quinta-feira, janeiro 03, 2008

Os olhos enrugados da velha lhe observavam de cima à baixo. Pegou com uns dedos velhos o cigarro de palha que guardara desde cedo, acendendo distraidamente enquanto eperava que a garota começasse a falar. Mas esta ainda parecia perdida em seus pensamentos. Soltando a fumaça fedida desejou que terminassem logo, pois mesmo na velhice havia pressa em descansar. - Então, o que espera de mim? - dissera perdendo de vez o pouco da paciência que a velhice lhe trouxera. A menina, mexendo delicadamente em seus longos cabelos dourados, respirou fundo tentando encontrar coragem.
- Espero que possa me dizer o que sabe. - dissera simplesmente.
- A idade me ensinou muitas coisas menina. Desculpa, mas terá que ser mais específica. - a menina levantou-se da cadeira andando de um lado para o outro ansiosa. Havia esperado tanto tempo por esse encontrou e agora não sabia como se expressar. Olhava para o chão, olhos vidrados. Buscando as palavras certas.
- Há tantas coisas que desejo saber... - sentou-se novamente fixando seus negros olhos nos olhos cansados da velha, e esta, observando a menina através de sua nuvem cinza de fumaça fedida, sorriu divertida com o nervosísmo de sua convidada. Sem dúvida lembrou-se de Sophia, ambas tinham o mesmo ímpeto e uma certa arrogância, a mesma postura de princesa mimada, mas a menina à sua frente tinha algo que Sophia jamais possuíra. Não sabia especificar ao certo o que seria essa coisa que as tornavam tão diferentes. Retribuindo o olhar fixo à menina, a velha sentiu-se realmente satisfeita em tê-la observado por tanto tempo. Valeu à pena! pensou. E desejou poder viver muitos anos mais para assistir ao desenrolar do destino da menina. Como será que tudo terminaria? Sentia a curiosidade despontar no peito. Ah, já vira tanto da vida, assistira também pacientemente a história de Sophia. E o que gostava mesmo era apenas assistir - embora tenha interferido em algumas coisas quando Sophia apareceu à sua porta muitos anos antes - mesmo assim, não lhe interessava estar na frente das cortinas, mas no meio da platéia.
Deu uma leve batida no toco do cigarro e as cinzas caíram mortas no cinzeiro de vidro, mas mantivera os olhos vidrados aos da menina para que esta começasse logo a falar.
- Sabe que estive a sua procura. Soube que me conhece de longa data, embora seja a primeira vez que te vejo. Como isso é possível?
- Tem razão. Há muito tempo venho te acompanhando. Eu diria mesmo que te conheço como a palma da minha mão! - olhara a palma da mão como se ali visse algo misterioso e inexplicável - Oh, não se assuste menina, há mais coisas nesse mundo do que imagina. E se te interessa saber, eu não sou a única que te observa. - a menina olhou assustada à sua volta, como se tivesse medo de que de repente encontrasse olhos ao seu redor. A velha riu-se. Foi a mesma reação de Sophia, há muitos anos atrás. - Não se preocupe, por aqui não encontrará olhos à sua procura, mas posso te garantir que estarão lá fora à sua espera. - Então a velha, guardando o sorriso tornou-se novamente séria e em seu rosto as marcas do tempo pareceram mais severas ainda. - Sophia deveria ter te mostrado todas as armadilhas que te aguardavam. É pena que ela não teve tempo. Mas você já sabia que eu conhecia a sua mãe certo?
- Eu soube. A senhora dos gatos que me disse para te procurar, disse também que você ajudou minha mãe.
- É. - dissera nostalgica - Isso foi há tanto tempo. Foi uma grande mulher! É por isso que tenho te observado. - Apoiando com os cotovelos na mesa, aproximou o rosto enrugado ao da menina, uma mexa de seu cabelo branco caíra em seu ombro, o que ela afastou com um movimento delicado, dissera quase em um sussurro, como quem confia um segredo:
- Eu estive à sua espera! - depois afastara-se sorrindo um pouco maliciosa.
...

Renata Lôbo


Ela jurou naquela terra batida - de lágrimas ainda moles, descendo pelo queixo - ela jurou naquele instante que não mais amaria, que não mais desejaria amor, mas que entregaria seu 1/3 de alma àquele que fosse verdadeiramente forte para suportar e enfrentar seus medos, àquele que tivesse a força de um semi-deus, nesse instante talvez quebrasse sua promessa e entregaria mesmo seu coração. Supondo-se que dele ainda restaria qualquer pedaço em qualquer parte. E com os olhos secos, desejou apenas que não demorasse demais, pois mesmo para a dor há um limite de tempo e de lágrimas secas; aquelas que não escorrem pelo rosto febril.

Renata Lôbo


Eu não quero ser vítima do mundo, o meu pequeno e egocêntrico mundo. Filha de Deus, de olhos negros de dor e secos de fome de amor.
Quero morrer sorrindo. andando pelos meus próprios passos. Quero tudo o que posso ter sem me preocupar se é arriscado, doloroso ou difícil.
Quero a morfina da madrugada onde meu espírito não se lamente pela solidão. E o grito iminente, quero é largá-lo. Aos berros, quero gritar as minhas dores que nessa temporada quase me matam. Quase! E no quase ainda estou viva. De roupas negras num luto que não passa. Que ainda haja fôlego para mais essa longa caminhada. O tempo anda de brincadeira comigo, cara de palhaça. E no fim, nada disso vai importar. Porque sentimentos morrem de parada cardíaca, desaparecendo na minha própria escuridão. Vou me esquecer dos meus deuses que passaram despercebidos, sem me guiarem para aquele meu destino. E agora estou me esquecendo de algo. Algo que era belo e me fez sorrir, meu sorriso sem dor...
Não! gritei-me de súbito, acordando a mim mesma com minha voz rouca. Recuso-me a ser novamente a vítima indignada e magoada. Que minhas dores, que são minhas e somente minhas, que minhas dores me abram ao meio me rasgando do peito essas lembranças ruins. Mas estou tão cansada desses meus eus, que não se calam e se açoitam e choram feito bebê grande, apenas para não morrerem dessa morte lenta. Mas ainda há borboletas aqui. de asas vermelhas, me rondando como se fosse flor carente. Sozinha nesse jardim imenso...

Renata Lôbo
Ela era aquela que caminhava lado a lado às pessoas num invísivel de dor não sofrida. Era também aquela que sorria no meio de tempestades sem calmaria, amando o que não se podia amar, vendo e sendo quem não se podia querer, não por medo, mas porque assim, poderia de alguma forma estar onde não estaria. Mãe sagrada de todo mundo.Onde o sagrado deus de olhos vendados sorria um sorriso terno de criança, amando seus filhos-monstrengos sem alma. Ela, Deusa da terra esquecida, perdida no meio dos seres, uma forasteira na terra de ninguém.

Renata Lôbo
E o que mais ela poderia dizer que já não tenha sido dito?
Lentamente sua alma foi se entristecendo. Estava de braços cruzados sentindo esse cansaço secular lhe abraçar calmamente e nada podia fazer. Aos poucos seu coração começava a doer uma dor sofrida e quase sem cura. Mas sabia que dali a alguns dias isso passaria. Bastava ter calma que a dor iria embora rindo-se dela. O problema era que enquanto isso estava sentindo que seu espírito, sua mente, seu coração e seu corpo todo estavam ficando tristes e cansados como se morressem lentamente.
Por mais que pedisse, por mais que implorasse e, acima de tudo, por mais que ela quisesse, ainda assim ninguém poderia salvá-la de si mesma. Ela era seu próprio demônio e também sua própria caça, e o mundo nada mais era que uma imensa floresta cheia de labirintos onde corria e se escondia de si mesma, inutilmente.
Nunca se dizia para enfrentar seus demônios. Se não enfrentava era porque sabia. Sabia dos seus eus e dos seus ninguéns... Não sabia se tinha medo daquilo que era, mas aceitava humildemente, como se aceitasse o pão de um estranho, sem cor na cara, o sangue muito lento.
Bebia de sua fonte secreta esperando que toda aquela tempestade passase e pudesse enfim voltar à sua vida cansada. Mas, pensou um pouco desesperada, e se a tempestade não passar dessa vez? Será que se podia morrer daquilo? Talvez não fosse tão ruim, abandonar aquele cinza pálido para um nada completo. Não. Sacudia a cabeça vigorosamente. Não importava quanto tempo durasse. Esperaria mesmo que fosse uma eternidade que não tinha, esperaria o tempo que fosse preciso para rever seu doce Sol e aquele céu vivo que lhe anunciava a tão esperada calmaria...

Renata Lôbo

domingo, novembro 18, 2007

Digamos que...


Tinha olhos ferinos e ardentes das chamas mais dolorosas de quem sofre dor em silêncio, e amargas risadas disfarçadas em um ar sapeca de menina inconsequente. Os cabelos se uniam em uma trança única que terminava no meio das costas contendo sua natural selvageria. Usava máscaras como todo mundo. Como todo mundo, em noites de Lua grande, quando a carne ardia e suas cicatrizes curadas se abriam, cantava para a Lua cheia, doce mãe temerosa, que amenizasse sua alma insana, e então um coro funesto de vozes perdidas surgiam pelos telhados da cidade iluminada com falsas estrelas... Deus! como haviam corações esmagados implorando por um pouco de sanidade, por um pouco de paz, de verdades curadas... asas endireitadas... calor humano... e só um pouco de escuridão, para que não se morresse de tédio.

É que essa noite o céu negro me deu medo,
e eu precisei dos teus olhos pra saber quem eu sou

Renata Lôbo

quarta-feira, novembro 07, 2007



E o mundo era um boneco de neve derretido, e a ela restara a pequena alegria forçada de que pelo menos, a àgua no chão não havia se evaporado por aquele sol quente que agora matava seus sonhos!

Renata Lôbo

Boneca de Plástico...



Boneca de plástico com olhos de vidro, vazios como o infinito, à espera de um milagre. Sangue por todo lado. Abraços forçados, sorrisos falsos. Boneca de plástico de corpo esquelético no palco improvisado de uma vida perdida. Educação fingida, concursos de beleza, a número um! Olhos pintados de rosa, boca desenhada, felicidade invejada.
O mundo que podia ser criado. Sentimentos que a tornavam melhor. Onde dizer o que era real ou ilusão? Por alguns segundos se perdia abrindo asas inventadas e saltando sem medo algum para o abismo secreto escondido dentro dela. Olhava para trás mantendo lágrimas escondidas de si mesma. Toda uma história de desejos renunciados. Talvez quando crescesse sozinha na escuridão que amedronta heróis gregos, talvez todas as suas lembranças se tornassem pequenas salvações. Dizendo que está tudo bem, persegue estrelas mortas para aquecer um pedaço de paz de quando estava nas asas de um anjo, reconforto seguro. E o relógio no pulso marcava o tempo que não voltava mais, e apesar de saber disso, dizia sempre inocente, "Temos tempo!", mais para si do que para qualquer outra pessoa, "Mantenha sua alma à salvo, guarde bem suas palavras e seus nós de marinheiro. Em algum momento a vida irá cobrar por seus erros e nunca entenderão que suas falhas eram apenas por medo de laços profundos e dores insuportáveis. Dizer adeus às vezes pode machucar pra sempre." Diferente do que dizem não há salvação amigo triste, o mundo anda morrendo de solidão, consciência adormecida... Era frio aqueles dias e uma segunda chance era o que todos desejavam.
Acreditasse que amor não morre. Que saudade se apaga. Que olhos se esquece. Asas de anjo partido humanamente. Reconforto esquecido. Flores de plástico sem perfume e sem cor.
Ah, se soubessem que seus lábios machucavam, alma de carne e sangue. Era uma sonhadora e vivia em países imaginários e castelos acorrentados ao céu, embalando em sacos plásticos seus sentimentos para melhor conservar na geladeira que era seu espírito atormentado por dores imaginárias e cortes sem cicatrizes.
Em seu mundo o amor machucava.
Caminhos opostos e cruzados marcavam sua vida. Uma noite longa se anunciava palidamente e seus olhos já vermelhos e cansados quase se recusavam a permanecerem abertos. Quase! E com medo aguardava o abismo silencioso iluminado por estrelas, onde uma Lua infeliz pairava no céu. Sua amargura poderia ter consolo?
Ah, se a primavera dependesse dela... eternos invernos no reinado da boneca de plástico.

Renata Lôbo
Porque essa máscara colorida nesse rosto pálido e sem cor??
Mantos de alegres mentiras sob o céu negro de um mundo despedaçado...
Porque não gritar se a dor era de verdade? Nessa noite de negras estrelas entrelaçadas... colisão violenta de sonhos... ninguém diria o que fazer, nem pra onde ir, ou o que levar... Como podia se perder se no caminho que escolhera não havia curvas? Porque amargas melodias lhe convidavam desastradamente a aceitar propostas indecentes onde tudo que poderia perder era um pedaço de sua alma, um pouco de sua vida e quase todo seu coração?

Dizer seu nome me salvaria? ....

Renata Lôbo


Esquecia-se desatradamente que ninguém é de ninguém...
Seu grito era seco, como o grito de quem não espera salvação. Raíz cortada pra sempre.
Superava sua dor e seu medo. Sentido já não havia há muito tempo, abrira mão de tudo isso... Se perguntava se permitiriam que sentisse tudo o que sentia... Se perguntava se lhe era permitido viver tudo o que queria viver... Futuro era promessa doce... Mas que pena! Sempre quebrava suas promessas no ultimo instante, pois seu espírito se afugentava febril, renunciando a eternidade que lhe ofereciam... Sentido mesmo não havia nenhum... Recusava-se a ter lógica... Atos perdidos, gentilezas esquecidas e insultos ignorados... Quis tanto, tanto, tanto acreditar no que sentia...
Quis tanto entregar seu coração, mas pensando - ou sentindo - bem, deveria renunciar a esse ato humano e mortal. Sem razão nenhuma. Tão complicado por ser tudo tão simples...
Eu te deixo me deixar pra sempre... E o coração reclamava cansado...
Prisão era a liberdade e liberdade era prisão. Vício doloroso.

Renata Lôbo

Sentido Decrescente


Ah, doces sinfonias reguladas ao ritmo do coração!
Ah, doces contravenções em compasso com a alma
em descompasso com o mundo.
Armaduras de papel plissadas ao calor do sangue.
Agudas hastes cravadas na carne feita de amor.
Pesadas ilusões do tamanho de estrelas morrendo de realidade...

Banalidades superficiais.
Caminhos densos
Sorte perdida, alma desprendida.
Passarela inacabada que nos levaria ao outro mundo onde
nos amaríamos sem receio e sem medo e sem tempo finito.

E presente não depende de passado,
E futuro é promessa doce...

(Meu coração acelerado. Canção de ninar. Seus braços, meu lar. Principe Encantado perdido encontra princesa solitária. - Maldições e Pactos. Dilacerações no canto negro de uma alma secreta...)
Sentido decrescente, o mundo gira, ramos me levam, me deixam, me esperam? Ah, esperassem... Quem dera...

Renata Lôbo

Pequena história de Borboleta...



Esbravejava olhando para o céu enquanto perambulava como uma bêbada em seu caminho tortuoso ornamentado de pedras sem valor. "Olhei para o céu pálido-cinza e vi uma borboleta que não me viu, meus olhos ardiam de desejo, é que eu pedi que se aquela borboleta cheia de patas assustadoras e cores fascinantes me olhasse, ou simplesmente fingisse me ver, então algo aconteceria." E o sinal pelo qual tanto pedira não veio, embora a borboleta tenha voado em sua direção, batendo cegamente em seus óculos de lentes grossas, ainda assim não notara seus olhos. Não se desculpou nem nada, seguiu com suas asas amarelas para onde quer que fosse, sem nunca olhar para trás.

Renata Lôbo

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Sentidos....

Ela se olhou no espelho e cansada por alguma razão, começou a preparar-se para sair. Alguma festa, já não se lembrava a razão pela qual sairia. Antes olhou pela janela e viu um céu ao contrário, sorriu pela incoerência ou seria coerência? é que tudo agora lhe fazia um enorme sentido. Mas então voltara para o espelho, apertou as bochechas tentando ter um rosto mais corado, mais saudável, vira isso nos filmes, mas funcionava, ou não. Ah, cansou também de ser artista de cinema!
Abriu o guarda-roupa, passou a mão pelos tecidos sentindo a textura, quase sentia as cores entrando pelos seus poros. Depois cansou daquela calma de domingo e de repente, atirava todas as roupas ao chão com certa violência. Então sentada no chão, cerâmica fria, escolheu cuidadosamente o que vestir: uma saia preta que deixava suas pernas à mostra, as coxas sempre bem elogiadas em todos os lugares em que eram vistas, a blusa era de uma malha fria toda em azul, o que acentuava o negro dos cabelos, estes que estavam soltos como seda, ah, seria um boa noite essa! ou seria dia, é que como o céu estava todo ao contrário, teve certas dúvidas quanto a isso...
Voltara ao espelho mais uma vez admirando o que via. Ah, como se achava bonita mostrando toda sua sensualidade, estava sendo mulher, com suas formas e suas curvas. Então os olhos tornaram-se pesados, cansada, era um cansaço absoluto em que não sentia mais forças para fazer nada. O que faria se não pudesse sair naquela noite-dia? Mas, onde mesmo que ela ia?...
Ah, falta fazer a maquiagem! Olhou contente o reflexo daquela mulher que por alguma razão era ela. A mulher que estava sendo sensual com suas pernas à mostra, ela estava sendo tão seu corpo que era impossível naquele instante entender que... Mas o que ela devia entender? Absorvendo a dúvida, parada, suspensa no instante em que estava, ela olhou à sua volta... Tudo estava ao contrário! Mas porque então tudo fazia tanto sentido?
E o reflexo no espelho a chamou então, dissera seu nome, e houve o som que se faz enquanto fala, ela dissera com todas as letras o nome que era ela, como ela era aquele corpo. Dissera seu nome, e ela aproximou-se pasma, intrigada, curiosa. Olhou então pela primeira vez, pela primeira vez ela não apenas olhou como viu dentro de seus próprios olhos. Ah, mas é isso que há dentro de mim? Um abismo profundo! Mas isso não pode! Não têm como alguém ser tão... Mas o que sentia enquanto caía por aquele abismo? Seus olhos... pintados com maquiagem forte. Sua máscara de guerra, de vida. Seu palco, abismo sem fim. E a imagem de repente ganhou vida, vida essa que ela não tinha. Como você reagiria ao defrontar-se com seu reflexo vivo? O que sentiria esse seu reflexo? Quais seriam as coisas que lhe faria medo. Ela sentia medo ao se ver tão viva daquele jeito, mas sempre se imaginara um pouco mais... mais bonita, um pouco mais elegante. E um grito enfurecido subiu-lhe à garganta, um grito seco e sem eco. Mas voz não tinha, nada saíra daquela raiva ensandecida. Medo profundo. Entendera então de onde vinha seu abismo. Já flutuava num espaço sem fim, pois era o infinito todo aquele lugar. O espelho e as roupas no chão desapareceram e no lugar vieram sombras sem formas, sem som algum, sem sentimento nenhum. Naquele espaço só havia o silêncio eterno. Afogava-se no útero de uma mãe que lhe carregava sem saber quem seria, sem saber que se perderia...

6:15 O relógio toca, acorda com o coração aos pulos, nunca se acostumava com aquele som repentino que a tirava quase à força todas as manhãs de algum lugar... Onde era mesmo? Ah, sem tempo, hora de acordar as crianças e ir trabalhar.

Renata Lôbo

segunda-feira, novembro 27, 2006

Lis de hoje

Ele acordou naquela manhã e o perfume dela ainda estava pela cama, pelo quarto, pela casa. Olhou para o teto pensando nela que já não exitia pra sempre, e em como a noite fora agradável. Se esperasse que tudo fosse perfeito, tudo seria caoticamente desastroso, sorriu com a conclusão a que chegara, fora apenas por não a esperar que ela aparecera naquela esquina, naquela noite e naquela hora. Com seus olhos castanhos avermelhados e cheios de tinta, ela olhou sem surpresa nenhuma para o homem que passava pela sua vida, olhou cheia de encantos, mistério e mulher, era ela assim, com um decote que mostrava que viera para a noite mesmo. No momento em que a viu, e também por não esperar por nada disso, espantou-se. Voltava para casa depois de uma noite cansativa com os amigos, ela não se importava de onde o homem vinha, apenas aproximou-se, inebriou-o com seu perfume, aquele que não sairia nunca mais dele, e da casa inteira. Olharam-se olho no olho, ela sorriu então, toda divertida com a confusão dele, aproximou-se mais, os corpos se tocaram numa tentativa de reconhecimento. Estava te esperando! disse ela em seus ouvidos. Agarrou-se em seu braço e começaram a caminhar lentamente sem trocarem palavras nenhuma. Seu perfume o envenenava e maltratava, seu corpo já era dela, aquela noite já não existia, tempo nenhum existia na palidez de seu mundo. Caminhou apenas, sem pensar no que viria, no que seria, quem seria. Chegaram à casa dele, não era muito longe daquela esquina onde encontraram-se, ela sabia disso. Um pequeno apê de homem que vive sozinho, sem amor nenhum pelas paredes, nos retratos ou no som, casa de ninguém. Tomaram vinho, ouviram música, falaram algumas palavras, nada de importante, nada pessoal, nada que lhes revelassem, nada que pudessem usar na vida seguinte para se maltratarem. Beijaram-se. Amaram-se. Ela lhe dera seu corpo, prazer, tudo que lhe era mundano e permitido. Ele lhe dera sua alma, aprisionada pelo seu perfume, lhe dera a sua casa, seu amor de homem, lhe daria filhos se ela quisesse, casaria, lhe daria um nome. Mas naquela noite ela aceitou somente sua alma, sem direito a reclamção, não mais a devolveria. Adormeceram depois. corpos exaustos, molhados, amados, dados...
E ele acordou naquela manhã e o perfume dela ainda estava pela cama...
Qual o seu nome? ele se repetiu antes de adormecerem.
Hoje, apenas hoje e apenas para você meu bem, eu sou Lis.
E sob o travesseiro encontrava-se uma única flor de Lis....

(Renata Lôbo)

....


Não sei o que fez tudo mudar de vez
Onde foi que eu errei
Eu só sei que amei, que amei, que amei, que amei
Será, talvez, que minha ilusão
Foi dar meu coração com toda força
Prá essa moça me fazer feliz
E o destino não quis
Me ver como raiz de uma flor de lis
(Djavan)

sexta-feira, setembro 29, 2006

Spatiu




Me dê espaço e eu fujo. Fujo, como fujo das coisas que me impedem de fugir.


Fujo sem remorso, te deixo caído na esquina, e não me importo se está ferido ou sangrando. Ah, meu amor, como me dói não me importar com você, justo você, amigo íntimo da alma minha. Alma conflituosa divagando pela Terra, sozinha, dia e noite e na imensidão desse coração maltratado, quebrantado.
Mas me deixe, me dê esse espaço que te imploro tanto, e eu irei pela porta da frente, e a deixarei aberta para que o vento te leve meu cheiro. Te faço torturas junto com essas juras tão fugazes...

e me amas ainda, terno e paciente, ou será que não vê? Não nota meu desespero para me libertar da sua presença forte e quente e calma? Não vê que por amor a ti, não te quero, não te amo?!

... Não me importo. Não me importo com teu sangue, com tua carne, e dela me alimento mais, me sacio, e dela me desejas, amargo, me anseias. Te diria então, sem amor nenhum em mim, te diria que não te quero, não me quero, não nos quero. Meu olho dentro, afogado no teu. E você me olharia com esses mesmos olhos que conheço tão bem e me abraçaria forte, tenatando matar qualquer coisa em mim que não sei, não conheço, tentando acalmar aquilo que vê em meus olhos escuros como noite fria, sem lua. Acalmasse aquilo que vê em meus olhos, tempestade, mar em fúria, revolto, arisco, tempestade que destrói embarcações inteiras com marinheiros desprevenidos e cheios de coragem tola. Tempestade que afoga e não me mata. E eu te afastaria de mim, áspera, toda dolorida, e você me beijaria, apaixonado, ardente, todo dolorido. E eu não te diria nada, mergulharia no silêncio que há entre nós, te expulsando de dentro de mim. Ficaríamos assim: quietos, compreendidos, com o silêncio que nos transpõe, desde os tempo remotos. Você, todo machucado e alegre, mas não sei viver com gente alegre, e eu não saberia o que dizer nesse momento, mesmo porque... Ah, meu amor, mas eu tenho medo de me cortar e de te cortar com essas minhas palavras agudas e cruéis, e meu beijo seria amargo como planta venenosa entre as flores azuis e sem espinhos. E te imploraria, sôfrega, sem ar por dentro, toda em desespero, te imploraria que me deixasse ir.
Me dê espaço meu amor, pois a tempestade já vem.


Renata Lôbo

domingo, agosto 06, 2006

Tarde mansa de domingo...



E a dor a acalmava como um anestésico, acalmava o rio selvagem que era ela mesma... Suas águas negras que se diluíam em veneno sólido estavam naquele instante enchendo-se de manchas vermelhas... estava morrendo e mesmo isso não lhe era uma coisa toda ruim. A raiva estava encravada na carne como uma farpa dolorida. Já não via as outras pessoas como gente mas como inimigos. Inimigos esses que combatia com seu próprio sangue. Trancava-se dentro de si e se dilacerva toda cheia de mágoa. O dia estava quente e monótono como uma tarde mansa de domingo.
Caminhava lentamente pela rua cheia de barulho: carros passando, pessoas conversando e sorrindo. Uma criança a olhou intensamente e ela retribuiu o olhar intrigada, mas não sorriram, olharam-se criança e mulher e diziam mudamente: sim, eu sei... pensou que devia estar com uma aparência horrível quando chegou enfim em casa. Por quanto tempo será que fiquei caminhando por aí? A casa continua vazia... Sempre esteve vazia... Ligou a televisão e nem sequer se incomodou em mudar o canal, só não queria ficar naquele silêncio. Domingo à tarde e solitária era uma combinação horrível. Podia ter continuado caminhando por horas e horas e horas, mas sentiu que o corpo não agüentaria por muito tempo esse ritmo. Em tempos abafados caminhar era a única opção aceitável e concebível. E no peito a dúvida anulava o caminho claro e certo. Queria entender o que fazia de si mesma, mas ainda não tinha coragem suficiente para entender sua própria resposta.
Pensou em tomar um banho pois assim poderia relaxar, e porque também gostava de sentir o cabelo molhado solto em suas costas. Era uma sensação confortável de limpeza interna... Notou que não chorava há muito tempo. Aprendera a sentir a sua dor - sem nunca entender que dor era essa - aprendeu a sentí-la como se sente os pés no chão, ou a roupa em contato com a pele, tão natural. Mas sabia que ao conformar-se com todas essas sensações e com as suas limitações de pessoa solitária, sabia que isso era uma injecção fatal de veneno amargo. Olhou-se demoradamente no espelho. Ah, tem um vazio tão grande dentro de mim... Por mais que eu me alimente de sentimentos, de dores e alegrias, ainda assim esse vazio continua intenso. Como dói! Olha reflexo meu, olha! Pois não sei quanto tempo ainda pode me olhar... Observou seus próprios traços, o nariz longo e reto, os olhos redondos e vazios... disse enfim, em agonia já exaltada, quase em grito - pois dentro de si, atrás daqueles olhos vazios só existia um grito sem fim: eu sei, eu sei.... Mas não sabia de nada, nem sabia porque se dizia isso. Não sabia de nada... Depois vestiu um pijama com tecido macio e pensou o que mais poderia fazer pois afinal ainda era como se fosse domingo.Um dia precedia o outro e nem mesmo podia saber se isso era o certo.
O que sou neste momento? Para onde penso que estou indo? Porque estou indo? Estou sem sonhos e meu coração tornou-se novamente vazio e pesado, tão pesado que me é insuportável. Logo eu que sempre suportei tanto peso. Tanto nada. As vozes lá fora não dizem muito, apenas me lembram que tenho vida pulsando dentro de mim e que o tempo está passando enquanto me tranco nesse cômodo vazio. Enquanto me tranco dentro de mim. E o que posso fazer de mim? O que posso viver nesse tempo que ainda resta?... Já era noite novamente. Sentou-se no chão do quarto, encostada na madeira dura da cama. Fechara os olhos tentando entrar no mais profundo de si mesma. Será que posso ficar só sentada aqui no escuro absorvendo o silêncio largo da madrugada feia e longa?... Ah! Que seja então! Suspirou cansada. Resolvera pintar-se para sair, afinal era noite e ela ainda era tão jovem. Sabia que se ficasse naquela casa vazia teria a leve sensação de perda. Perda de tempo, o que parecia com perder-se a si mesma, como se ela tivesse uma ligação em relação ao tempo e ao esquecimento... Escolheu no guarda-roupa uma roupa que valorizasse seu corpo, um vestido negro que, pensou irônica, combina tanto comigo!
Saíra para a noite negra e o ar da noite a abraçara quase em ritual romântico. Tudo era de uma melancolia tão densa.... Encontrara-se com algumas amigas na porta da danceteria que freqüentava. ¨Já era hora de você chegar!¨ disse uma delas assim que a viu. Dentro do ambiente, porque nessas horas tudo parecia se passar muito rápido: a compra de bilhetes, a revista na bolsa, as pessoas conhecidas que a cumprimentavam com um sorriso vazio e dois beijos, e a caça cega à procura de um rosto conhecido mas que ela mesma nunca sabia de quem, no meio de tudo isso parecia que uma força a levava e quando se dava conta já estava encostada ao bar com uma bebida na mão. Olhando todo aquele ambiente e a música barulhenta, começara novamente a sentir toda aquela ira que adormecera no momento em que caminhava de volta para casa, pela manhã. Tomara sua bebida em largos goles e quase se arrastara para a pista de dança, e sorria em ira, e não chorava ainda em ira profunda! O que faço de mim? Dançava mergulhada na luz negra com flashes e fumaça. Estava morrendo e mesmo isso não lhe era uma coisa toda ruim...


(Renata Lôbo)

sexta-feira, julho 07, 2006

A fuga dos olhos amarelos...

Ela tinha lágrimas no rosto. Ele olhou assustado. Não esperava essa reação. Mas o que podia esperar de alguém que parecia ser tão fraca, tão indefesa, como se não soubesse ao certo o quanto mundo fora de casa podia ferir?!
_ Eu não quis dizer que você fosse inútil... - ela o encarou com um certo espanto, só agora se dava conta de que estava sendo observada. E àquele olhar, o homem que parecia de pedra sentiu um arrepio pelo corpo - Ou talvez quis. Mas não importa o que eu diga, você é quem sabe quem você é.
_ Como se isso fizesse diferença agora... Você já disse, foi cruel. Mas tudo bem, eu não preciso de você também.
_ Ei menina, o que você sabe do mundo? Não venha me dizer que não precisa de mim assim como se não fosse nada, você nem sabe o que te espera lá fora. - e mais uma vez o seu sangue de homem bruto falou mais alto, fora rude, como estivera sendo mais cedo quando começaram a fugir.
Ela lançou um olhar duro, como se tivesse raiva mas ao mesmo tempo também sentisse compaixão. O que, pelo ponto de vista do homem, parecia o mais inquietante. Era normal que as pessoas sentissem por ele uma espécie de raiva, até mesmo ódio. Estava acostumado a brigar e isso era normal naquele mundo de gente grande. Mas nunca vira ninguém o olhar daquela maneira. Compaixão, isso sim dava medo.
_ Então me diz, o que você sabe do mundo? Porque eu preciso de você?
_ Eu sei de muita coisa. - disse ele como se apenas isso bastasse para colocar um fim àquela pergunta - E você precisa de mim porque sou o único que sabe sair desse lugar.
_ Eu não acho. Acho que você não sabe de nada mas finge que sabe tudo. Assim é mais fácil pra se olhar no espelho quando você acorda, assim você pensa que não sente medo também. Mas tem uma coisa que você sabe, se não sabe eu vou dizer. - ela parou de caminhar e respirou fundo a fim de dizer a coisa mais importante de toda a noite. - Eu não preciso de você! Quero dizer, preciso, mas é só pra sair daqui. Depois eu vou te deixar para trás porque eu não quero ninguém me atrasando. - Ela continuou caminhando e disse quase num sussurro enquanto passava pelo homem que se desmoronava com a revelação da menina de olhos amarelos - Eu só estou te usando e você sabe disso!
Depois continuaram caminhando, ela com o rosto seco, sem lágrimas. E ele perdido dentro das palavras dela.
É... - pensou - realmente acho que não sei de nada. - Mas entendeu enfim porque tantas pessoas estavam atrás da garota de olhos amarelos.

(...)

Renata Lôbo

sexta-feira, junho 23, 2006

O Parque...



Fazia um dia calmo. Tão calmo que quase enjoava toda aquela paz. Caminhava pelo parque e todo aquele verde a sua volta trazia uma calma maior ainda. Não se podia dizer que naquele mesmo momento uma pessoa qualquer e desconhecida morria em um outro canto do mundo. Não, a vista estava perfeita demais para imaginar tragédias que ocorriam por aí. Como imaginar que pessoas sofriam e que alguém olhava para uma terra seca e pedia misericórdia para o Deus, naquele mesmo instante...

E ela caminhava lentamente sentindo o ar leve, o cheiro de vida fresca. Podia-se ouvir um rio correndo com a sua fúria controlada não muito longe, e todas aquelas folhas nas árvores com sua dança ritmada. Não era uma pessoa feliz, mas naquele momento podia-se dizer que o que sentia, se aproximava dessa coisa inconstante e sem som que é ser feliz.
Parou por um instante. Era deserto. Nada além daquela vida muda à sua volta. Fechou os olhos e se sentiu alerta naquele reino que não era seu, naquele mundo que não lhe pertencia, mas que por enquanto poderia apreciar com todos os seus sentidos.
Ouviu um pássaro que se encaminhava talvez para o ninho, um canto fraco mas vivo. As asas que batiam em movimentos rotineiros mas que a seus olhos eram tão incríveis. A luz fraca de um Sol encoberto banhava todo o seu corpo. E o seu coração pulsava calma e suavemente, entrava em equilíbrio com todo aquele universo - um universo, pois era tão vasto e tão magnífico que só podia se dizer de um Universo - então sentiu-se como bicho, como planta. Respirou fundo, e continou a caminhar. Ainda era cedo, tinha tantas horas ainda para viver e terminar o dia. Antes de sair do parque, olhou mais uma vez o balanço suave das folhas nas àrvores, notou o quão intenso era o verde naquela época do ano...

Então eu me encontrei assim, num caminho quase sem fim...

Renata Lôbo

domingo, maio 28, 2006

Cara comum



Era um cara comum. Que levava a vida com um olhar calmo e leve como alguém que nada teme pois nada têm que seja propriamente seu. Não sabia ao certo o que esperava receber da vida, nem sabia ao menos se buscava algo. Um garoto ou um homem, por vezes se considerava um meio-termo estranho. Buscava olhos e olhares, buscava talvez ter sorte e se achar no caminho que trilhava. Se sentia sozinho e os rostos que conhecia não lhe conheciam. Era interno demais. Falava em excesso como toda pessoa que se esconde usando máscaras e rótulos. Se apaixonou uma vez... Mas não foi bem o que queria. E se tornou mais interno ainda.
Cansou algumas vezes pois se sentia leve demais. Ou pelo menos sabia fingir muito bem. Não vou citar seu nome, pois ele não necessitava ter um nome. Era apenas um rosto que se misturava com a multidão espessa. Não sabia o que buscava e sua vida se tornava um monte de achados, pois encontrava muitas coisas - e as descartava logo em seguida. Não saber o que se quer pode ser muito doloroso por vezes, e um tanto arriscado quando se dispõe sem querer daquilo que pode ser a salvação. Mas ele também não sabia que precisava ser salvo. Mas salvo do quê? De si ou do seu não sei? Não ter um senso de direção o colocava em situações arriscadas e muitas vezes arriscava mesmo o seu coração.
Vivia instintivamente o hoje e o agora, pois isso sabia bem fazer. O hoje e o agora... Talvez fosse apenas por falta de opção que se vivia assim. Nunca tive pena dessa pessoa sem nome. Nunca julguei. Viver por um ideal consome muita energia das pessoas, e não dispensar essa energia não era uma questão de covardia, mas uma questão de não saber. De não entender que às vezes se morre por amor. Por amor a si próprio talvez. Por amor a alguma coisa que seja maior do que si mesmo. E existiam tantas coisas para ser e se ter e se desejar, que ele não sabia que era possivel morrer por uma única coisa, por uma única causa, ou por uma única pessoa. E se podia realmente morrer por única pessoa? Mas morrer significava viver. Beber dessa fonte miraculosa que as pessoas se entregam sem medo. Amar e ser amado e ainda assim permanecer inteiro e intacto. Não sabia que se vivia por amor...
Mas era um cara comum, mais um rosto na multidão exsessa. um rosto com um olhar calmo de quem nada teme. Não temia? Não tinha o que temer? Não tinha nada para ser? E ninguém o conhecia. Ninguém iria lhe indicar a direção... Se escondia atrás da sua máscara da imagem de um rapaz de bem, e seguia a direção que já conhecia. Sem entender que o tempo passava e lhe chamava cada vez mais forte. O tempo passava...
E o mundo se ria da sua simplicidade de ser e de não saber. Do seu olhar distante sem porto nem beira. Não cabia direito no mundo que vivia. Não chegava e nem saía. Sonhos não se ganha e nem se pode dar. Vida não se entrega. E nem sempre se luta. Ás vezes se morre, e outras vezes se vive.
E por onde anda esse cara sem nome e de olhar calmo? Nem mesmo sei. Talvez se tenha salvo sem nem mesmo entender o que significava essa salvação. E tanto que falava que tudo um dia iria mudar... Falar do que se foi era uma forma de se ter o que nunca se teve, e o que nunca teria. O tempo passa... e os ventos do presente levam o passado para lá e para cá. Viver é uma dívida cruel que se paga com sangue e suor. Talvez ele soubesse mais do que imaginava e se guardava por não se ter por inteiro. Mas quem nesse mundo se tem por inteiro? Com um falso heroísmo se deixava inocente da vertiginosa verdade do mundo real. Era interno demais e não era por medo, era por piedade de si.

Renata Lôbo

quinta-feira, maio 25, 2006

Cristinne...



Era um dia como tantos outros quando Cristinne foi ao supermercado a pedido de sua tia. Fora ela e o irmão mais velho - um garotinho moreno e magro, de olhos castanhos e olhar sonhador.E era uma tarde que prenunciava uma linda tempestade, que Cristinne por extrema distração, não notou.

Enquanto voltava para casa a chuva prometida enfim desabou. Uma gota, e depois outra, e outra, e várias de uma só vez. Estavam ainda longe de casa quando a água surgiu e totalmente desprevinida, a menina começou a correr, quase em desespero, só queria chegar logo em casa. Notou então que o irmão ficara para trás numa tentativa que lhe pareceu um pouco vã, de apenas não se molhar.
_ Vem!! gritou com sua voz baixa, quase forçada.
O garoto a olhou com um certo espanto e um pouco confuso a encarou por alguns segundos e se decidiu por seguir Cristinne - esta corria à toda velocidade e seus chinelos escorregavam de seu pé pequeno e molhado. Descalçou-os. E neste momento em que se deixava restar sentiu o corpo frio e encharcado. Um prazer, uma paz. Não havia quase ninguém na rua, todos se refugiavam nos primeiros abrigos que encontravam a fim de esperar o término da chuva. Cristinne não se perguntou porque, não lhe interessava saber porque as pessoas esperavam, não se perguntou nem mesmo porque não esperar. Apenas se lançou na aventura.
Uma chuva forte, ventos tempestivos e ruas vazias. Era quase o paraíso. Chegou na quadra de casa, os chinelos na mão, a roupa pregada no corpo. O irmão já a ultrapassara e se encontrava no portão de entrada.
_ Porque não esperaram?? Ouviu o ralhar da tia.
_Ela saiu correndo!! disse o garoto apontando o dedo em direção a Cristinne que nesse instante via o olhar daquela mulher em sua direção, e sabia exatamente o que ela pensava naquele momento: ¨Que menina estúpida!¨
_ Porque você saiu correndo? perguntou o irmão enquanto lhe passava uma toalha. Cristinne já não prestava atenção. Repensou na corrida até chegar em casa, o vestido que pulava a cada passo largo que investia na tentativa de chegar ao seu destino, a água que pulava junto com todo o resto...
_ A chuva parou! Disse ela calmamente e observando pela janela uma fresta de luz que escorria por entre um céu quase negro. Não sabia porque não havia esperado o fim da chuva em um abrigo qualquer junto com o irmão. Poderiam ter evitado uma repreenda, estariam quentes e chegando naquele momento em casa. "E a chuva durou tão pouco!" pensou com uma certa nostalgia. Se tivesse feito isso não seria vista como uma pessoa inteligente, porque não era uma questão de inteligência não sair sob uma chuva daquelas, era uma questão óbvia. Mas ninguém teria lhe lançado aquele olhar de que se lança quando se faz coisas estúpidas.
E secretamente se perguntava também: porque não esperei a chuva passar? Por que não esperei?
Mas a resposta nunca veio, e se veio Cristinne era criança demais pra entender...


Renata Lôbo