por amor a ti, não te quero, não te amo?!

... Não me importo. Não me importo com teu sangue, com tua carne, e dela me alimento mais, me sacio, e dela me desejas, amargo, me anseias. Te diria então, sem amor nenhum em mim, te diria que não te quero, não me quero, não nos quero. Meu olho dentro, afogado no teu. E você me olharia com esses mesmos olhos que conheço tão bem e me abraçaria forte, tenatando matar qualquer coisa em mim que não sei, não conheço, tentando acalmar aquilo que vê em meus olhos escuros como noite fria, sem lua. Acalmasse aquilo que vê em meus olhos, tempestade, mar em fúria, revolto, arisco, tempestade que destrói embarcações inteiras com marinheiros desprevenidos e cheios de coragem tola. Tempestade que afoga e não me mata. E eu te afastaria de mim, áspera, toda dolorida, e você me beijaria, apaixonado, ardente, todo dolorido. E eu não te diria nada, mergulharia no silêncio que há entre nós, te expulsando de dentro de mim. Ficaríamos assim: quietos, compreendidos, com o silêncio que nos transpõe, desde os tempo remotos. Você, todo machucado e alegre, mas não sei viver com gente alegre, e eu não saberia o que dizer nesse momento, mesmo porque... Ah, meu amor, mas eu tenho medo de me cortar e de te cortar com essas minhas palavras agudas e cruéis, e meu beijo seria amargo como planta venenosa entre as flores azuis e sem espinhos. E te imploraria, sôfrega, sem ar por dentro, toda em desespero, te imploraria que me deixasse ir.
Me dê espaço meu amor, pois a tempestade já vem.


Renata Lôbo

domingo, agosto 06, 2006

Tarde mansa de domingo...



E a dor a acalmava como um anestésico, acalmava o rio selvagem que era ela mesma... Suas águas negras que se diluíam em veneno sólido estavam naquele instante enchendo-se de manchas vermelhas... estava morrendo e mesmo isso não lhe era uma coisa toda ruim. A raiva estava encravada na carne como uma farpa dolorida. Já não via as outras pessoas como gente mas como inimigos. Inimigos esses que combatia com seu próprio sangue. Trancava-se dentro de si e se dilacerva toda cheia de mágoa. O dia estava quente e monótono como uma tarde mansa de domingo.
Caminhava lentamente pela rua cheia de barulho: carros passando, pessoas conversando e sorrindo. Uma criança a olhou intensamente e ela retribuiu o olhar intrigada, mas não sorriram, olharam-se criança e mulher e diziam mudamente: sim, eu sei... pensou que devia estar com uma aparência horrível quando chegou enfim em casa. Por quanto tempo será que fiquei caminhando por aí? A casa continua vazia... Sempre esteve vazia... Ligou a televisão e nem sequer se incomodou em mudar o canal, só não queria ficar naquele silêncio. Domingo à tarde e solitária era uma combinação horrível. Podia ter continuado caminhando por horas e horas e horas, mas sentiu que o corpo não agüentaria por muito tempo esse ritmo. Em tempos abafados caminhar era a única opção aceitável e concebível. E no peito a dúvida anulava o caminho claro e certo. Queria entender o que fazia de si mesma, mas ainda não tinha coragem suficiente para entender sua própria resposta.
Pensou em tomar um banho pois assim poderia relaxar, e porque também gostava de sentir o cabelo molhado solto em suas costas. Era uma sensação confortável de limpeza interna... Notou que não chorava há muito tempo. Aprendera a sentir a sua dor - sem nunca entender que dor era essa - aprendeu a sentí-la como se sente os pés no chão, ou a roupa em contato com a pele, tão natural. Mas sabia que ao conformar-se com todas essas sensações e com as suas limitações de pessoa solitária, sabia que isso era uma injecção fatal de veneno amargo. Olhou-se demoradamente no espelho. Ah, tem um vazio tão grande dentro de mim... Por mais que eu me alimente de sentimentos, de dores e alegrias, ainda assim esse vazio continua intenso. Como dói! Olha reflexo meu, olha! Pois não sei quanto tempo ainda pode me olhar... Observou seus próprios traços, o nariz longo e reto, os olhos redondos e vazios... disse enfim, em agonia já exaltada, quase em grito - pois dentro de si, atrás daqueles olhos vazios só existia um grito sem fim: eu sei, eu sei.... Mas não sabia de nada, nem sabia porque se dizia isso. Não sabia de nada... Depois vestiu um pijama com tecido macio e pensou o que mais poderia fazer pois afinal ainda era como se fosse domingo.Um dia precedia o outro e nem mesmo podia saber se isso era o certo.
O que sou neste momento? Para onde penso que estou indo? Porque estou indo? Estou sem sonhos e meu coração tornou-se novamente vazio e pesado, tão pesado que me é insuportável. Logo eu que sempre suportei tanto peso. Tanto nada. As vozes lá fora não dizem muito, apenas me lembram que tenho vida pulsando dentro de mim e que o tempo está passando enquanto me tranco nesse cômodo vazio. Enquanto me tranco dentro de mim. E o que posso fazer de mim? O que posso viver nesse tempo que ainda resta?... Já era noite novamente. Sentou-se no chão do quarto, encostada na madeira dura da cama. Fechara os olhos tentando entrar no mais profundo de si mesma. Será que posso ficar só sentada aqui no escuro absorvendo o silêncio largo da madrugada feia e longa?... Ah! Que seja então! Suspirou cansada. Resolvera pintar-se para sair, afinal era noite e ela ainda era tão jovem. Sabia que se ficasse naquela casa vazia teria a leve sensação de perda. Perda de tempo, o que parecia com perder-se a si mesma, como se ela tivesse uma ligação em relação ao tempo e ao esquecimento... Escolheu no guarda-roupa uma roupa que valorizasse seu corpo, um vestido negro que, pensou irônica, combina tanto comigo!
Saíra para a noite negra e o ar da noite a abraçara quase em ritual romântico. Tudo era de uma melancolia tão densa.... Encontrara-se com algumas amigas na porta da danceteria que freqüentava. ¨Já era hora de você chegar!¨ disse uma delas assim que a viu. Dentro do ambiente, porque nessas horas tudo parecia se passar muito rápido: a compra de bilhetes, a revista na bolsa, as pessoas conhecidas que a cumprimentavam com um sorriso vazio e dois beijos, e a caça cega à procura de um rosto conhecido mas que ela mesma nunca sabia de quem, no meio de tudo isso parecia que uma força a levava e quando se dava conta já estava encostada ao bar com uma bebida na mão. Olhando todo aquele ambiente e a música barulhenta, começara novamente a sentir toda aquela ira que adormecera no momento em que caminhava de volta para casa, pela manhã. Tomara sua bebida em largos goles e quase se arrastara para a pista de dança, e sorria em ira, e não chorava ainda em ira profunda! O que faço de mim? Dançava mergulhada na luz negra com flashes e fumaça. Estava morrendo e mesmo isso não lhe era uma coisa toda ruim...


(Renata Lôbo)

sexta-feira, julho 07, 2006

A fuga dos olhos amarelos...

Ela tinha lágrimas no rosto. Ele olhou assustado. Não esperava essa reação. Mas o que podia esperar de alguém que parecia ser tão fraca, tão indefesa, como se não soubesse ao certo o quanto mundo fora de casa podia ferir?!
_ Eu não quis dizer que você fosse inútil... - ela o encarou com um certo espanto, só agora se dava conta de que estava sendo observada. E àquele olhar, o homem que parecia de pedra sentiu um arrepio pelo corpo - Ou talvez quis. Mas não importa o que eu diga, você é quem sabe quem você é.
_ Como se isso fizesse diferença agora... Você já disse, foi cruel. Mas tudo bem, eu não preciso de você também.
_ Ei menina, o que você sabe do mundo? Não venha me dizer que não precisa de mim assim como se não fosse nada, você nem sabe o que te espera lá fora. - e mais uma vez o seu sangue de homem bruto falou mais alto, fora rude, como estivera sendo mais cedo quando começaram a fugir.
Ela lançou um olhar duro, como se tivesse raiva mas ao mesmo tempo também sentisse compaixão. O que, pelo ponto de vista do homem, parecia o mais inquietante. Era normal que as pessoas sentissem por ele uma espécie de raiva, até mesmo ódio. Estava acostumado a brigar e isso era normal naquele mundo de gente grande. Mas nunca vira ninguém o olhar daquela maneira. Compaixão, isso sim dava medo.
_ Então me diz, o que você sabe do mundo? Porque eu preciso de você?
_ Eu sei de muita coisa. - disse ele como se apenas isso bastasse para colocar um fim àquela pergunta - E você precisa de mim porque sou o único que sabe sair desse lugar.
_ Eu não acho. Acho que você não sabe de nada mas finge que sabe tudo. Assim é mais fácil pra se olhar no espelho quando você acorda, assim você pensa que não sente medo também. Mas tem uma coisa que você sabe, se não sabe eu vou dizer. - ela parou de caminhar e respirou fundo a fim de dizer a coisa mais importante de toda a noite. - Eu não preciso de você! Quero dizer, preciso, mas é só pra sair daqui. Depois eu vou te deixar para trás porque eu não quero ninguém me atrasando. - Ela continuou caminhando e disse quase num sussurro enquanto passava pelo homem que se desmoronava com a revelação da menina de olhos amarelos - Eu só estou te usando e você sabe disso!
Depois continuaram caminhando, ela com o rosto seco, sem lágrimas. E ele perdido dentro das palavras dela.
É... - pensou - realmente acho que não sei de nada. - Mas entendeu enfim porque tantas pessoas estavam atrás da garota de olhos amarelos.

(...)

Renata Lôbo

sexta-feira, junho 23, 2006

O Parque...



Fazia um dia calmo. Tão calmo que quase enjoava toda aquela paz. Caminhava pelo parque e todo aquele verde a sua volta trazia uma calma maior ainda. Não se podia dizer que naquele mesmo momento uma pessoa qualquer e desconhecida morria em um outro canto do mundo. Não, a vista estava perfeita demais para imaginar tragédias que ocorriam por aí. Como imaginar que pessoas sofriam e que alguém olhava para uma terra seca e pedia misericórdia para o Deus, naquele mesmo instante...

E ela caminhava lentamente sentindo o ar leve, o cheiro de vida fresca. Podia-se ouvir um rio correndo com a sua fúria controlada não muito longe, e todas aquelas folhas nas árvores com sua dança ritmada. Não era uma pessoa feliz, mas naquele momento podia-se dizer que o que sentia, se aproximava dessa coisa inconstante e sem som que é ser feliz.
Parou por um instante. Era deserto. Nada além daquela vida muda à sua volta. Fechou os olhos e se sentiu alerta naquele reino que não era seu, naquele mundo que não lhe pertencia, mas que por enquanto poderia apreciar com todos os seus sentidos.
Ouviu um pássaro que se encaminhava talvez para o ninho, um canto fraco mas vivo. As asas que batiam em movimentos rotineiros mas que a seus olhos eram tão incríveis. A luz fraca de um Sol encoberto banhava todo o seu corpo. E o seu coração pulsava calma e suavemente, entrava em equilíbrio com todo aquele universo - um universo, pois era tão vasto e tão magnífico que só podia se dizer de um Universo - então sentiu-se como bicho, como planta. Respirou fundo, e continou a caminhar. Ainda era cedo, tinha tantas horas ainda para viver e terminar o dia. Antes de sair do parque, olhou mais uma vez o balanço suave das folhas nas àrvores, notou o quão intenso era o verde naquela época do ano...

Então eu me encontrei assim, num caminho quase sem fim...

Renata Lôbo

domingo, maio 28, 2006

Cara comum



Era um cara comum. Que levava a vida com um olhar calmo e leve como alguém que nada teme pois nada têm que seja propriamente seu. Não sabia ao certo o que esperava receber da vida, nem sabia ao menos se buscava algo. Um garoto ou um homem, por vezes se considerava um meio-termo estranho. Buscava olhos e olhares, buscava talvez ter sorte e se achar no caminho que trilhava. Se sentia sozinho e os rostos que conhecia não lhe conheciam. Era interno demais. Falava em excesso como toda pessoa que se esconde usando máscaras e rótulos. Se apaixonou uma vez... Mas não foi bem o que queria. E se tornou mais interno ainda.
Cansou algumas vezes pois se sentia leve demais. Ou pelo menos sabia fingir muito bem. Não vou citar seu nome, pois ele não necessitava ter um nome. Era apenas um rosto que se misturava com a multidão espessa. Não sabia o que buscava e sua vida se tornava um monte de achados, pois encontrava muitas coisas - e as descartava logo em seguida. Não saber o que se quer pode ser muito doloroso por vezes, e um tanto arriscado quando se dispõe sem querer daquilo que pode ser a salvação. Mas ele também não sabia que precisava ser salvo. Mas salvo do quê? De si ou do seu não sei? Não ter um senso de direção o colocava em situações arriscadas e muitas vezes arriscava mesmo o seu coração.
Vivia instintivamente o hoje e o agora, pois isso sabia bem fazer. O hoje e o agora... Talvez fosse apenas por falta de opção que se vivia assim. Nunca tive pena dessa pessoa sem nome. Nunca julguei. Viver por um ideal consome muita energia das pessoas, e não dispensar essa energia não era uma questão de covardia, mas uma questão de não saber. De não entender que às vezes se morre por amor. Por amor a si próprio talvez. Por amor a alguma coisa que seja maior do que si mesmo. E existiam tantas coisas para ser e se ter e se desejar, que ele não sabia que era possivel morrer por uma única coisa, por uma única causa, ou por uma única pessoa. E se podia realmente morrer por única pessoa? Mas morrer significava viver. Beber dessa fonte miraculosa que as pessoas se entregam sem medo. Amar e ser amado e ainda assim permanecer inteiro e intacto. Não sabia que se vivia por amor...
Mas era um cara comum, mais um rosto na multidão exsessa. um rosto com um olhar calmo de quem nada teme. Não temia? Não tinha o que temer? Não tinha nada para ser? E ninguém o conhecia. Ninguém iria lhe indicar a direção... Se escondia atrás da sua máscara da imagem de um rapaz de bem, e seguia a direção que já conhecia. Sem entender que o tempo passava e lhe chamava cada vez mais forte. O tempo passava...
E o mundo se ria da sua simplicidade de ser e de não saber. Do seu olhar distante sem porto nem beira. Não cabia direito no mundo que vivia. Não chegava e nem saía. Sonhos não se ganha e nem se pode dar. Vida não se entrega. E nem sempre se luta. Ás vezes se morre, e outras vezes se vive.
E por onde anda esse cara sem nome e de olhar calmo? Nem mesmo sei. Talvez se tenha salvo sem nem mesmo entender o que significava essa salvação. E tanto que falava que tudo um dia iria mudar... Falar do que se foi era uma forma de se ter o que nunca se teve, e o que nunca teria. O tempo passa... e os ventos do presente levam o passado para lá e para cá. Viver é uma dívida cruel que se paga com sangue e suor. Talvez ele soubesse mais do que imaginava e se guardava por não se ter por inteiro. Mas quem nesse mundo se tem por inteiro? Com um falso heroísmo se deixava inocente da vertiginosa verdade do mundo real. Era interno demais e não era por medo, era por piedade de si.

Renata Lôbo

quinta-feira, maio 25, 2006

Cristinne...



Era um dia como tantos outros quando Cristinne foi ao supermercado a pedido de sua tia. Fora ela e o irmão mais velho - um garotinho moreno e magro, de olhos castanhos e olhar sonhador.E era uma tarde que prenunciava uma linda tempestade, que Cristinne por extrema distração, não notou.

Enquanto voltava para casa a chuva prometida enfim desabou. Uma gota, e depois outra, e outra, e várias de uma só vez. Estavam ainda longe de casa quando a água surgiu e totalmente desprevinida, a menina começou a correr, quase em desespero, só queria chegar logo em casa. Notou então que o irmão ficara para trás numa tentativa que lhe pareceu um pouco vã, de apenas não se molhar.
_ Vem!! gritou com sua voz baixa, quase forçada.
O garoto a olhou com um certo espanto e um pouco confuso a encarou por alguns segundos e se decidiu por seguir Cristinne - esta corria à toda velocidade e seus chinelos escorregavam de seu pé pequeno e molhado. Descalçou-os. E neste momento em que se deixava restar sentiu o corpo frio e encharcado. Um prazer, uma paz. Não havia quase ninguém na rua, todos se refugiavam nos primeiros abrigos que encontravam a fim de esperar o término da chuva. Cristinne não se perguntou porque, não lhe interessava saber porque as pessoas esperavam, não se perguntou nem mesmo porque não esperar. Apenas se lançou na aventura.
Uma chuva forte, ventos tempestivos e ruas vazias. Era quase o paraíso. Chegou na quadra de casa, os chinelos na mão, a roupa pregada no corpo. O irmão já a ultrapassara e se encontrava no portão de entrada.
_ Porque não esperaram?? Ouviu o ralhar da tia.
_Ela saiu correndo!! disse o garoto apontando o dedo em direção a Cristinne que nesse instante via o olhar daquela mulher em sua direção, e sabia exatamente o que ela pensava naquele momento: ¨Que menina estúpida!¨
_ Porque você saiu correndo? perguntou o irmão enquanto lhe passava uma toalha. Cristinne já não prestava atenção. Repensou na corrida até chegar em casa, o vestido que pulava a cada passo largo que investia na tentativa de chegar ao seu destino, a água que pulava junto com todo o resto...
_ A chuva parou! Disse ela calmamente e observando pela janela uma fresta de luz que escorria por entre um céu quase negro. Não sabia porque não havia esperado o fim da chuva em um abrigo qualquer junto com o irmão. Poderiam ter evitado uma repreenda, estariam quentes e chegando naquele momento em casa. "E a chuva durou tão pouco!" pensou com uma certa nostalgia. Se tivesse feito isso não seria vista como uma pessoa inteligente, porque não era uma questão de inteligência não sair sob uma chuva daquelas, era uma questão óbvia. Mas ninguém teria lhe lançado aquele olhar de que se lança quando se faz coisas estúpidas.
E secretamente se perguntava também: porque não esperei a chuva passar? Por que não esperei?
Mas a resposta nunca veio, e se veio Cristinne era criança demais pra entender...


Renata Lôbo

sexta-feira, abril 28, 2006

Olhar de gato negro

Tinha a força em si, sabia disso, e por isso se temia tanto. Gostava de pensar que era normal e às vezes até conseguia esquecer que o destino a esperava em uma curva fatal. Via as pessoas à sua volta se preocuparem com coisas pequenas, como cores de sapato e penteados da moda, enquanto ela se preocupava com as coisas que via.
Sentia que um dia - não muito distante - iria embora, ainda não sabia para onde, mas sabia que podia ir e não precisava sequer imaginar o que deixava para trás, assim que chegou estava fadada a ir...
Via o futuro, e aquilo que via não lhe agradava. Se ficasse tempo demais, jamais conseguiria se deixar ir. Se deixar ir era o seu destino, ficar era a sua morte humana. Com buracos estava acostumada, mas não sabia não os ter. Tinha que se forçar a cair neles, tinha que sentir a vida pulsando e escorrendo, como as lágrimas que derramava sempre que se machucava. Mas apesar de tudo, era feliz e forte. E o seu destino era fatal, tão fatal que tinha que correr para não perder o tempo que escorria na ampulheta gigante que lhe mostrava que o fim não se demorava muito.
E vivia depressa com a fúria dos gigantes que eram despertos, era misteriosa como olhar de gato, e os que a olhavam traziam em si uma interrogação imensa... Quem é? Porque é? Se soubesse se responder, talvez um dia restasse tempo suficiente pra conhecer as manias do lugar e se deixar amar pra sempre. Mas não sabia, e sobretudo, não podia saber. Sabia que tinha a força de um cavalo solto, mas era inteligente o suficiente para saber não comprar uma briga que não podia ganhar, não podia se ganhar. Nem ousava se desafiar a restar ou a saber. Era uma tirana e cumpria as ordens que se impunha, viver era um risco fatal, mas era o único risco que aceitava correr. E se deixava ser quando não podia mais ser...
Talvez algum dia restasse. Talvez algum dia alguém a roubasse de si mesma...Talvez algum dia amasse e pudesse tornar-se mansa e o seu fatal a abandonasse... Enquanto isso, olhava as pessoas preocupadas com as roupas da moda e fingia que via as mesmas coisas que elas, só pra não ter que se ir muito cedo, porque quando notassem que ela tinha realmente a força de um cavalo selvagem, já seria tarde e ela estaria em um outro lugar com o seu olhar de gato negro... misterioso.


(Renata Lôbo)

quarta-feira, março 15, 2006



Tenho medo de que você me faça falta. De que a cama se torne muito vazia.

Tenho medo de que me esqueça mais rápido do que eu te esqueça. Sei que é egoísmo da minha parte, mas gostaria que você se fosse somente quando a falta da sua presença não alterasse mais a minha rotina. Mas você me deixa assim, sem dizer o porque. Vai pra um lugar qualquer e espera que eu te espere.

Hoje senti a sua falta e foi doloroso demais. Amanhã você volta atrás e diz que nada mudou. Não sei por onde você andou, mas acho que pode estar errado... Cansei de ser só mais uma nesse seu jogo bobo. Mas me diga como você faz! Como você pode ir embora sem olhar pra trás! Quero aprender a ser fria como você! Quero aprender a esquecer.


Renata Lôbo

09/02/06


domingo, janeiro 29, 2006

Medo de escuro

Levantei-me no meio da noite. Ainda não me lembro bem por que essa vontade súbita. Sei que tive ímpeto de levantar. Andei ainda descalça pelo quarto vazio e escuro, tateei em busca de uma forma conhecida. Vi que as sombras - aquelas sombras que me aterrorizavam quando criança - vi que elas, agora na minha vida quase adulta, tomavam uma forma inesperada e de alguma forma surpreendentemente linda! Como pudera antes ignorar a beleza daquelas formas? Como pudera eu esquecer que existia vida mesmo enquanto nada existia?
Fiquei ali parada por algum tempo. Extasiada, quase emocionada. Mas assustei-me com aquela beleza súbita e lentamente voltei a sentir o horror que há tempos não sentia. O silêncio, a falta da vida, aquela vida pulsante e dolorosamente feia. Mas a vida que enche o quarto quando há luz. Não que eu me sinta menos morta a luz do dia, é apenas que a minha falta de existência é totalmente suprimida com a companhia dos vivos. E à noite, em meio ao silêncio, ao escuro vazio e àquelas formas inteiramente novas e inteiramente lindas, a minha falta do que viver pareciam me sufocar com mais intensidade.
Sufoquei a muito custo um grito de horror. Constatei que eu já não vivia há muito tempo. Não. Meu corpo ainda respirava. Mas há quanto tempo será fiquei parada observando os movimentos vazios do meu cotidiano? E agora estava ali, e uma emoção inteiramente nova me tomava. A emoção da minha consciência. Como despertar de um pesadelo, mas em forma contrária. Acordei no meio do escuro e no meio do nada.
Mas as formas ainda estavam ali e o seus olhos imáginario me observavam. Sentei novamente na cama. Não quero continuar acordada enquanto puder ouvir apenas a minha respiração. Prefiro a companhia dos vivos, ou pelo menos daqueles que não tem noção de que já morreram e que esperam apenas a sua vez de serem enterrados. Não quero mais acordar nesse escuro vazio e nem ver essas formas sem formas. Amanhã compro um abajur.

Renata Lôbo

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Alice e o 'desconhecido'...

Caiu em si finalmente. Como pôde pensar que era tanto, que podia tanto? Ela via o mundo com um certo pudor, uma certa vergonha. Meu Deus, eu estou viva! Como pudera se esquecer disso? Estava viva! Uma afirmação simples, mas tão complexa. Não podia mais voltar atrás. Estava viva e pronto.
Procurou um lugar sossegado onde pudesse se sentar um pouco sozinha. Tinha que pensar nos acontecimentos da noite anterior. Ela lhe dissera tudo que sentia e ele ficou apenas calado, olhando-a. Ele ficou calado, como se não houvesse lógica para uma resposta.
Sentiu o vento tocando leve nos seus cabelos, um afago delicado. O cheiro do mar lhe entrava fundo no corpo, mais fundo do que ela podia sentir. Pensou na vida que podia ter tido e na vida que teve. Uma escolha ruim talvez. Olhou pra trás, em um passado muito distante, ela teria exigido uma resposta: ' Ou me quer ou não!' Mas por alguma razão ficou calada. Sabia que iria se arrepender amargamente por isso. Ela estava viva, mas isso não era suficiente. Queria fugir de si própria, sobreviver a si própria. Sentiu um ligeiro mal-estar, uma vontade insólita de não estar em lugar nenhum. Uma vontade de não ser mais Alice. Talvez Ana, Joana, Isabela, qualquer uma, menos Alice.
Olhou ao seu redor e viu que já não estava mais sozinha. Ele estava ali, bem atrás, tão próximo que podia sentir seu cheiro misturado com o cheiro do mar. Viu seus lábios abrirem em um sorriso, um sorriso quase feio, mas ela não precsava de mais nada. Estava viva e o amava intensamente.
Ele sentou-se ao seu lado no chão da praia. Começou a dizer um texto que parecia ter sido ensaiado. Ele dizia que mal se conheciam. Foi tudo que ela conseguiu entender. Mal se conheciam. 'Que ótimo então! Eu amo um desconhecido!" Era sincero, ela tinha que dizer. Mas pra quê dizer? Deu-lhe um beijo logo de uma vez. Que fosse o primeiro e o último então. Ela era Alice e não seria mais ninguém.

Passou uma semana. Estavam juntos ainda. Ele descobriu Alice finalmente. Tinha os olhos apenas em Alice. Pelo menos por uma semana foi assim. Mas uma noite as coisas foram mal. Ele lhe disse que a amava também. Em uma semana ele já a amava. Apenas uma semana! Olhou aqueles olhos de serpente mais uma vez. Seria a última vez que os veria. Ela o conhecia bem de mais pra acreditar nas suas promessas. Ele iria embora sem que ela ao menos notasse. ''_ Então que você me ame com a intensidade de um 'pra sempre', porque eu sei que na semana que vem não estará mais aqui, e eu preciso acreditar no seu amor sincero e nas suas falsas promessas.''
''- Do que você fala Alice? É sincero!'' e deu uma sonora gargalhada, ele não sabia o quanto ela o conhecia...

Passou-se um mês e ela sentou-se novamente naquele mesmo lugar na praia, recordando o primeiro beijo. Sentia tanta saudade! Ele se fora tão depressa, mas agora ela sabia que estava viva, e não ia mais se esquecer disso. Eu estou viva!
Quanto a ele, ninguém nunca mais soube, saiu um dia de casa e não foi mais visto, nem mesmo o seu corpo foi encontrado.

Renata Lôbo