terça-feira, dezembro 30, 2014



Eu não uso palavras, não me expresso bem, não tenho sintomas de amor, eu não sou ninguém.

Cortaram minhas asas em um tempo em que asas não crescem mais, substituiram o que falta por uma falsa normalidade. Arrogante, arisca, me dôo toda, mas com muita moderação. Controlando o fluxo de pensamento, o fluxo de sentimento, o fluxo de dor. Tudo em pequenas doses, a conta gotas, pra não inundar o excesso que guardo a sete chaves em uma caixa de Pandora maldita, desdita, nem-dita. Minha caixa roída de traças carentes de afeto, carentes de proteção. Me protejo como posso, me salvo quando quero, me deixo se assim desejo. E desejo.. Sempre com muita exaustão.
Me cerceio como o inimigo que sou, me combato, me aprisiono, me protejo, me castigo.  Uma insônia eterna de desamor. Paredes marcadas, contadas... 
Palavras erradas.

quinta-feira, novembro 13, 2014



... É assim, a gente se isola, se inibe, se afasta. E finge que está tudo bem. Finge que a escuridão ainda está longe, há milhas e léguas, afinal, eu tenho um pequeno sol que me aquece nessas noites muito frias. Vamos continuar como se tudo estivesse igual. Finge que o peito não chora, que a distância e a indiferença não machuca, não apavora. Se eu risco o chão e digo ‘esse é limite’, você aceita minha imposição e me deixa com minha lógica inquestionável. Nunca discuta com a loucura, ela sempre vai ganhar. É que a lógica desses dias me explode com suas verdades certas. É claro que eu posso errar, nenhum ser humano está isento do erro. E eu erro. E não volto atrás. Porque voltaria? Porque eu olharia para trás se não há mais nada ali para mim? Porque voltar se eu não existo lá? Não existo também aqui. Não existo em lugar nenhum. Direita ou esquerda? Ainda estou tentando achar minha bússola. Finge que eu não estou fingindo. Eu sei o caminho, eu sei a rota mais curta, a menos perigosa. Brinca comigo que a verdade existe em algum lugar. Brinca comigo que a vida não tá me machucando. Que eu não tô me isolando, porque eu sei bem que o caminho fica escuro e impossível sozinha. Finge que nada disso está acontecendo de novo. Finge que o ódio não tá me acompanhando e me esmagando, esmagando a alegria que eu não sou. Finge que acredita no meu sorriso e que eu sou alguém importante e especial. Finge que eu não tô caindo de novo, e que eu não caí naquela armadilha que eu mesma desenhei. Finge que as palavras não fugiram de mim me deixando sozinha na escuridão sem letras. Finge que eu não estou aqui tentando dar sentido para tudo que não tem sentido, que eu não te assusto porque minha escuridão está sob controle. Finge que eu não estou desgovernada nesse abismo que eu finjo linha reta e me diz que  todo o resto é balela. Finge comigo que não estamos fingindo tudo isso, toda essa conversa que nunca vai acontecer, todo esse sonho que eu nunca vou sonhar porque eu sei que me é proibido. No caminho violento das emoções eu estou em busca de algo que eu sei impossível e inatingível. Finge que eu não me importo. ...

sábado, setembro 06, 2014

Guarda o silêncio, guarda a calma, guarda a alma. 
Aprisiona o ar. 
O ar rarefeito que te esmaga e te sufoca. 
Engole o choro, os hematomas invisiveis, a insônia não vista. 
Esconde a Alma. 
Esconde o coração. 
Joga a toalha. Jogue flores. Jogue o amor. 
Que atinja alguém. No meio da cara. Em cheio no peito. 

sexta-feira, março 28, 2014


O coração batia rápido, descompassado. Um ritmo quebrado e dolorido. Buracos vazios, paredes nuas e retratos abstratos marcavam esse torpor sem sentido, esses sentimentos mal delineados e derretidos. Não importava quantas vezes se importava. Não importava quantas vezes se exportava. O coração vazio e o sentimento perdido. Olhe para os seus sonhos e me diga onde estou. Arranho essas verdades na sua cara porque o vazio me incomoda, suas ações e suas palavras. Esse carrocel amaldiçoado não é pra mim. Jogue fora meus bilhetes, meus sintomas de amor, meus sintomas de não-me-toque. Jogue fora suas certezas, me encontre nas dúvidas. Decifra, meu amor. Decifra o mistério que não sou.

domingo, dezembro 08, 2013


Tanta coisa pode dar errada, tantos momentos de desastres catastróficos evitados por um triz. Do acordar até o dormir, tantas coisas podem acontecer, tantos tetos podem desabar, me soterrar, me desaparecer. Qual o momento? Qual a hora mais escura do dia? Como se achar e se perder e se achar e se ter e se vender e se perder e se deixar e se levar? Sempre por um triz. Sempre por um fio, um arranhão, uma beira, um abismo me engolindo. Se você sabe o caminho e o caminho não está? Se você tem o relógio e não as horas? O sol, mas não o calor? Como se encontrar no entulho do dia-a-dia-a-dia-a-dia?... Cadê meus sonhos e minhas horas? Cadê minhas fantasias de cataventos infantis? Magia. Cores. Algodão-doce. Nuvens de algodão. E naquele sonho de realidade barata em promoção, naquele sonho de vento cantado e sonhos inventados... As horas desabam sobre minha cabeça. Os sonhos... Onde tantos, agora tão poucos. A ordem é recomeçar. Do nada. Pra nada. A ordem é ser. A ordem é inspirar e expirar e inspirar e expirar e inspirar. Retome o fôlego, uma nova caminhada te aguarda. Cadê o sentido? Cadê o Norte? Cadê meu eu? Isso é a vida. Te testando. E todos assistem. Sua derrota. Sua glória. Isso é o mundo. O inevitável do mundo. O inevitável de tudo. Respire fundo. Mais uma vez. Vai começar. O surto psicótico silencioso amortecido por um elo entorpecido. Vai começar. Aplausos no final da estrada, no fim da linha. Silêncio absoluto. O que sou eu está caminhando com um sorriso desbotado e afetado. O que sou eu tem a força de um tufão e quebra tudo e destroi tudo e some com tudo. O que sou eu não te quer e nem te entende e nem te tenta e nem te sonha. O que sou eu aguarda uma não-salvação, porque ninguém pode me salvar, nem te salvar. O que sou eu sonha acordada, mas não entende nada. Aquilo não sou eu. Aquilo nem sei o que é. Aquilo me deixou sem palavras e sem direção. Aquilo me devastou de dentro pra fora de fora pra dentro de sonho pra nada de nada pra nada. Ponto final. Escolha final. Me pegue pelo chão. Meus pedaços, meus rastros. Me ache no caminho. Finge que não é nada disso. Finge que entendeu até o que eu não entendo. Finge que não é sua a minha confusão.

sexta-feira, agosto 09, 2013

Saída de emergência. Vou agarrar essa porta. Um passo de cada vez. Você não vai me encontrar mesmo que me procure. Tic-tac-tic-tac. O sol vai se pôr. Que minha luz não se apague. Estou encontrando os meus pedaços que esqueci ter perdido. Que esqueci de mim. Vou te dizer que estou inteira e você vai acreditar no meu mundo cor de rosa repleto de sorrisos doces e inúteis. Me pegue no colo que meu mundo já explodiu e nem eu sobrei por esses lados. O meu pior e meu pesadelo andam de mãos dadas nessa ciranda embaralhada. Convites não aceitos. Afetos não sentidos. Vamos dizer que por hoje está tudo bem. E talvez esteja de verdade. Vou deixar meu silêncio gritar por mim. Verdades que não aceito. Sonhos que não quero. Admitir derrota. Jogar a toalha. Desitir. Onde estou no meio desse furacão que não sou? Finge que acredita e me dê seu sorriso mais cínico. Não quero nada. Falsas esperanças nunca me interessaram. Nunca fui doce, nem salgado, nem azedo, nem rhum. Finge que sou. Finge que sou leve e o coração está aberto e que tem luz e que meu caos não vai te engolir e te destruir. Finge que eu não mordo.

domingo, fevereiro 17, 2013

Picasso Suicida - trecho


 "Acordou se sentindo mais fraca. A noite foi longa. Brigou mais uma vez com o marido que saiu de casa batendo as portas, dormiu fora. Deve estar no escritório. Não houve muitas situações como essa, nunca tinham perdido o controle dessa forma. Karina sempre achou que essa fosse a força do casamento: a união que tinham parecia inquebrável. Só agora percebia que não havia união alguma, que ambos nem se conheciam há muito tempo. Foi com esse pensamento que adormeceu. Agora ela de alguma maneira conseguia enxergar essa verdade dura. Haviam se afastado. "Porque? Quando?" Teria sido por causa da morte de Carolina. A morte. Pensou quanto tempo mais teria pesadelos e por quanto tempo mais a vida continuaria tão pelo avesso. Quanto tempo duraria essa crise? Enquanto se encaminhava para a mesa, a fim de tomar o café da manhã como todos os dias fazia, passou pela porta do quarto da filha que continuava fechada. Desde o ocorrido não sentiu vontade e nem teve coragem para entrar. Os empregados que arrumaram tudo. Receberam ordens de Caio - que nessas horas parecia muito sensato e maduro - receberam ordens para apenas limpar e arrumar o quarto, como se nada houvesse acontecido. Quando Karina lhe disse que seria inútil e que o melhor seria se desfazer de tudo, desde as roupas aos cds e livros, Caio, com o olhar duro, disse apenas: "Você não vai conseguir isso se não entender." Perguntava-se constantemente o que ele queria dizer com isso. Uma semana depois Caio viajou de férias para a casa da mãe A empregada que encontrou Carolina caída no chão naquela noite horrenda, demitiu-se e saiu do serviço no mesmo dia em que Caio viajara. "Ele bem que queria se demitir também" disse para si mesma. "Se pudéssemos nos demitir da vida que levamos..." Suspirou delicada e se preparou para enfrentar mais um dia, sozinha. "

Renata Lôbo

domingo, dezembro 09, 2012

Era uma vez.


Era uma vez uma história que nunca foi contada. Não que não fosse importante, era de fato estranho que ninguém a notasse, mas a história estava escondida e assustada com medo de seus algozes imaginários. Era uma vez um pedaço de Verão costurado no Outono com um pezinho no Inverno que invejava a Primavera. Essa não é a história esquecida, é só uma história que também não foi contada. Se o destino dependesse desses pedaços de tempo perdidos entre uma sobremesa e outra, talvez tudo fosse diferente. Mas não era bem assim. Uma história perdida e uma história esquecida. Era uma vez uma amizade impossível entre situações que nem existiram. Era uma vez uma palavra perdida entre os muros do silêncio. Esses muros vorazes que matam sentimentos de solidão e chamam o eco para ser carrasco. Eco, faça companhia a essas palavras malditas! Os muros do silêncio não gostam de  desobediência. Era uma vez uma palavra insistente que não se cansava de ouvir o eco que ninguém respondia. Uma palavra que fingia solidão e adormecia na calada do silêncio, não da noite, porque a noite ainda era uma aliada. Ideias tumultuadas vinham espiar sonhos desvanecidos. Era uma vez uma situação tão inusitada que o impossível fez questão de virar as costas. Era uma vez um sonho colorido com papel machê, água salgada e aurora amanhecida. Consegue ver esse mundo que  ninguém te conta, não por medo, mas por necessidade? Era uma vez uma gota de água perdida no Oceano em busca de outra gota de água, que decidiu se tornar chuva para chorar suas tristezas sem fim. Suicida! Diziam. Mas era algo mais, e nem era tão simples. Era uma vez a roda do destino brincando de dona aranha. Aquela que cai. Aquela que não desiste. Era uma vez um pedido de desculpas entalado na garganta rouca. Aquele pedido que ninguém nunca escutou e nunca vai escutar. Seu dono morreu por excesso de palavras entaladas. Um mal existente, sinto informar. Um mal persistente. Sinto não dizer. Era uma vez um sorriso perdido. Um olhar escondido. E um amor não vivido. Mas isso tem aos montes. Eles se amontoam nas calçadas esperando uma chance, esperando que alguém não olhe para o outro lado com indiferença azeda. Esperando que alguém tropece naquela história não contada, daquele verão que vinha na frente trazendo seus irmãos a tiracolo, que alguém tropeçasse naquela palavra que não foi ouvida, naquilo que de tão impossível tinha cores imaginárias, naquela gota de lágrima que se fingiu de Oceano para virar chuva. Eles continuam lá na esperança de que alguém tenha coragem de dizer as palavras não ditas para que ninguém nunca mais morresse desse mal. Era uma vez a esperança, que de tanta espera, se apagou. Um céu cinza picotado de neve negra. Mas não era uma história triste, acredite em mim. Não era absolutamente coisa nenhuma, nada. Talvez isso seja o triste nessa história, como uma tela branca à espera de tinta. Como um papel virgem à espera da metamorfose da carta. Aquela carta que ninguém nunca escreveu. Aquela carta que também matou seu dono. Por excesso de zelo. Por medo. Talvez seja uma história triste. Talvez o mundo esteja acabando. Mas tudo começou com aquele pedaço de história. Aquele pedaço de história que foi esquecido e nunca contado. Por favor, conte sobre essa história para que o peso em seus ombros não te esmague, não te sufoque, não te afogue. Essa é uma corrente. Não. Não é coisa nenhuma. Como essa história que nunca foi lembrada, esse é um pedido que nunca foi feito. Era uma vez uma noite azul. Finge que estou te contando a história, porque a solidão está matando essas palavras aos poucos. Essas palavras que de tão não ditas tornaram-se malditas. Talvez seja realmente uma corrente. Talvez o sono esteja embaralhando essa mente e mentindo outra história, outras palavras, outra vida. Talvez não seja nada disso. O problema é que era uma vez algo que nunca foi dito. E isso era importante. Isso era realmente tudo.

quarta-feira, setembro 12, 2012

Me achando
Me encontrando.
Entendendo meus caminhos.
Meus abismos.
Páginas viradas.
Fotos rasgadas.
Quero sumir sem deixar rastros.
E a saudade, mande embora. Hoje não estou.
Hoje não sou quem você quer.
Hoje, eu sou quem eu quero.
Volte mais tarde
Com suas palavras malditas e nem ditas.
Volte depois.
Se conseguir me encontrar.
Se conseguir acompanhar.
Flores se abrindo ao som da alvorada.
Me leve pra dançar. Me leve daqui.
Passos leves.
Luzes no meu cabelo incandescente.
Seu sorriso na palma da minha mão.
Meu nome.
Me perca.
Me esqueça.
Me retenha.
Ignore o que eu digo.
Ache o que eu não digo.
Me livre do medo.
Me livre do mal.
Mas não me livre do meu sorriso.


domingo, junho 17, 2012

Finge na hora rir


Se eu fingir que acredito em você, você finge que acredita em mim? Disfarça seus sonhos em mim, vamos caminhar na mesma direção fingindo que não vamos nos perder. Seu controle reflete meu desejo e eu finjo que entendo esse frio que dá nos ossos em noite solitária. Disfarça seu medo em mim que eu finjo me perder por entre seus labirintos bem desenhados. Quero acreditar nesse conto de fadas que você me conta antes de dormir pra me fazer sonhar com possibilidades imprevisíveis. Deixa eu me esconder nesse cavalo oco enquanto você me atropela com suas histórias que escuto com uma atenção benevolente porque quero muito ser parte desse cenário incompleto que você busca, em desespero, preencher. Vamos fingir que a maré não nos afogará com essas meias verdades que nos contamos sempre que é conveniente, porque o amor tirou férias permanentes entre aqui e lá, e o que restou foi uma distância lúcida. Me seguro na borda pra não ser arrastada pro seu mundo - finge que acredita que eu não quero. Disfarça a sua falta de interesse na minha falta de atenção e eu finjo que você completa o que em mim falta.
Se eu acreditar em você, você acredita em mim?

quarta-feira, maio 09, 2012

A Louca




O caminho era longo e o coração já palpitava na boca enquanto antecipava a noite que se aproximava com seus passos lentos. Há muito não se via o sol no horizonte e mesmo o vermelho desbotado já havia desaparecido do céu, sendo trocado por estrelas zombeteiras em seus casulos brilhantes, que ela observava entre uma esquina e outra.
Os olhos calmos escondiam a tempestade que se aproximava. Não prestava atenção à sua volta, mal tinha noção de si própria, de seu corpo, seu pedaço de mundo. Há muito havia se esquecido de si mesma e se entregado a essa rotina. Mas se lhe perguntassem, estava bem, estava inteira. Mesmo que fosse pedaços diminutos de quem um dia fora. Estava à caminho, e isso lhe bastava por hora. Caminhando lentamente pela contramão, vendo os faróis que refletiam seus olhos de gato perdido. Abandonado.
E então sorriu. Um sorriso pálido de quem nada espera. Um sorriso largado em  descompasso com os olhos, com o tempo. Não pensava no que estava fazendo, no que havia se tornado, apenas se deixava ir, sem pensar no tempo, nas horas que não se contentavam em devorá-la, mas devoravam tudo o que dela havia restado. Restos de uma vida que mal se lembrava. Não havia tempo. Apenas essa entrega.
Então havia chegado.
Estava bêbada. Gritava. Brigava. Xingava. Estava sozinha. Ela contra o mundo todo. O mundo que machuca e que a maltrata. E nem uma palavra seria suficiente para expressar toda a sua raiva, toda a sua ira. Ira por todo mundo. Pelo mundo todo. Nada se podia fazer, nada a conteria, não naquele momento. Aquele era seu momento e não precisava entendê-lo, apenas aceitava que o mundo girava assim. E os minutos passavam, as pessoas à sua volta olhavam, escutavam, havia risadas mal disfarçadas. Um embaraço contido.
Ela estava perdida e chorava. Bebia mais um pouco, apenas para encontrar a coragem para gritar suas dores em voz alta. Ela gritava e chorava de novo. Ela pega um copo e o quebra, não se satisfaz, quer destruir tudo, quer destruir tudo até mesmo a si própria, por que talvez assim pudesse ter um pouco de paz.
Sentou por um instante em busca de fôlego e as rugas no rosto se fizeram presentes, as marcas de um tempo que tinha um fim anunciado. O tempo que passava entre um gole e outro, entre um murro na mesa e um urro histérico, e então calmamente ela retomava toda a sua ira. E gritou com todo mundo e com ninguém. Tornou-se vulgar, queria era bater em alguém, os pedaços do copo não a satisfazia, não era suficiente ter cacos pelo chão. Queria mais, queria sangue, queria gente.
Queria afastar os rostos que a assombravam em noite quente sem lua no céu. Os rostos que nunca mais a veriam. E se a vissem? Pensava entre um devaneio e outro, entre uma injúria e outra; e se a vissem? Teriam rido da criatura patética que havia se tornado? Correndo de bar em bar, só para ser expulsa ao final de cada noite, só para voltar no dia seguinte gritando suas dores para pessoas que nunca a entenderiam?
Mas não havia volta. No fundo sabia bem disso, não havia como voltar àquela vida construída e desconstruída como retalhos podres de uma coberta fria. Mas então, porque sentia que queria tudo que podia ter e que o mundo não lhe dera? A noite mansa caminhava lá fora, em breve seria dia e seus fantasmas a deixariam, porque era hora de dormir, de sonhar um pouco.
Em breve seria hora de dizer adeus, encostar seus cabelos emaranhados no travesseiro puído e por um momento deixar de existir. E esse momento era doce. Mas por enquanto ela bebia e chorava toda sua dor e toda sua ira. Ira de mulher solta, de mulher triste que não tem ninguém para quem ser. Era mulher da noite que não sabia nada, mal sabia sonhar, nem mesmo sabia se ter.

segunda-feira, maio 07, 2012

Então vem e tira esse silêncio pra dançar. Quebra a barreira da distância que nos separa e me mostra como entrar no seu mundo de faz de conta. Não me deixe à beira mar para ser levada pela maré alta. Quero a aventura completa e o sorriso mais sincero que você guarda no bolso. Sem meias palavras, nem meios gestos, que o quase me confunde, me atordoa, me entristece. Vamos conversar essas palavras não ditas e devorar os desejos não consumidos. Quero uma fada no meu ombro que me sussurre as verdades que não vejo. Te mostro o caminho e você me acompanha em procissão, pois que essa solidão já tem suas vítimas. Me traga luz. Quero meu mundo em chamas! Vamos ficar assim então, que a noite é longa e fria, e a saudade mora logo ao lado. Não me espere muito tempo, não me deixe muito longe. Quero voltar para aquelas horas em que o faz de conta fazia tanto sentido e a brincadeira era simples. Flores batendo asas. Meu lugar preferido continua sendo à sombra das suas palavras, suas histórias, suas aventuras.
Eu só queria que fosse assim... Você aí, me procurando no meu mundo.

terça-feira, fevereiro 14, 2012


Ah, o coração ficou tranquilo com a promessa do dia seguinte que surgia junto aos primeiros raios de um sol avermelhado. Se soubesse dos dias seguintes, provavelmente estaria amedrontada. Existia um futuro, mas até onde esse futuro a levaria? Se caminhasse pela calçada sobreviveria aos perigosos carros que vinham pela contramão. Não! Era ela quem andava pela contramão agarrada à uma bandeira branca, apenas para enganar os inimigos, ou para enganar a si mesma talvez. Para se surpreender e continuar andando mesmo depois de desistir, mesmo depois de gritar em alto e bom som - Eu desisto! E se agarrava à prova visível dessa desistência. Eu desisto! E o fogo nela, pequeno e pálido, se aquecia como sinal da força inesgotável que escondia de si mesma. Adorava descobrir que ainda tinha fôlego para mais uma longa caminhada. Embora soubesse. Ah, sempre sabia até onde podia chegar, mesmo que o futuro nada lhe revelasse, mesmo que o dia seguinte fosse apenas uma promessa, sabia que podia sempre se levantar... Mas precisava da surpresa, do prazer que era cada descoberta, e escondia de si mesma - como um cão que escondia o osso apenas para depois encontrá-lo enterrado num lugar esquecido - escondia a sua própria força armazenada no seu mais profundo abismo, e este, enfeitava com flores azuis só para ver, intrigada, a ironia da beleza e das flores que nasciam também em túmulos, em terra seca, terra queimada.
Brincava com o perigo - pior que fogo, porque desse ainda se podia morrer - Se balançava no seu nada como um jogo de vai-e-vem, destemida e impregnada de um acaso que só a sorte concebia. Só o acaso, só a sorte, e estes se mesclavam e surgia então a sua própria ira. Dizia adeus ao próprio Deus, e Desse nada mais se tinha. Erguia a cabeça então, reta, esguia, como serpente encantada. Atormentava-se sempre, com questões irrelevantes, com medo, sempre o medo de descobrir a resposta:
- ... .



Que a resposta nunca chegue.

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Depois da meia-noite...


E ela se perdia assim, em uma tarde de chuva derretida, com pés descalços e o coração desbotado, enquanto algo dentro de si gritava com uma violência muda. Ela poderia correr o quanto quisesse, poderia fugir e se embrenhar no desconhecido caminho à sua frente. Paisagens novas e rostos frescos de memória não utilizada. Podia ser qualquer coisa que quisesse e mesmo assim tudo estaria certo, pois que ela não seria vista, sentida, perdida.
Preenchia o silêncio com suspiros vazios de uma melancolia calculada. E então afastava seus suspiros, seus dissabores, suas dores, com um falso riso e um som cristalino de inutilidade ornamentada, e quando se atrevia a olhar para dentro, via monstros e aberrações disfarçadas em um heroísmo barato. Sua força arquejava com uma respiração lenta e pesada em que o ar se recusava a entrar, a existir. Era forte. Ou pelo menos, era o que aparentava. E se algo estivesse errado, sorria. Um sorriso sem sol, sem calor. Sem nada. Como se soubesse tudo. Como se não soubesse nada. Fingia, era certo. Fingia muito bem. Fingia saber qual estrada seguir, quais passos dar, quando fazer os olhos sorrirem. Fingia uma certeza inexistente e acreditava em fantasmas, assombrações e bicho-papão à meia-noite.
Depois dessa noite, vem me buscar e me levar para longe daqui.
Acreditava em verdades perdidas, mal ditas e malditas... verdades fantasmas. Verdades que não eram mentiras, nem verdades. Verdades. Sabe como é? Ela fingia que sim. Fingia muita coisa. E até o seu sol parecia de mentirinha. Uma brincadeira inconsequente de cores sem cores. Depois da meia-noite, abrace seus sonhos, abocanhe seu ego, rasgue suas flores e me diga o que dizer.
Não deixava seus sonhos irem muito longe e os mantinham acorrentados, pois tinha medo de ser abandonada, de ver seus sonhos atropelados na rodovia esburacada. Segurava-os entre dedos muito leves e unhas coloridas, escarpadas de um sangue barato.
Depois da meia-noite só restava ela.
Ela e seus fantasmas. Que não se esquecesse deles, pois eles não se esqueciam dela.
Depois da meia-noite um corcel de fogo vinha lhe salvar entre sonhos e almofadas.
Depois da meia-noite o que restasse...
Lance os dados. Quero correr por campos coloridos. Pode me levar até lá? Te deixo entrar no meu mundo e você me acompanha enquanto eu te dou minha mão. E te largo entre labirintos bem desenhados. Sou escorpião, amigo. Sabe qual? Aquele que te abandona, te fere e se mata com venenos ilícitos, porque depois da meia-noite, se eu fosse você, corria por sua vida.
Corria pra sempre.
Ela era assim, fantasma em cemitério.
Mas era tudo muito sem querer. Um acidente delicado. Desses tão irônicos e trágicos que buscam uma gargalhada cínica no fundo da garganta. E uma lágrima espremida dos olhos. Uma antítese quase perfeita, quase feita, quase inteira. Quase ela. Esqueça as palavras. Elas aqui não te ajudarão, não te levarão para lugar algum. Porque da boca não virá verdade alguma, salvação alguma. Da boca virá maldições e um sem-fim de pragas. É o fim do mundo. Acredite em mim. Sua mentira era quase sincera. E tinha um fundo de verdade, um fundo de dor. É só pra te proteger, amigo. Juro. Para te proteger de tudo isso que você não conhece e não entende. Acha que está vendo o que está vendo? É ilusão de ótica, garanto. Tudo de faz de conta. Faz de conta que era assim, que não era tão difícil, nem tão complicado, nem tão solitário. Faz de conta que era tudo de verdade. Faz de conta que você entendeu, e aceitou, e amou.
Faz de conta que ela não se afogava em um sorriso falso.
Pegue a minha mão que o sol já vai nascer. Vou te libertar para sempre.
Até a próxima meia-noite.

Renata Lôbo

sábado, dezembro 31, 2011


- Eu não me importo com você. - disse novamente, mas dessa vez não era para ele. Era para ela mesma. Seus olhos estavam perdidos em algum lugar e quando o olhou fundo nos olhos, eles estavam pesados de alguma dor que ele não conhecia. Ela estava falando sério, e por um momento ele entendeu isso.
- Então o que você quer? Quais são as promessas em que você quer acreditar? - sua expressão era de confusão. Sua confusão não era pela pergunta, mas pela resposta.
- O que eu quero... - e seu olhar parecia vidro frio, um cômodo vazio numa noite de inverno. Quais lembranças sua mente visitava? - Amor. Mas não esse amor bobo que você promete para a sua namoradinha. Eu quero conseguir amar. E depois disso, aceitar que alguém me ame. O mundo e as estrelas que você promete não me interessam.
Ela continuou com seus olhos fixos nos dele, quase o afogando no silêncio que se instalara entre os dois. O garçom trouxe mais bebidas, e ele se pegou agradecendo silenciosamente aquela interrupção. Ela se levantou dizendo que ia ao banheiro, e vários minutos depois ele finalmente entendeu que ela não voltaria. Tomou mais algumas doses daquela bebida. O coração ainda batia de forma irregular. Quem no mundo poderia prometer ao outro a capacidade de amar? Ele se viu pensando isso horas depois, dias depois, semanas depois... anos depois.

Renata Lôbo

segunda-feira, novembro 21, 2011


Levando sustos pelo tempo. Acariciando as horas, que me mordem, cínicas.
Porque não é você que me persegue, mas o seu fantasma. A memória daquilo que não vivi. O desejo daquilo que não tive. Por isso que toda noite, antes de dormir, eu peço para quem quer me escute, para quem quer que cuide de mim, quem quer que esteja aqui. Por favor, por favor, me livra dessa obsessão, por favor.
Toda vez que sonho com você, isso me parte o coração. Toda vez que não sonho com você, me parte o coração também - quando você não aparece nesse faz de conta para me desejar boa noite, para fazer meu coração disparar e me sorrir esse cheiro que só você tem, tão seu, tão meu. Está faltando seu sorriso por aqui. Me parte o coração você nunca estar nas esquinas do meu mundo. E eu continuo pedindo, por favor, por favor, me livra dessa obsessão. Mas é que ficou tudo tão complicado que só a solidão ficou me fazendo companhia, e a sua voz sumiu do meu ouvido, e eu nem entendo nada disso. Tudo que me restou foi uma única lembrança que eu insisto em esquecer, que eu não olho nos olhos por medo, porque eu não sou uma lembrança e essa mão de via única que me dói inteira. Se eu me deixar guiar por isso que não entendo e mal aceito, vou acabar batendo contra os postes da sanidade, e isso pelo menos eu sei. Porque é só o seu fantasma que eu vejo. Por isso eu peço por favor, por favor...

Renata Lôbo

domingo, outubro 23, 2011


Se tudo fosse simples, talvez eu entendesse meu mundo. Se tudo fosse fácil... talvez eu destruísse tudo, só pra complicar um pouco.
Pensa que pode comigo? Pensa que consegue acompanhar? Entender?
Pense de novo.

Renata Lôbo

sábado, setembro 24, 2011


Vou me achar por aí, perdida entre a roupa largada pelo chão. Vou me vestir de mim mesma, me revestir com minha armadura rachada, que me protege dessa solidão que ameaça se instalar e nunca mais ir embora. Vou me proteger de você, porque cansei de me doer.

Mas é que de vez em quando a gente é surpreendida com um coração que lateja.

Lateja, lateja, lateja...

Renata Lôbo

domingo, setembro 04, 2011


Vou me deixar aos pedaços
para você me achar pelo caminho.

Renata Lôbo

sábado, julho 23, 2011


Tantos prós e contras que nem sei de que lado ficar.
E se o teto desabar? Essa noite? Esse dia? Esse instante?
Aquela janela da alma tinha a luz apagada e reflexos de uma lua prateada clareavam lágrimas esquecidas. Não era o fim, pensou assim, sem pensar mesmo. Uma longa caminhada e um destino incerto, não que fosse o certo, mas era o aceitável. Ondas de um calor sem noção.
E se as palavras se tornassem armas? Armas de verdade, dessas que tiram sangue da boca espumante? Da boca nem tão boca. Da boca que grita injúrias e perjúrios de uma mentira solene. Eu te amo era contado em faz de conta, e as contas de uma pérola enferrujada ressecavam um pescoço esquecido. Deixado. Me cante uma canção de ninar para que meus sonhos sejam doces nessa noite longa e negra, sem espera, a esmo em uma verdade sem resposta.

Renata Lôbo